Não é preciso cavar fundo para encontrar o túmulo da ironia quando ouvimos líderes políticos e militares invocando Cristo para justificar a guerra contra uma teocracia islâmica.
Dias após o início dos bombardeios contra o Irã, uma ONG especializada em proteger a liberdade religiosa dos militares americanos recebeu mais de 200 queixas de soldados e oficiais de todos os ramos das Forças Armadas sobre o uso de linguagem da Bíblia para justificar a decisão de iniciar a guerra.
De acordo com uma das queixas examinadas pelo jornal britânico The Guardian, um comandante havia “nos instado a dizer às tropas que aquilo era ‘tudo parte do plano de Deus’.” Os soldados teriam ouvido também que deveriam arriscar a vida para facilitar o retorno iminente de Jesus Cristo.
Ao pedir preces pela vitória, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, conclamou os americanos a rezar “todos os dias, de joelhos, com a família, nas escolas, nas igrejas, em nome de Jesus Cristo”. Ele disse isso do púlpito do Pentágono, o comando central da mais poderosa força militar do planeta, nesta República fundada sob o princípio da separação entre Igreja e Estado.
Ajoelhados na sepultura da ironia, descobrimos também que o mais próximo conselheiro espiritual de Hegseth, o pastor evangélico Brooks Potteiger, declarou que tem rezado para Deus matar o seminarista presbiteriano James Talarico, um democrata do Texas que concorre ao Senado denunciando o nacionalismo cristão como contrário ao Evangelho.
Durante a homilia do último dia 15, o Papa Leão 14 condenou o uso do nome de Deus para justificar uma guerra. “Deus não pode ser alistado para a escuridão,” disse o primeiro papa americano, talvez o mais enérgico pontífice crítico de uma campanha militar dos Estados Unidos. Na segunda-feira (23), Leão pediu que os bombardeios aéreos sejam banidos para sempre. Depois das tragédias do século 20, disse ele, “não temos progresso, temos retrocesso.”
O partido no controle do Executivo e do Judiciário dos EUA parece esquecer uma lição recente. O republicano George W. Bush invocou as Cruzadas logo após os ataques do 11 de setembro, enquadrando a necessária reação americana ao terrorismo da Al Qaeda como uma guerra religiosa e fornecendo, assim, munição ao recrutamento de terroristas.
Curiosamente, o gabinete de Donald Trump é recheado de católicos praticantes, incluindo o vice-presidente, J. D. Vance, e o secretário de Estado, Marco Rubio. Pela primeira vez, seis dos nove juízes da Suprema Corte americana são católicos. Nota-se que esses devotos no poder se esquivam de confrontar em público Leão 14 com a destreza de trombadinhas evitando a polícia no centro de São Paulo.
O alistamento militar do Todo Poderoso coincide com o falecimento do movimento conservador nos EUA. O mais importante fundador do conservadorismo anglo-saxão, o filósofo irlandês Edmund Burke, argumentava que os costumes são mais importantes do que as leis. “A lei nos toca apenas aqui e ali. Os costumes são aquilo que nos aflige ou nos apazigua, nos corrompe ou nos purifica, nos exalta ou nos avilta, nos barbariza ou nos refina,” escreveu.
Peter Wehner, veterano dos governos Reagan, Bush pai e Bush filho, que jogou a toalha em 2016, acredita que o legado deste momento no país será uma deformação coletiva de temperamento resultante da reprogramação do circuito moral dos cristãos.




