A Corte Constitucional da Tailândia destituiu nesta sexta-feira (29) a primeira-ministra Paetongtarn Shinawatra por violação ética, após apenas um ano no poder, em mais um golpe contra a dinastia política Shinawatra que abre caminho para um novo período de turbulência no país do Sudeste Asiático.
Em seu veredicto, o tribunal afirmou que Paetongtarn violou regras éticas em uma ligação telefônica, vazada em junho, durante a qual ela aparentava se submeter ao poderoso ex-líder cambojano Hun Sen — até recentemente aliado próximo da família Shinawatra—, quando os dois países estavam à beira de um conflito armado na fronteira.
Paetongtarn telefonou a Sen para discutir as tensões. Na conversa, chamou-o de “tio” e se referiu a um comandante militar tailandês como seu oponente, de acordo com a gravação. Semanas depois, combates eclodiram e duraram cinco dias.
Paetongtarn estava no poder havia menos de um ano e agora torna-se a sexta chefe de governo da família bilionária Shinawatra —ou apoiada por ela— a ser removida pelo Judiciário ou pelos militares, em uma batalha política de duas décadas entre as elites rivais do país.
“Aceito a decisão do tribunal”, disse a primeira-ministra a repórteres.
Parlamentares conservadores a acusaram de se curvar ao Camboja e minar as Forças Armadas. Eles também a acusam de violar disposições constitucionais que exigem “integridade comprovada” e “padrões éticos” por parte de funcionários do governo.
No julgamento, a corte declarou que Paetongtarn colocou seus interesses pessoais acima dos da nação, prejudicando a reputação do país e causando perda de confiança pública.
O escândalo levou um importante aliado conservador do partido Pheu Thai a deixar a coalizão, e milhares de pessoas protestaram contra a governante em Bancoc no fim de semana.
“Devido a uma relação pessoal que parecia alinhada ao Camboja, a ré mostrava-se constantemente disposta a cumprir ou agir em conformidade com os desejos do lado cambojano”, disse o tribunal.
A decisão encerra prematuramente o mandato da filha e pupila do influente magnata Thaksin Shinawatra. Paetongtarn, 39, era uma novata na política quando foi lançada aos holofotes após a surpreendente destituição de seu antecessor, Srettha Thavisin, pelo mesmo tribunal, um ano antes.
Paetongtarn pediu unidade entre todos os partidos para garantir estabilidade política na Tailândia.
“Tudo o que eu queria era proteger a vida das pessoas, fossem soldados ou civis. Estava determinada a fazer tudo o que pudesse para salvá-las antes que os confrontos violentos ocorressem”, declarou a jornalistas.
Com a destituição, já são cinco primeiros-ministros em 17 anos a serem removidos pela Corte Constitucional, o que mostra o papel central do tribunal na longa disputa de poder entre os governos eleitos da família Shinawatra e a rede de conservadores influentes e generais monarquistas com grande alcance político.
O foco agora se volta para quem substituirá Paetongtarn. O vice-primeiro-ministro Phumtham Wechayachai assumirá interinamente até que um novo premiê seja eleito pela Câmara, sem prazo definido para que isso ocorra.
A decisão mergulha a Tailândia em mais incertezas políticas em um momento de inquietação pública diante de reformas paralisadas e de uma economia enfraquecida, que o Banco Central projeta crescer apenas 2,3% neste ano.