Com popularidade em queda, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, usou o tradicional discurso do Estado da União nesta terça-feira (25) para tentar convencer o eleitorado americano, a meses da eleição de meio de mandato, que seu governo está melhorando suas vidas.
Trump disse que o país vive uma era de ouro desde sua volta ao poder, há mais de um ano, e, em fala nacionalista e em tom eleitoral, tentou reforçar as conquistas de seu mandato em temas caros à sua base, como imigração e economia.
Este é o primeiro discurso do Estado da União deste mandato de Trump —a solenidade é tradicionalmente realizada por presidentes a partir do segundo ano no cargo. Em março do ano passado, ele discursou na Câmara e, embora o evento se assemelhasse ao Estado da União, a fala não tinha essa designação oficial.
Trump começou seu discurso dizendo que herdou um país em ruínas de seu antecessor, Joe Biden, mas que foi capaz de resgatá-lo. “Após apenas um ano, vimos uma transformação sem precedentes. Essa é a era de ouro dos EUA”, disse Trump. “E nunca voltaremos para onde estávamos. Nossa fronteira está segura, nossos inimigos têm medo, e os EUA são respeitados de novo, talvez como nunca antes.”
Ao menos nos primeiros 30 minutos do discurso do presidente, que sofre com popularidade em baixa, aliados levantaram, aplaudiram e gritavam ovacionando cada frase do republicano. Durante o início da fala de Trump, o time masculino de hóquei apareceu e foi, mais uma vez, ovacionado pela plateia —a equipe venceu a medalha de ouro nas Olimpíadas de Inverno na Itália no domingo (22).
Trump passou a maior parte do discurso olhando para o lado da plateia republicana. Em que a cada frase, ele esperava uma reação dos correligionários.
Diferentemente do ano passado, quando subiu ao palco do Congresso para um discurso após vencer a eleição com ampla popularidade, Trump agora enfrenta uma nação em que 60% desaprovam a forma como conduz seu governo, segundo pesquisa Washington Post/ABC News/Ipsos.
Ele também é alvo de críticas tanto de opositores quanto de membros do próprio partido pela condução de pautas sensíveis, como imigração. Entre os convidados especiais do presidente estão Erika Kirk, viúva do ativista conservador Charlie Kirk.
O republicano se vangloriou de sua campanha de deportação em massa e citou números sem comprovação em uma série de temas, dizendo, por exemplo, que a inflação e o preço dos combustíveis estão em queda; que os números de homicídios estão em mínima histórica; que o mercado de ações quebra recordes de crescimento, assim como a economia; que países estrangeiros se comprometeram a realizar investimentos de US$ 18 trilhões nos EUA.
Trump chamou a Venezuela de um país “amigo e parceiro” ao dizer que o petróleo extraído por Caracas já chega ao mercado americano para ser refinado.
Com a presença dos membros da Suprema Corte, Trump lamentou a decisão que tornou as tarifas que ergeu contra países de todo o mundo ilegais na última sexta-feira (20), um dos maiores reveses do segundo mandato. “Decisão muito lamentável”, disse o presidente, olhando para os juízes responsáveis pela decisão, que estavam presentes.
Trump também reforçou suas ideias para combater os altíssimos custos de saúde nos EUA, dizendo querer reformar o sistema criado por Barack Obama de subsídios a pessoas de baixa renda —culpando os democratas pelo aumento de preços de medicamentos e mensalidades de planos de saúde.
Durante a fala, Trump citava números e conquistas do seu governo, mas era rebatido por democratas, que gritavam de volta: “bobagem”, ou: “Do que que você está falando?”.
Enquanto o discurso se aproxima de uma hora, a reação contrária de democratas começou a aumentar. Ao afirmar que os Estados Unidos foram roubados pela população somali, que Trump tem criticado continuamente e contra a qual já fez comentários xenofóbicos, a deputada Ilhan Omar, de origem somali, respondeu: “Isso é uma mentira. Você é um mentiroso”.
Em determinado momento, Trump provocou a oposição, dizendo: “Se você concorda com a seguinte frase, fique de pé: o governo americano precisa cuidar dos americanos, não dos imigrantes ilegais”. Os democratas ficaram sentados, enquanto republicanos se levantaram e aplaudiram por quase dois minutos. Ao final, o presidente disse aos parlamentares de oposição: “Vocês deveriam ter vergonha”.
“Os democratas destruíram o país, mas nós os detivemos bem a tempo”, disse, olhando para a plateia. Logo depois, ao citar Charlie Kirk, condenou a violência política “de qualquer tipo”.
Apesar de trazer questões migratórias, Trump não mencionou as duas mortes pelos agentes de imigração em Minneapolis em janeiro. Os americanos foram mortos enquanto protestavam contra a truculência das autoridades no estado de Minnesota. As mortes se tornaram um ponto de pressão no governo americano, que recuou na presença de agentes em Minnesota e anunciou o fim da operação no estado.
