Ruanda tem hoje a maior proporção de parlamentares mulheres do mundo: 61% das cadeiras da Câmara são ocupadas por elas.
É também um país jovem. Mais de 60% da população tem menos de 30 anos. A geração que hoje frequenta as escolas nasceu depois de 1994, mas também carrega as marcas do genocídio contra os tutsis.
Foi pelos livros de Scholastique Mukasonga que conheci um pouco dos campos de refugiados, das décadas de perseguição e dos cem dias de 1994, quando cerca de um milhão de tutsis foram assassinados.
Yolande Mukagasana, ainda não publicada no Brasil, e Gaël Faye também transformaram as experiências de sobreviventes em literatura de grande força. Assim como outros autores ruandeses, elaboram, pelo exercício estético da palavra, aquilo que o país precisa enfrentar.
Mas o desafio de Ruanda agora, segundo a escritora e editora Gasana Mutesi, é produzir uma literatura que reconheça a violência e elabore o trauma, mas que também permita imaginar e construir futuro. Fortalecer o ecossistema do livro e da leitura tem sido sua prioridade há cerca de quinze anos.
Conversamos em Kigali, onde estou a convite da Embaixada do Brasil para participar do Women Book Award, prêmio que ela própria criou.
Tomamos um bule de chá preto com leite, gengibre, melissa e capim-limão por pouco mais de uma hora, antes da roda de conversa com onze das finalistas do prêmio.
Mãe de cinco filhos, formada em ciência e tecnologia de alimentos, recebeu o convite de uma editora queniana para trabalhar com marketing.
Em um mercado predominantemente masculino, abriu uma pequena livraria, seguida de uma editora cujo catálogo tem cerca de cem títulos. E começou a escrever livros infantis, tanto em inglês como em kinyarwanda.
Para promover a leitura, já vendeu livros em barracas de feira e organizou festivais de literatura infantil em pequenos vilarejos. Para apoiar a profissionalização do mercado editorial ruandês, criou uma academia para editores, com cursos de design, direitos autorais, copy desk e a oferta de mentorias. E agora, para aumentar a visibilidade de mulheres escritoras, editoras e mediadoras de leitura, articulou o prêmio com o apoio das embaixadas do Brasil e da Alemanha.
“Quando olho para a minha sociedade, o mais importante agora, o que as pessoas mais precisam é de conhecimento”, me disse. “E as pessoas nunca terão conhecimento se não lerem.”
Aos 44 anos, Mutesi diz que entra em qualquer ministério para levar ideias e negociar apoio. Mas também carrega caixas de livros, monta banners e liga os equipamentos dos eventos. Foi ela quem me levou para alugar um umushanana, traje tradicional ruandês usado em celebrações. Sempre acompanhada de alunas e outras escritoras. O nome de sua editora, Ubuntu, eu sou porque nós somos, é coerente com a forma coletiva como trabalha.
“Recebi uma oportunidade de entrar nessa indústria. Eu não estudei literatura na universidade. Mas sei que os livros são o caminho para resolver os problemas que vejo”, disse Mutesi.
Na roda com as finalistas do prêmio, parte das celebrações do 8 de Março, uma frase fez especial sentido: “Para muitas mulheres, saber ou não saber ler é a diferença entre se manter viva e ser morta.”
Ler, escrever e interpretar criticamente diferentes textos amplia o acesso a direitos, permite reconhecer abusos, buscar ajuda, construir autonomia econômica.
Entre seus muitos poderes, a literatura também permite reconfigurar o papel das mulheres. Mulheres que podem escrever novos futuros para este mundo em colapso.




