Cuba continua sendo uma metáfora para Washington – 28/01/2026 – Latinoamérica21

176955804169795019b2880_1769558041_3x2_rt.jpg


John Maynard Keynes observou certa vez que “os homens práticos, que se julgam livres de qualquer influência intelectual, costumam ser escravos de algum economista morto”. O ponto não era apenas que ideias ruins sobrevivem, mas que, quando desligadas dos contextos institucionais e históricos que as moldaram, passam a operar com uma autonomia perigosa.

Elas se deslocam para o poder, são simplificadas e deixam de funcionar como argumentos, transformando-se em imperativos morais. A convergência contemporânea entre trumpismo, anticomunismo do exílio cubano-americano, certas leituras da economia da migração, linguagem humanitária e fluxos migratórios evidenciam esse processo de forma inquietante, reduzindo Cuba de uma sociedade concreta e contraditória a um símbolo que exigiria um desfecho histórico definitivo.

Desde 1959, Cuba ocupa um lugar singular no imaginário político dos Estados Unidos. A queda da ditadura de Fulgencio Batista, apoiada por Washington, seguida da rápida aliança com a União Soviética, não representou apenas o surgimento de um Estado adversário, mas um desafio direto à autoridade hemisférica norte-americana a poucas milhas da Flórida.

Baía dos Porcos, Crise dos Mísseis e décadas de embargo cristalizaram Cuba como um resíduo simbólico da Guerra Fria, cuja carga persistiu muito além de sua relevância estratégica. Mesmo após o colapso soviético, sua sobrevivência permaneceu, para muitos, uma anomalia histórica. A breve normalização sob Barack Obama foi significativa justamente por tratar Cuba como um Estado ordinário; sua reversão sob Donald Trump e Marco Rubio restaurou uma política orientada pela memória, não pela administração.

Essa política é mediada há décadas pelo exílio cubano-americano, especialmente em Miami, onde o anticomunismo se consolidou como doutrina disciplinadora. A trajetória de Rubio expressa bem esse padrão: sua retórica é menos empírica que escatológica, sempre à espera do colapso final e de uma redenção histórica. O segundo mandato de Trump forneceu o temperamento institucional para essa visão, marcado pela indiferença às normas e pela preferência pela coerção espetacular.

Nesse contexto, o trabalho do economista George J. Borjas adquiriu projeção política desproporcional. Seus estudos sobre imigração, especialmente a reavaliação do êxodo de Mariel, sugerem efeitos salariais negativos para certos grupos de trabalhadores nativos. Embora amplamente contestadas e reconhecidamente sensíveis a pressupostos metodológicos, essas conclusões perderam nuance ao serem absorvidas pelo discurso público. A restrição migratória passou a figurar como necessidade moral, não como escolha política. Assim, Borjas se aproxima do “economista morto” de Keynes: citado como autorização ética, não como evidência debatível.

O anticomunismo fornece o roteiro moral, a econometria o álibi técnico e o Executivo o poder coercitivo. À medida que a crise econômica aprofunda a migração cubana, o efeito é reimportado como causa: pessoas “fugindo do socialismo”. A migração torna-se prova, e a prova, mandato. A história real de Cuba —com conquistas sociais inegáveis e fracassos estruturais persistentes— é substituída por uma narrativa moral simplificada. Como na canção popular cubana, a política permanece suspensa numa espera indefinida: quizás, quizás, quizás (talvez, talvez, talvez).

Tradução automática revisada por Isabel Lima


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.



Source link

Leia Mais

ICE prende presidente da Sociedade Islâmica de Milwaukee - 02/04/2026

ICE prende presidente da Sociedade Islâmica de Milwaukee – 02/04/2026 – Mundo

abril 3, 2026

naom_624d3f330b9d2.webp.webp

Mais de 50% dos diagnósticos de autismo ocorrem antes dos 5 anos de idade

abril 3, 2026

Fifa altera horário da segunda partida do Brasil na Copa

Fifa altera horário da segunda partida do Brasil na Copa do Mundo

abril 2, 2026

177516985269cef13c950e8_1775169852_3x2_rt.jpg

EUA: Secretário de Defesa demite chefe do Exército – 02/04/2026 – Mundo

abril 2, 2026

Veja também

ICE prende presidente da Sociedade Islâmica de Milwaukee - 02/04/2026

ICE prende presidente da Sociedade Islâmica de Milwaukee – 02/04/2026 – Mundo

abril 3, 2026

naom_624d3f330b9d2.webp.webp

Mais de 50% dos diagnósticos de autismo ocorrem antes dos 5 anos de idade

abril 3, 2026

Fifa altera horário da segunda partida do Brasil na Copa

Fifa altera horário da segunda partida do Brasil na Copa do Mundo

abril 2, 2026

177516985269cef13c950e8_1775169852_3x2_rt.jpg

EUA: Secretário de Defesa demite chefe do Exército – 02/04/2026 – Mundo

abril 2, 2026