Dias após uma vitória surpreendente nas eleições legislativas na Argentina, o presidente Javier Milei viu dois de seus mais importantes ministros pedirem demissão na noite desta sexta-feira (31), após disputas internas: Guillermo Francos, chefe de gabinete, e Lisandro Catalán, chefe da pasta do Interior.
O primeiro a fazer o anúncio foi Francos, que divulgou sua decisão nas redes sociais no momento em que Milei jantava com o ex-presidente Mauricio Macri na Quinta de Olivos, a residência oficial do líder argentino.
“Considerando os rumores persistentes sobre mudanças no Gabinete Nacional, escrevo-lhe para apresentar minha renúncia ao cargo de chefe do gabinete de ministros, para que o senhor possa iniciar a nova fase de governo após as eleições nacionais de 26 de outubro sem quaisquer entraves”, afirmou o político em uma carta endereçada ao presidente compartilhada no X.
Ato contínuo, Catalán, aliado de primeira hora de Francos, também renunciou ao cargo que ocupou por apenas um mês e meio —ele assumiu o ministério no dia 15 de setembro. “Continuarei apoiando este governo, A Liberdade Avança, porque estou convencido de que os ideais de liberdade são o que transformarão a Argentina”, escreveu, também em uma carta compartilhada no X.
Os rumores a que Francos se referiu eram resultado da tensão entre ele e Santiago Caputo, principal assessor de Milei. Na noite de quarta-feira (29), em uma entrevista à emissora Todo Notícias, o ministro chegou a compartilhar um trecho da música La Cigarra, escrita pela argentina María Elena Walsh, para dizer que não sairia do governo: “Tantas vezes me mataram, tantas vezes morri, e aqui eu estou, ressuscitando”.
Francos não será substituído por Caputo, como se especulava, mas por Manuel Adorni, atual porta-voz da Presidência e aliado da irmã de Milei e secretária-geral da Presidência, Karina. Ele assume o cargo na próxima segunda-feira (3), segundo o governo.
A troca é uma demonstração de força de Karina, que chefiou a campanha vitoriosa do irmão em 2023 à Presidência e conseguiu colocar um aliado no gabinete de ministros, em vez de Caputo —na quinta, o presidente havia afirmado que o assessor poderia finalmente ganhar um cargo nesta segunda fase do governo.
O status de Caputo, que goza de mais poder do que muitos ministros, mesmo sem estar no primeiro escalão, foi alvo de questionamento público de Francos no início de outubro. “Em toda administração, há pessoas que trabalham, mas não têm responsabilidade. Alguns de nós assinam resoluções, decretos e projetos de lei, enquanto outros aconselham, mas não têm essa responsabilidade. Minha ideia é que eles assumam responsabilidades”, afirmou ele em uma entrevista ao Infobae.
Nesta sexta, Adorni disse que daria continuidade ao trabalho de seu antecessor e agradeceu a Karina “pela confiança e o apoio permanentes”. “Que Deus abençoe a República Argentina e que as forças do céu nos acompanhem”, afirmou.
Antes disso, na quinta-feira passada (22), dias antes da votação, o ministro das Relações Exteriores da Argentina, Gerardo Werthein, também renunciou ao cargo e foi substituído pelo economista Pablo Quirno. O chanceler vinha sendo alvo de críticas dos apoiadores de Milei às vésperas das eleições às quais o governo chegou desgastado por escândalos —o que não impediu o partido do ultraliberal de ter êxito no pleito.
Desde a vitória, o presidente tem tentando colocar em panos quentes as disputas internas —que devem seguir, uma vez que ainda há cargos em disputa. O ministro da Justiça, Mariano Cúneo Libarona, anunciou antes das eleições que deixaria o cargo; já os ministros da Segurança, Patricia Bullrich, e da Defesa, Luis Petri, também saem para assumir os mandatos de senadora e deputado que conquistaram no pleito.
No domingo (27), após saírem os resultados, Milei exaltou o que ficou conhecido como “triângulo de ferro” —formado por ele mesmo, sua irmã e Caputo— e tentou apaziguar os ânimos. “Como não poderia ser diferente, aos dois gigantes que foram os arquitetos deste milagre, Santiago Caputo e Karina Milei: muito obrigado”, afirmou, indicando que o trio seguirá tomando as decisões do governo.