No discurso, Trump pediu para que o Congresso aprove a lei “Save America Act”, que exigiria documento de identificação para votar em todo o país, ideia controversa nos EUA. De acordo com republicanos, eleições americanas foram fraudadas em estados democratas, com não cidadãos votando nas eleições. A plateia, mais uma vez, aplaudiu o presidente. Especialistas dizem que o número de fraudes eleitorais não passam de dezenas por pleito.
Quandou falou de política externa, Trump se vangloriou do acordo que encerrou a guerra na Faixa de Gaza e disse que trabalha para acabar com a Guerra da Ucrânia. Afirmou ainda que seu ataque contra instalações nucleares do Irã no ano passado foi completamente bem-sucedido.
Os EUA cercaram o Irã militarmente nas últimas semanas, e Trump enviou dois porta-aviões para as águas ao redor do país em preparação para um ataque que, segundo o próprio republicano, virá se os iranianos não negociarem o fim de seu programa nuclear. O presidente americano reafirmou que ainda não ouviu dos negociadores iranianos as “palavras mágicas: nunca teremos uma arma nuclear”. “Nunca permitirei o principal patrocinador de terrorismo do mundo possuir uma bomba”, disse.
O presidente chegou às 21h06 e foi aplaudido pelos presentes, com exceção dos democratas. O deputado democrata Al Green levou uma placa em que diz “negros não são macacos”, em referência ao vídeo racista que Trump postou mostrando o ex-presidente Barack Obama e a ex-primeira dama retratados como macacos.
Republicanos tentaram tirar o cartaz do deputado, mas ele seguiu mostrando a placa. O deputado democrata foi retirado do plenário, da mesma forma que no ano passado, enquanto presentes gritavam USA.
Pouco antes da entrada de Trump, a primeira-dama dos EUA, Melania, foi aplaudida pelos presentes. Logo depois, houve a entrada do primeiro escalão do governo: Marco Rubio (Estado), Pete Hegseth (Defesa), Scott Bessent, (Tesouro) e Pam Bondi (Justiça).
Do lado dos democratas, foram convidadas vítimas de Jeffrey Epstein, financista condenado por abuso sexual e morto na prisão em 2019, além de pessoas que tiveram as vidas atingidas pelo ICE, como a diretora da escola do menino Liam, de cinco anos, que foi detido por agentes federais. Outra pessoa convidada para o evento foi a professora Marimar Martínez, baleada por agentes da agência de proteção das fronteiras dos EUA enquanto protestava contra uma operação em Chicago em outubro de 2025.
A postura mais agressiva em temas como deportações —após a morte de dois americanos por agentes federais —e tarifas tem contribuído para a queda na aprovação geral de Trump. Isso também aumentou a resistência dentro do Legislativo, o que se soma ao clima tenso após a Suprema Corte dos Estados Unidos considerar ilegais as tarifas implementadas pelo presidente.
Nos últimos anos, manifestações da oposição durante o discurso tornaram-se mais frequentes. No ano passado, o deputado Al Green, do Texas, interrompeu a fala de Trump nos primeiros cinco minutos, gritando “você não tem mandato” e foi retirado do plenário. No primeiro mandato de Trump, Nancy Pelosi, então presidente da Câmara, rasgou sua cópia do discurso.
No caso de Joe Biden, que presidiu entre 2020 e 2024, a então deputada Marjorie Taylor Greene gritou contra o democrata enquanto vestia adereços do movimento Maga (Make America Great Again). Desde aquele episódio, Taylor Greene passou de uma das parlamentares mais próximas de Trump a uma de suas vozes mais críticas, tendo, por fim, renunciado ao cargo de deputada.
Democratas organizam um boicote ao evento: ao menos 20 congressistas afirmaram que não comparecerão ao discurso e planejam, no mesmo horário, um protesto no National Mall, batizado de “People’s State of the Union” (o Estado da União do povo).
Nas justificativas, os políticos afirmam que não podem tratar a atual situação política como normal nem dar a Trump a audiência que ele tanto almeja.
“Eu não vou comparecer ao Estado da União. Nunca perdi um, mas não podemos tratar isso como normal. Não vou dar a ele a audiência que ele anseia para as mentiras que conta”, disse o senador democrata Adam Schiff, alvo de ataques frequentes de Trump.
A deputada Shontel Brown, por Ohio, também defendeu o boicote. “Não podemos tratar isso como um momento normal enquanto nossa democracia está sob ameaça. Não podemos continuar trabalhando normalmente sob um governo que acredita estar acima da lei”, afirmou.
Antes do início do discurso, o canal oficial da Casa Branca no YouTube transmitia uma imagem de inteligência artificial de Trump fazendo o juramento de posse ao lado de uma lista de supostas conquistas do seu mandato no primeiro ano de volta ao poder.




