Imagens de escombros tornaram-se banais. Estão em celulares, computadores, aparelhos de TV, painéis eletrônicos, veículos da mídia, reprisando o espetáculo sombrio das guerras. Podem vir da Ucrânia, de Gaza, do Haiti, do Irã, de Israel, do Líbano, de tantas partes. A destruição da escola Shajareh Tayyebeh (A Boa Árvore), na cidade iraniana de Minab, ilustra esse mundo em pedaços.
A tragédia foi ato inicial da guerra deflagrada por Israel e Estados Unidos contra o Irã no último sábado (28). A despeito de toda a tecnologia de precisão, seus mísseis destruíram uma escola primária para meninas no mesmo dia em que foi assassinado o líder Ali Khamenei. Pelo que se tem notícia, houve ao menos 175 mortes, a maior parte delas de crianças entre 6 e 12 anos.
O jornal britânico The Guardian foi exemplar na checagem dos fatos. O ataque se deu num dia de aula, pois, no Irã, a semana letiva vai de sábado a quinta. Por volta das 10h, o bombardeio atingiu a escola, provocando uma carnificina cujas imagens agências de notícias optaram por não distribuir. Contudo, restaram os escombros, de novo eles, recobrindo corpos dilacerados, entre mochilas, tênis, cadernos e livros.
Imagens do desespero das famílias também circularam. Pais e mães perguntaram por que a escola não os avisou do ataque iminente, pois teriam ido buscar suas meninas. Tudo rápido e ao mesmo tempo. O governo parece ter entrado em contato com a rede escolar naquela manhã, determinando a suspensão das aulas. Será que a ordem chegou antes ou depois das bombas em Shajareh Tayyebeh?
O ataque teve a ver com a proximidade da escola do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica —um complexo militar com edifícios, ginásio esportivo, clínica médica e até área para concertos, também atingido. Esta vizinhança rendeu a versão, posterior ao ataque, de que seria uma escola-escudo da elite militar. Nada foi comprovado. Também em Gaza, crianças feridas e desassistidas pagaram o preço da classificação de hospitais públicos da região como bunkers do Hamas. Muitas, com a própria vida.
O fato é que investigações rigorosas e rápidas são devidas a estas famílias e à comunidade internacional. É o que cobra Volker Türk, Alto Comissário da ONU para Direitos Humanos, admitindo que o caso pode ter elementos que o enquadrem como crime de guerra.
Também rodaram mundo imagens do velório coletivo na terça (3), com valas ainda sendo abertas durante o enterro das crianças. Visão devastadora. Por ironia ou cálculo político, na véspera, Melania Trump presidiu uma sessão do Conselho de Segurança da ONU, dedicada à educação em zonas de conflito. É para rir ou chorar?
A primeira-dama americana ouviu de Rosemary DiCarlo, subsecretária geral da organização, que uma em cada cinco crianças no mundo vive em guerras ou fugindo delas. São 473 milhões. Só em 2024, a ONU contabilizou 2.374 ataques a estabelecimentos de ensino e hospitais. O estupro de vulneráveis subiu 35% no período. Melania enalteceu o tema e, teatralmente, bateu o martelo no comando da sessão.
Não custa repetir: a infância é a grande vítima das guerras. Hoje Trump, sócio de Binyamin Netanyahu, só pensa em conflitos nos quais possa se escorar diante dos insucessos da sua Presidência. O custo humano das ofensivas destes dois homens não deve ser esquecido.




