Espriella dá sinais de querer ideologizar a política externa da Colômbia – 18/07/2026 – Sylvia Colombo

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A eleição do radical de direita Abelardo de la Espriella na Colômbia espalhou preocupação nos corpos políticos e diplomáticos da região. Não pelo seu posicionamento especificamente, mas por menosprezar a democracia. Algo que, é preciso dizer, a esquerda colombiana derrotada também o fez, na medida em que se nega a qualquer pedido do governo eleito.

Para pouca surpresa de seus eleitores, Espriella demonstrou que quer seguir o plano à risca ao chamar como seu chanceler Omar Bula Escobar, um politólogo e cientista político que se descreve em seu perfil no X como: “Geopolítica Global, Geopolítica e pró-Ocidente”, sem nenhum gesto de demonstração de que seu país está na América Latina. Ele tem vários livros de sua autoria sobre esses temas.

Bula reúne credenciais pouco comuns. Passou duas décadas no sistema das Nações Unidas, participou de missões humanitárias e conhece por dentro o multilateralismo. Mas, nos últimos anos, construiu também uma identidade pública marcada por críticas ao “globalismo”, à Agenda 2030, a George Soros e à Open Society, além da defesa de Trump, de Israel e de um alinhamento explícito com o Ocidente.

Não é preciso chamá-lo de Maga para perceber a afinidade com o repertório da nova direita transnacional. Tampouco se deve confundir sua chegada com o fim da ideologia na política externa colombiana. O que se anuncia é a substituição de uma visão de mundo por outra.

Sob Gustavo Petro, a diplomacia privilegiou a América Latina, a Amazônia, o Sul Global, os direitos humanos e o diálogo com Cuba e Venezuela. Com Bula, o eixo tende a se deslocar para Washington, Londres, Ottawa e Israel, acompanhado de posições mais duras contra Cuba, Nicarágua, China e Rússia. Uma dureza para o Brasil, ao não se encontrarem, aqui, agendas em comum.

Mudanças de prioridade são naturais em qualquer alternância de poder. O que causa apreensão é a possibilidade de que uma escola diplomática respeitada troque a negociação e a previsibilidade institucional por uma linguagem de guerra cultural e alinhamentos civilizatórios. E é isso que a Colômbia de Espriella parece querer fazer.

Fica ainda mais grave porque tanto a equipe de Espriella como a de Petro decidiram que não fariam “empalme”, ou seja, a interação das duas equipes para passar de um partido para outro as questões mais sérias da gestão.

Para o Brasil, o desafio será evitar uma resposta igualmente ideológica. Mesmo em uma região mais à direita, cada país continuará sendo uma peça essencial. E a Colômbia nunca será apenas mais um governo conservador: É um vizinho estratégico, parceiro amazônico, país de fronteira e peça central no combate ao crime organizado.

O pragmatismo brasileiro, nesse caso, não será uma virtude abstrata. Será uma necessidade imposta pela geografia. O Brasil percebe, em sua diplomacia, que não há nem pode haver uma postura única diante de governos de direita ou de esquerda. E adota a melhor estratégia quando trata cada qual como é. A direita de Keiko, no Peru, não é a de Milei, na Argentina, e muito menos a de Espriella, na Colômbia.

Se há algo que nossa diplomacia sabe fazer é tratar cada um como cada um, sem cair nesse jogo de xadrez que divide o mundo entre “bons e maus”. O diálogo pode parecer embolado, mas vence a diplomacia que for mais eficiente e não se perder em uma disputa ideológica.


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