O empresário brasileiro Eike Batista foi convidado por Jeffrey Epstein, criminoso sexual condenado morto em 2019, para um almoço com Elon Musk no Caribe, segundo emails do conjunto de arquivos antes sigilosos divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos.
Nenhum dos documentos aponta contato direto entre Epstein e Eike, que teriam se comunicado apenas por meio de intermediários.
Procurada, a assessoria do empresário brasileiro confirmou o recebimento dos questionamentos, mas não enviou comentários até a última atualização deste texto.
No dia 1º de janeiro de 2013, às 5h52, Epstein recebeu um email de um destinatário, cujo nome e endereço estão tarjados, citando um barco de Eike. “Como você está se sentindo? [outros emails mostram que Epstein esteve doente na virada do ano] Nós fomos convidados para o barco do Ike Batista no dia 2! Fomos para a festa do p daddy! Encontramos pessoas interessantes, mas não vimos Elon. Estou com saudade, beijossss”, diz o email, com erro no primeiro nome de Eike.
Os arquivos foram divulgados sem contexto, e não foi possível verificar o que seria “a festa do p daddy”.
Às 10h30, Epstein responde: “Ok, vou mandar mensagem para o Ian”. Este seria Ian Osborne, lobista britânico e intermediário que, ainda de acordo com os documentos, conectava Epstein a empresários e conversou com o financista sobre Eike ao longo de todo o ano de 2012, inclusive citando negócios e reuniões que teriam tido participação dos três.
Às 10h31, Epstein envia um email a Osborne citando duas pessoas cujos nomes estão tarjados no documento: “[Pessoa A] e grande [Pessoa B] vão para o barco do Ike no dia 2. Pede para ele ser legal”, escreveu Epstein ao lobista.
Não foi possível verificar quem são as duas pessoas que teriam visitado o iate de Eike.
Nos dias que se seguiram, Epstein parece não tocar no nome do brasileiro, segundo os arquivos disponíveis, e indica em outras mensagens estar se recuperando de uma gripe.
Já no dia 4 de janeiro, uma sexta-feira, Epstein escreve para uma pessoa não identificada às 7h20 com a primeira menção a um convite ao brasileiro.
“Escreva para o Aziz e diga para ele que vamos almoçar com o Elon. Sugira que ele e Ike possam querer visitar a ilha se eles estiverem voando para os Estados Unidos”, diz no email.
“Aziz” é uma provável referência ao tunisiano Aziz Ben Ammar, que à época era conselheiro da OGX, empresa de Eike. Um email que Epstein recebeu em abril de 2013 cita “Aziz” novamente com uma reportagem do Financial Times sobre a OGX. Outras menções ao mesmo nome indicam que “Aziz” era uma pessoa a quem Eike recorria para “resolver problemas“. A Folha não conseguiu contato com Aziz Ben Ammar.
Às 8h20 daquele dia, Epstein escreve novamente a Ian Osborne, mencionando o almoço: “Estou indo para St. Barth, acredito que Ike ainda esteja no barco dele. Se ele quiser almoçar comigo e com Elon Musk, fique à vontade para convidá-lo”, escreveu o financista.
“St. Barth” é São Bartolomeu, território ultramarino francês famoso pela presença de iates de luxo que fica a cerca de 200 km de Little Saint James, a ilha privada de Epstein nas Ilhas Virgens Americanas.
Não há resposta registrada de Osborne e, pelos emails, não é possível confirmar se Eike de fato recebeu o convite ou se participou do almoço. A Folha buscou contato com Osborne através da Hedosophia, empresa de investimentos da qual ele é CEO, e não obteve retorno até a última atualização deste texto.
Na base de documentos divulgados pelo governo americano há emails de Musk a Epstein falando sobre o almoço. Musk, no entanto, parece cancelar o encontro em um email datado de 4 de janeiro, às 13h06: “Passei mal a noite toda. Não sei se intoxicação alimentar ou uma bactéria. De todo modo, não estou bem para o almoço. Vamos ter que nos encontrar outra hora, desculpe por isso.”
Na tarde do dia 6, Epstein escreve a Osborne novamente apenas com a pergunta: “Onde?”. O lobista, então, volta a fazer referência a Eike: “Beirute, voltando logo para Londres. Desculpe que Eike tenha retornado ao Rio. Falei com ele ontem tarde da noite e ele estará em Nova York no fim de janeiro e meados de fevereiro para que a gente possa combinar algo”, escreve Osborne.
