Arquivos recém-divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos apontam novos elementos sobre a relação mantida por décadas entre o linguista Noam Chomsky e o financista Jeffrey Epstein, morto em 2019 enquanto aguardava julgamento por tráfico sexual.
As comunicações divulgadas nessa nova leva de documentos ampliam o escopo de contatos já conhecidos entre os dois e colocam em xeque declarações anteriores do intelectual, que havia afirmado que seu vínculo com Epstein se limitava sobretudo a assuntos financeiros.
Os documentos fazem parte de um conjunto divulgado na sexta (30) com base em uma lei de transparência aprovada pelo Congresso. Entre os registros estão trocas de emails que revelam proximidade pessoal e social, incluindo convites para encontros, viagens e jantares.
Em uma das mensagens, Chomsky menciona estar “fantasiando” com uma ilha no Caribe ao responder a um convite de Epstein —sem que haja indício de referência direta à propriedade do financista, onde ocorreram abusos sexuais contra menores.
As comunicações também mostram que Epstein serviu como elo entre Chomsky e figuras políticas e culturais controversas. Em 2018, o linguista escreveu ao então estrategista de direita Steve Bannon pedindo um encontro, afirmando haver “muito a conversar” e dizendo ter recebido o contato por meio de Epstein, antigo conhecido de Donald Trump. Bannon respondeu de forma positiva, sugerindo retomar o contato em breve.
Há ainda registros de interações envolvendo terceiros do círculo de Epstein. Em uma ocasião, a então namorada do financista, Karyna Shuliak, escreveu a um destinatário com identidade preservada informando que pretendia enviar a Chomsky e à esposa, Valeria, kits de testes genéticos. Meses depois, mensagens indicam que os mesmos kits foram enviados ao cineasta Woody Allen e a Soon-Yi Previn, com quem Epstein e Chomsky discutiam a possibilidade de encontros em Nova York.
O material reforça que parte da relação entre o financista e o autor envolvia, de fato, questões financeiras. O linguista recorreu a Epstein durante uma disputa judicial com filhos de seu primeiro casamento, que incluía divergências sobre pagamentos e a compra de um apartamento.
Em um dos episódios, Epstein opinou sobre a conveniência de um email redigido por uma advogada do espólio de Chomsky a respeito de uma transferência de US$ 187 mil. Em outro, Valeria Chomsky intermediou o envio de um cheque de US$ 20 mil, por meio de um associado de Epstein, para apoiar uma iniciativa acadêmica em linguística.
O trecho mais sensível dos arquivos diz respeito a uma suposta orientação dada por Chomsky a Epstein em fevereiro de 2019, quando o financista enfrentava pressão judicial e midiática relacionada às acusações de abuso e tráfico sexual.
Em mensagens encaminhadas por Epstein a um advogado e a um assessor de imprensa, um texto assinado “Noam” recomenda ignorar a cobertura negativa e não reagir publicamente às acusações, que o autor classificaria de parte de uma “histeria” em torno de abusos contra mulheres.
A troca ocorreu mais de uma década após Epstein ter se declarado culpado, em 2008, por solicitar prostituição de uma menor, em um acordo judicial posteriormente considerado ilegal por um juiz federal, por ter sido ocultado das vítimas. Meses depois desses emails, Epstein foi preso novamente, acusado de tráfico sexual, e morreu na cadeia em agosto de 2019, em um caso registrado como suicídio.
Nem Chomsky nem sua esposa se pronunciaram sobre a autenticidade das mensagens ou sobre o conteúdo atribuído ao linguista. O novo conjunto de documentos também aprofunda revelações feitas por democratas da Câmara em novembro, que já indicavam que Chomsky considerava “valiosa” a manutenção de contato regular com Epstein.
A divulgação dos arquivos ocorre em meio a pressão política sobre o governo de Donald Trump. Durante a campanha presidencial de 2024, Trump prometeu tornar públicos todos os registros ligados a Epstein. Já no cargo, seu governo afirmou que não existia uma lista formal de clientes, mas, sob pressão, sancionou uma lei que obriga o Departamento de Justiça a liberar os documentos do caso.
Aos 97 anos, Chomsky é professor emérito do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e está afastado, desde 2023, de suas funções na Universidade do Arizona por motivos médicos, segundo a instituição.




