Cristãos nos EUA se dividem sobre oposição ao ICE – 28/01/2026 – Mundo

Cristãos nos EUA se dividem sobre oposição ao ICE -


A repressão à imigração em Minneapolis, nos Estados Unidos, está revelando divisões entre líderes cristãos em todo o país sobre quais são as respostas religiosas apropriadas às táticas mais agressivas do ICE, a agência de imigração do país —que tem sido usada de forma ostensiva pelo governo de Donald Trump e já provocou duas mortes de cidadãos americanos durante abordagens.

Bispos episcopais em New Hampshire e Minnesota recentemente orientaram seus fiéis a estarem preparados até mesmo para a morte a fim de proteger os vulneráveis. Membros do clero participaram, junto com líderes sindicais e outros grupos civis, da convocação de uma greve geral na sexta-feira (30) para protestar contra o ICE. Foi depois dessa greve que Alex Pretti, 37, foi morto por agentes federais.

Uma rede de grupos progressistas que havia incentivado membros do clero a irem a Minneapolis no final desta semana disse que seu evento foi motivado por “uma crise de comunidades de fé que não conseguem viver de acordo com uma visão de Comunidade Amada”, anunciando o chamado à ação como uma extensão do manto religioso das marchas pelos direitos civis dos anos 1960.

Mas um protesto anti-ICE que ocorreu no último dia 18 dentro de uma igreja em St. Paul, capital de Minnesota e conhecida, junto com Minneapolis, como “cidades gêmeas”, provocou indignação de conservadores, bem como ceticismo de alguns críticos do ICE, que dizem que um espaço sagrado não deveria ser alvo de protesto.

O Departamento de Justiça iniciou uma investigação sobre a ruidosa manifestação dentro da igreja Batista do Sul. Na quinta-feira (22), a secretária de Justiça do país, Pam Bondi, anunciou no X a prisão de três manifestantes, incluindo Nekima Levy Armstrong, a organizadora da manifestação —cuja foto sendo detida foi editada pela Casa Branca para falsear que ela estava em pratos. Bondi não especificou quais eram as acusações.

“Nenhuma causa —política ou não— justifica a profanação de um espaço sagrado ou a intimidação e trauma infligidos a famílias reunidas pacificamente na casa de Deus”, escreveu Kevin Ezell, chefe do braço missionário dos Batistas do Sul, em um comunicado no dia 19.

Alguns dizem que não protestar, mesmo de maneiras que possam ser desconfortáveis, é uma traição aos preceitos cristãos básicos.

“Acredito que se alguém professa representar o Evangelho de Jesus Cristo e pregá-lo, não deveria permitir que agentes do ICE arrastem pessoas para fora de suas casas”, disse Levy Armstrong, que também é ministra ordenada, na quarta-feira (21).

A operação da gestão Trump, que resultou na prisão de mais de 3 mil pessoas nas “cidades gêmeas” em menos de dois meses, está colocando nova pressão sobre tensões antigas entre o mandato cristão de ajudar os pobres e vulneráveis e as visões conservadoras de cristãos americanos que querem mostrar apoio às forças de segurança.

Embora muitos concordem com o objetivo declarado do governo federal de prender e deportar pessoas indocumentadas que cometeram crimes, quase dois terços dos americanos se opõem a esse tratamento para pessoas sem antecedentes criminais, apontou pesquisa da empresa PRRI no mês passado. Essa divisão está pressionando os cristãos americanos a escolherem como responder ao comportamento do ICE e às ações cada vez mais confrontadoras dos manifestantes.

“A Reforma [protestante] foi baseada em protestos”, disse Trey Turner, diretor-executivo do braço Minnesota-Wisconsin da Convenção Batista do Sul, um dos maiores grupos cristãos conservadores do país. “Eu esperaria que qualquer manifestante cristão representasse o Senhor com o mesmo caráter descrito nas escrituras, e não somente na parte de virar as mesas.”

Os cristãos que ele conhece, disse Turner, estão divididos entre querer tomar uma posição moral clara e não querer fazer parte de um deslize em direção à ilegalidade. “Acredito que muitos cristãos têm dificuldades em definir como enxergam protestos e manifestantes”, disse ele.

Dois dias após a manifestante de Minneapolis Renée Good, outra cidadã americana, ter sido morta a tiros por um agente do ICE, o bispo episcopal de New Hampshire, Robert Hirschfeld, anunciou uma mensagem dura: ele havia dito a seus sacerdotes para “colocarem seus assuntos em ordem”.

Falando para uma multidão em uma vigília em Concord, Hirschfeld afirmou que havia dito a seu corpo eclesiástico “para garantir que tenham seus testamentos escritos, porque pode ser que agora não seja mais o momento para declarações, mas para nós, com nossos corpos, ficarmos entre os poderes deste mundo e os mais vulneráveis”. O discurso de Hirschfeld foi assistido milhões de vezes nas redes sociais.

