Às vésperas da missa de meio-dia na Ermita de La Caridad, santuário católico em Miami, na Flórida, que homenageia a padroeira de Cuba, a irmã Elvira García comenta que os desabafos dos fiéis têm mudado. Cada vez mais eles relatam desespero com a situação de seus parentes na ilha e com a sua própria situação nos Estados Unidos.
Miami é o lugar com maior concentração de cubanos fora da ilha em todo o mundo. Quase 800 mil vivem na área metropolitana, o que representa 12,8% da população local, de acordo com dados oficiais. Esta é a terra da diáspora —e do lobby— cubanos.
É, também, a terra que recém deixou de ser um bastião democrata para se tornar um polo propulsor republicano, em um realinhamento expressivo do eleitorado latino que, no mais, ocorreu em todo o país. Neste momento de pressão econômica recorde em Cuba, com novas rodadas semanais de sanções determinadas pela Casa Branca e uma crise humanitária sem precedentes, o perfil político fica evidente.
Ainda que não sejam monolíticos, assim como qualquer outro grupo imigrante, os cubanos de Miami demostram majoritariamente apoiar as ações de Donald Trump. Alguns manifestam a latente contradição de verem seus compatriotas sofrerem as consequências da asfixia econômica na ilha.
O cenário, calamitoso, afinal, muda a dinâmica da própria diáspora, em especial de cidadãos comuns, não o empresariado endinheirado ou as lideranças politicas que já estão bem estabelecidas. Imigrantes cubanos de classe baixa e média, muitos dos quais ainda estão esperando uma resposta para seus pedidos de asilo, têm de trabalhar cada vez mais.
A irmã Elvira relata escutar relatos de cubanos que têm de dobrar, ou mesmo triplicar, seus turnos de trabalho para enviar remessas de dinheiro a seus familiares que não deixaram a ilha para trás.
É o caso do engenheiro Norges (que tem seu nome alterado, a pedido, por temer perseguição política contra suas filhas que ainda vivem em Havana). Professor universitário, ele emigrou para Miami há quatro anos, após ser expulso da universidade e receber de policiais a ordem de que era melhor abandonar o país, segundo relata.
Norges, 63, diz que “não permitem uma vida livre àqueles que não são partidários do Partido Comunista de Cuba”. Ele critica a repressão contra seus alunos que participaram dos protestos de julho de 2021 na ilha. Para abandonar o país, tomou um voo para a Nicarágua e, de lá, chegou por terra à fronteira dos EUA.
Ele trabalha pela manhã em uma empresa de engenharia e, durante a tarde e anoite, como motorista de aplicativo. Foi uma tarefa que começou no início do ano para ter dinheiro para enviar mais remessas às filhas e às duas netas em Havana.
“Envio principalmente alimentos: muita carne enlatada, queijo e farinha. Há um ano consegui enviar painéis solares para que elas tenham eletricidade, possam dormir com ventiladores. Assim humanizo um pouco suas vidas”, diz. “E tento enviar alguns doces para as crianças. Minha filha diz que não é preciso, mas não consigo.”
Os envios hoje são dominados pela empresa CubaMax, com base justamente em Miami. Os produtos são comprados no site da própria empresa, que organiza a distribuição na ilha.
- Um pacote de 280 gramas de café sai por US$ 6 (cerca de R$ 30)
- Um botijão de gás, US$ 89 (R$ 460)
- Um engradado com 30 ovos, US$ 8 (R$ 40)
- Um “combo básico”, espécie de cesta básica com peito de frango, leite, azeite, macarrão, arroz, feijão, óleo e ovos, US$ 90 (R$ 460)
- Um gerador elétrico, a partir de US$ 490 (R$ 2.520)
- Uma bicicleta elétrica, US$ 1.199 (R$ 6.160)
Todos se veem afetados. O padre Angél Andrés González Guillén, número 2 na Ermita de la Caridad, chegou há quatro anos a Miami, o mesmo tempo de Norges. De seus 22 anos como sacerdote, passou a maior parte servindo em Cuba, em sua cidade natal, Holguín.
“De repente, tudo lá estava tão, tão grave economicamente, além da perseguição religiosa com a vigilância dos órgãos de segurança estatais dentro da Igreja, que as possibilidades se esgotaram. Tudo isso cansa”, diz ele. “E precisava pensar na família também. Tenho meus pais idosos, tive que emigrar para garantir que eles sobrevivam. É a única maneira para que não morram de fome.”
Fundada nos anos 1960 pelos primeiros exilados de Cuba, a Ermita recebe imigrantes de todas as partes da América Latina, em especial os cubanos, ainda que as gerações mais novas tenham se distanciado do catolicismo. É apelidada de “o coração espiritual do exílio”.
Abriga eventos políticos, como a recente assinatura de um pacto entre forças opositoras para a transição em Cuba e o aniversário de morte do ativista cubano Oswaldo Payá, talvez o mais importante líder opositor da ditadura, morto em 2012 em um acidente de carro.
O padre González diz que, por mais contraditório que seja, Trump será venerado caso tome uma ação direta na ilha para derrubar o regime. “Nós, cubanos, não tivemos a chance de decidir por 67 anos, então somos um povo que perdeu sua cultura cívica e democrática. É difícil esperar que um povo assim tenha plena consciência do que quer. Sabemos, porém, do que precisamos: uma mudança”, afirma.
“Quando nossa única possibilidade é pedir que alguém venha nos salvar, colocar ordem, é porque não nos deixaram nenhuma outra opção”, segue ele. “Qualquer coisa é melhor do que o que temos hoje.”
O vice-presidente de uma das principais organizações da diáspora, que prefere não se identificar por temer consequências em seu trabalho no mercado privado, diz à reportagem que nem todos estão de acordo com a pressão exercida pelos EUA. A fome na ilha disparou, em parte também devido ao bloqueio que impede o fornecimento de petróleo. O sistema de saúde, que já enfrentava dificuldade, colapsou.
Ele diz, também, que a comunidade sabe muito bem que os interesses dos EUA não são os interesses da diáspora —ou seja, que não há genuinamente uma vontade por parte da administração Trump para abrir caminho para uma democracia na ilha. E que é uma “condição sine qua non” que haja uma “democracia sem tutelagem”.
Ele se refere ao caso da Venezuela, onde o secretário de Estado, Marco Rubio, governa instrumentalizando o regime agora capitaneado por Delcy Rodríguez. “Não vamos aceitar ninguém do regime no poder.”
Afirma ainda que a ajuda dos EUA no processo de independência de Cuba deixou um “sabor amargo” que ainda não foi esquecido.
Cuba se libertou da dominação da Espanha em 1898, com o Tratado de Paris. No mesmo ano, porém, passou a ser ocupada militarmente pelos Estados Unidos, que haviam participado da guerra contra os espanhóis no conflito conhecido como Guerra Hispano-Americana. A ocupação durou até 1902, quando Cuba se tornou formalmente independente. No entanto, sua soberania permaneceu limitada pela forte influência dos EUA, que tinham a ilha como um protetorado.
O episódio foi eternizado em um poema de Bonifacio Byrne, que estava voltando a Cuba em 1899 após o exílio. Nos primeiros versos, dizia: “Ao retornar de uma costa distante, com a alma enlutada e sombria, ansioso busquei a minha bandeira —e avistei uma outra, além da minha!”