Há registro fotográfico do jato Gulfstream G550 de Eike, um dos principais de sua então frota, vendido em 2014, decolando no dia 6 de janeiro de 2013 do aeroporto de Sint Maarten, um território holandês próximo de São Bartolomeu e das Ilhas Virgens Americanas que possui um dos principais aeroportos de acesso às ilhas da região e diversas marinas para iates de vários tamanhos.
Eike Batista é citado em dezenas de documentos revelados pelo governo americano. Muitas dessas menções estão em conversas entre Epstein e Osborne ao longo de 2012.
Em um dos documentos, de 6 março de 2012 (menos de um ano antes da presença de Eike no Caribe, portanto), Osborne recebe email de Marcello Horcades, então diretor da empresa EBX International, também de Eike, combinando uma reunião.
“Eike está com a agenda cheia na quinta. Vamos fazer a reunião com Eike na sexta, também com Oliver. Na sexta, Eike estará com a gente o dia todo, só no almoço ele deve sair. Aziz e Milton vão se juntar a nós, e o Lars no jantar na sexta”, afirma Horcades.
Não foi possível verificar quem são “Oliver”, “Milton” e “Lars” —este último, porém, tem o mesmo nome de um dos irmãos de Eike Batista. A Folha enviou perguntas para dois endereços eletrônicos de Horcades, que rejeitaram os emails.
No dia 7 de março de 2012, Ian Osborne encaminha o email de Horcardes para Epstein e adenda: “Estive trabalhando no acordo com Batista que discutimos —e pelo qual valorizo seu aconselhamento. Isso [a mensagem de Horcades] é do CEO das holdings dele. Temos um dia cheio de discussões na sexta e jantar. Então com sorte isso vai dar certo”, diz.
Osborne também envia um email a Epstein com o que chama de proposta de acordo e cujo nome do arquivo é “Eike Batista 120225 final.doc” —não é possível acessar o arquivo anexado.
Epstein responde ainda no dia 7 com sugestões de alterações: “Eu adicionaria ________, [linha em branco para ser completada], caso Eiki esteja interessado na JV [joint venture]. Sugiro que você me envie o memorando de entendimento proposto para que eu consiga fazer perguntas fundamentadas. Nossas agendas estão frenéticas nos próximos meses”, escreve o financista.
Osborne rapidamente responde: “Sim, com certeza, vou fazer. Vamos discutir com mais detalhes a estratégia vis-a-vis Eike amanhã.”
No dia 9 de março, a sexta-feira em que ocorreria a reunião, Osborne pergunta a Epstein: “Onde você está? Quero ligar brevemente antes de ir ao Batista.”
Não está claro, pelos documentos, se a reunião de fato ocorreu e, caso tenha ocorrido, como foi a participação de Epstein. Os arquivos também não deixam claro a que se refere o acordo com Eike citado por Epstein e Osborne.
O lobista menciona outras reuniões e momentos em que teria estado com Eike ao longo de 2012 em outros emails, o que sugere que os dois se conheciam ao menos um ano antes dos emails referentes à presença de Eike no Caribe.
Em fevereiro de 2012, por exemplo, Epstein envia email a Osborne fazendo o que parece ser um primeiro convite a Eike para visitar a ilha: “Leon Black me disse que eu gostaria do EB. Fale para ele que minha ilha está no caminho dele para casa e que ele pode deixar você, almoçar e continuar para o Brasil”.
Black é um investidor e bilionário americano que aparece várias vezes nos arquivos e tinha relação próxima com Epstein.
Osborne, então, responde: “Você ia. É o que eu tenho te falado! O problema é que ele voa para ver o [Warren] Buffett em Omaha no sábado de manhã e depois de volta para o Brasil para a inauguração da plataforma dele com a presidente [à época, Dilma Rousseff]. Ele aterrissa mais tarde hoje à noite em Nova York e eu vou tentar convencê-lo a sair. Mas ele quer te conhecer”. Em 31 de janeiro daquele ano, a OGX, empresa de Eike, anunciou o começo da produção de petróleo no poço de Waimea, na bacia de Campos.




