Os Estados Unidos e a Ucrânia anunciaram nesta quarta-feira (30) a assinatura de um acordo que cria um fundo de investimento destinado à reconstrução e à recuperação econômica do país invadido pela Rússia a ser financiado pela exploração de recursos minerais ucranianos.
O anúncio acontece após meses de negociações tensas entre os dois lados e em meio a dúvidas plantadas e condições impostas pelo presidente Donald Trump sobre a continuidade do apoio americano à Ucrânia na sua guerra contra a Rússia.
O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, e a ministra do Desenvolvimento Econômico e Comércio da Ucrânia, Iulia Sviridenko, que visita Washington, finalizaram o tratado. Os detalhes ainda são escassos, mas relatos da imprensa americana dão a entender que o governo Trump não conseguiu um acordo que desse aos EUA acesso irrestrito às riquezas naturais da Ucrânia e à sua infraestrutura petroleira e de gás.
Um rascunho do tratado ao qual a agência de notícias Reuters teve acesso diz que Washington terá, no futuro, “acesso preferencial” a quaisquer novos acordos para exploração de minérios na Ucrânia sem fazer menção a direcionamento imediato de lucros aos EUA, como queriam os americanos.
Ainda assim, a longo prazo, o acordo deve ser lucrativo para as empresas americanas, além de aprofundar uma relação econômica que, na visão de Kiev, significa que Trump estará menos disposto a abandonar o país no futuro.
De qualquer modo, o acordo assinado é uma versão diluída daquele que Washington buscava e que deveria servir, na visão de Trump, como uma forma da Ucrânia de devolver o dinheiro gasto pelos EUA com o auxílio militar na guerra contra a Rússia. O presidente falou diversas vezes em um acordo que permitiria aos EUA “começar a perfurar” onde desejassem e garantiria “segurança ao dinheiro [americano]”.
Ainda de acordo com a Reuters, o fundo criado pelo acordo receberá 50% de todos os lucros obtidos com novos empreendimentos minerais na Ucrânia.
Após a assinatura, o primeiro-ministro ucraniano, Denis Chmigal, disse que Kiev controlará metade do fundo, enquanto os EUA controlarão a outra metade e os recursos serão destinados integralmente a projetos dentro da Ucrânia. “Nosso país manterá total controle de seus recursos naturais, subterrâneos e infraestrutura”, afirmou.
A ministra Iulia Sviridenko confirmou essa informação em um post nas suas redes sociais e acrescentou que o acordo tinha o objetivo de atrair investimentos ao seu país. “Recursos minerais no nosso território pertencem à Ucrânia, e é o Estado ucraniano que decide onde e quanto será extraído”, afirmou.
Sviridenko disse ainda que Kiev não venderá sua estatal petroleira, a Ukrnafta, ou a nuclear, a Energoatom. Afirmou também que as contribuições feitas ao fundo serão isentas de impostos tanto nos EUA quanto na Ucrânia “a fim de garantir os maiores resultados possíveis aos investimentos”.
Uma concessão importante que Kiev buscava dos americanos era algum tipo de garantia de segurança relacionada à extração dos minerais. O governo de Volodimir Zelenski tinha a esperança que, por meio do acordo, seu país pudesse obter dos EUA uma promessa de auxílio militar contra a Rússia.
O acordo final não inclui nenhuma garantia nesse sentido. Em vez disso, segundo o rascunho a que a imprensa teve acesso, “afirma o alinhamento estratégico a longo prazo” entre os dois países e o apoio americano “à segurança, prosperidade, reconstrução e integração da Ucrânia aos sistemas econômicos globais”.
Entretanto, Trump havia dito mais cedo que a presença de empresas americanas “vai manter muitos atores ruins longe do país, e com certeza longe das áreas onde vamos perfurar”, sinalizando que o investimento dos EUA pode funcionar como ferramenta de dissuasão. Após a assinatura do acordo, o republicano disse ter feito um bom negócio com os ucranianos.
Versões anteriores do acordo previam controle significativo dos EUA sobre a infraestrutura energética da Ucrânia“, além de “acesso preferencial” a minerais como níquel, lítio, grafite, titânio e terras raras, como lantânio e cério. Esses termos parecem não estar no texto final.
Em uma rara demonstração de apoio categórico de um membro do alto escalão da Casa Branca a Kiev, Bessent disse que o acordo “sinaliza de forma clara à Rússia que o governo Trump está comprometido com um processo de paz centrado em uma Ucrânia livre, soberana e próspera”.
“O presidente Trump acredita que essa parceria entre os povos americano e ucraniano demonstra o comprometimento que os dois lados têm com uma paz duradoura”, prosseguiu o secretário do Tesouro. Bessent disse ainda que os EUA não permitirão que governos, empresas ou pessoas envolvidas com o esforço de guerra da Rússia lucrem com a reconstrução da Ucrânia.
Assim, a conclusão do acordo representa também um revés para Vladimir Putin, que via com bons olhos os atritos entre Trump e Zelenski e apostava no afastamento de Washington e Kiev durante as negociações para encerrar o conflito. O presidente americano disse recentemente, por exemplo, que a Ucrânia deveria reconhecer a Crimeia como território russo em um eventual acordo de paz.
O governo Zelenski conseguiu evitar que o acordo assinado nesta quarta fizesse qualquer menção a devolver o dinheiro gasto pelos EUA com equipamento militar entregue a Kiev —a hipótese de pagamentos diretos havia sido circulada pelos americanos.
O acordo deveria ter sido finalizado no dia 28 de fevereiro, quando Zelenski viajou a Washington para sua primeira visita oficial aos EUA após a vitória de Trump nas eleições de 2024. Entretanto, o encontro entre os líderes no Salão Oval terminou em bate boca público, com o americano acusando o ucraniano de não estar interessado em pôr fim à guerra, e Zelenski deixou o país sem assinar o tratado econômico —e humilhado.
Horas antes do anúncio de que o acordo havia sido assinado, Bessent havia dito que Kiev tentava fazer uma mudança de última hora no texto, mas que certamente a questão seria reconsiderada. O secretário não deu mais detalhes e negou que o lado americano tenha feito novas exigências de Kiev.
Minerais como níquel, lítio, grafite, titânio e terras-raras, como lantânio e cério, são essenciais para as indústrias aeroespacial de defesa e de energia verde do mundo. A China, principal rival dos EUA, tem liderança no mercado em muitos deles, e investe em projetos na África e na América Latina para obter mais.