“Alguém que diz ‘estou disposto a colocar meu corpo na linha’ não significa que impedirá a aplicação da lei, significa que pode legalmente gravar vídeos, ir a audiências”, ou fazer treinamentos sobre como proteger a dignidade humana dos migrantes, bem como das forças de segurança, disse ao The Washington Post o reverendo Gabriel Salguero, pastor de Orlando e líder da Coalizão Nacional de Evangélicos Latinos.

“Mas é urgente. Há um renovado senso de urgência agora”, disse ele, acrescentando que a grande maioria das pessoas sendo detidas e deportadas são cristãs.

“Vocês estão levando à desestabilização de nossas igrejas, nossas famílias e nossas escolas”, disse Salguero. “Somos todos a favor da deportação e detenção de criminosos violentos, mas essa ação indiscriminada, não apoiamos isso. E não ficaremos em silêncio.”

Líderes religiosos de grupos mais conservadores dizem que seu papel é fornecer apoio direto às famílias e congregações afetadas por deportações, detenções e medo, mas não protestar de uma forma que possa ser vista como um desafio à legitimidade das forças de segurança.

Turner disse no último dia 20, que cerca de dois terços das igrejas da Convenção Batista do Sul em Minnesota são de maioria não branca. Algumas delas não estão se reunindo por causa do medo e rumores de ações de imigração, disse ele.

“Somos uma denominação conservadora. Acho que por essa razão há um alinhamento bastante próximo com as forças de segurança”, disse Turner. “No entanto, sabemos que nossos irmãos e irmãs estão sofrendo. Nós os vemos e não estamos ignorando sua angústia e necessidades.”

O protesto anti-ICE dentro da igreja da Convenção Batista do Sul em St. Paul no domingo serviu como um novo ponto de tensão no debate sobre qual papel as igrejas e o clero deveriam desempenhar neste momento. Os organizadores do protesto escolheram a Igreja Cities depois de descobrir que o diretor interino do escritório local do ICE, David Easterwood, é pastor no local.

Em um comunicado na terça-feira, o pastor Jonathan Parnell da Igreja Cities, que estava liderando o culto quando cerca de duas dúzias de manifestantes entraram, disse que os ativistas “abordaram membros da congregação, assustaram crianças e criaram uma cena marcada por intimidação e ameaça. Invadir um culto para interromper a adoração a Jesus —ou qualquer outro ato de adoração— não é protegido nem pelas Escrituras cristãs, nem pelas leis desta nação.”

Outros líderes religiosos ecoaram a raiva de Parnell. Robert Barron, um bispo católico de Minnesota e figura conhecida da mídia conservadora, postou no X na segunda-feira que “não me importa o que está animando ou incomodando você, não me importa qual seja sua persuasão política, invadir uma igreja é inaceitável e é uma violação da liberdade religiosa.”

Questionado se achava que protestar dentro de uma igreja cruzava uma linha, Hirschfeld disse que não sabe o suficiente sobre a manifestação na Igreja Cities, mas que esperava “que o santuário e a autonomia de igrejas, sinagogas, mesquitas possam ser respeitados por todos.”

Pesquisas mostram que os americanos estão divididos de várias maneiras sobre as políticas de aplicação da lei de Trump.

Uma pesquisa da CNN realizada após a morte de Good revelou que 42% dos americanos dizem aprovar as ações da gestão federal sobre imigração, abaixo dos 51% em março. Essa queda parece ter começado após um homem de Maryland, Kilmar Abrego García, ter sido deportado ilegalmente em março de 2025.

Uma pesquisa da Fox News de meados de dezembro descobriu que 47% dos católicos americanos aprovavam Trump na imigração, assim como 53% dos protestantes americanos. Esse número sobe para 69% entre evangélicos brancos.

Na semana passada, o bispo episcopal de Minnesota, Craig Loya, falou para quase 4 mil pessoas em uma vigília virtual, dizendo-lhes para se inspirarem nos cristãos que, segundo o Novo Testamento, “viraram o mundo de cabeça para baixo” ao confrontar autoridades poderosas para espalhar a mensagem de Jesus.

“Eles abraçaram aqueles que haviam sido deixados de lado. Eles cuidaram profundamente daqueles que o império desconsiderava com seu desdém insensível. Eles colocaram seus corpos na linha, repetidamente, para ficar ao lado daqueles que estavam sendo alvejados”, disse Loya.

Resistir, afirmou ele, não significa responder com raiva e desdém, ou com “algum desejo ingênuo de que tudo ficará bem”. Significa marchar, entregar comida a pessoas com medo de deixar suas casas, “inundar legisladores com apelos para que a loucura pare” e não ser vencido pelo cansaço, disse.

Hirschfeld também traçou uma linha entre sacrifício razoável e irrazoável.

“Eu não estava chamando as pessoas para serem estúpidas. Não estou chamando as pessoas para encontrar um rifle para ficar na frente”, disse Hirschfeld. “Estou chamando e esperando que eles fiquem ao lado de pessoas que são vulneráveis à violência.”



Fonte CNN BRASIL

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