Para nós, a Guerra da Ucrânia começou há quatro anos (e um dia) no dia 24 de fevereiro de 2022. Mas para eles —ucranianos e também os russos, ainda que estes não admitam o termo “guerra”, mas sim “operação militar especial”— a guerra começou muito antes, em 20 de fevereiro de 2014, com a ocupação da Crimeia, ainda antes do triunfo do movimento que viria a depor o presidente Viktor Ianukovitch e forçar o exílio deste na Rússia dois dias depois.
Isso quer dizer que, qualquer que seja a medida usada, a Guerra da Ucrânia já é das mais longas da história moderna europeia. Mesmo os quatro anos que já dura se optarmos pela contagem mais curta já são mais tempo do que a participação da União Soviética na Segunda Guerra Mundial, que foi de 1941 a 1945.
Se contarmos com toda a Segunda Guerra Mundial (1939-45) é claro que esta seria mais longa, mas a verdade é que após a invasão da Polônia no fim do verão de 1939 houve ainda um período de “drôle de guerre”, ou seja, de guerra declarada mas sem conflito aceso ou operações militares significativas por parte dos aliados. A campanha mais longa da Segunda Guerra durou três anos e meio —menos do que a atual guerra na Ucrânia, mesmo contando apenas a sua fase “em larga escala”.
Mas, como dizia, para os ucranianos a guerra começou quando o território que era (e é) internacionalmente reconhecido como seu foi invadido, na Crimeia e depois no Donbass, a partir de fevereiro de 2014. Faz, portanto, 12 anos. É mais longo do que a participação soviética na Guerra do Afeganistão (nove anos e meio) e é mais longo do que todas as fases da guerra da ex-Iugoslávia juntas.
Na verdade, a Guerra da Ucrânia, se contada integralmente, é já a mais longa guerra no continente europeu desde a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), no século 17, há 300 anos.
A Guerra dos Trinta Anos foi tão longa que quem a começou (a dinastia imperial austríaca, católica, contra os nobres protestantes do Reino da Boêmia) não foi quem a acabou e, em última análise, venceu: a Suécia e, sobretudo, Luís 14, da França, que assim inaugurou uma nova era de hegemonia na Europa.
Cem anos depois, enquanto escrevia sua maior obra de história, “O Século de Luís 14”, Voltaire expôs uma teoria acerca das verdadeiras razões dessa guerra e, no fundo, de todas as guerras europeias.
Parafraseando, argumentava ele que a razão de ser das guerras na Europa é acima de tudo impedir que uma das potências europeias se torne não só hegemônica, mas esmagadora. É isso que justifica a formação de uma aliança de poderes emergentes, em geral médios, para disputar o poderio do maior poder do momento.
Luís 14 disputou e venceu com sucesso o poder dos Habsburgos, tanto “austríacos” quanto “espanhóis”, e com isso conquistou a hegemonia para a França. Mas quando ele próprio e a sua dinastia Bourbon se tornaram demasiado poderosos, houve uma nova guerra —chamada “da Sucessão Espanhola”— para o pôr no seu lugar.
Esta guerra dura há tanto tempo que se tornou uma guerra de desgaste. O maior poder militar da Europa, a Rússia, é confrontado por uma aliança de poderes médios e pequenos, a União Europeia. Vamos ver como acaba. Mas eu não apostaria contra Voltaire.




