As primeiras eleições primárias para as disputas legislativas nos Estados Unidos começam a delinear o cenário das midterms, mas ainda oferecem sinais mistos sobre a capacidade dos partidos de converter esse desempenho em vitórias em novembro, avaliam cientistas políticos ouvidos pela Folha.
Se, por um lado, candidatos mais progressistas têm obtido vitórias importantes em parte das disputas democratas, por outro, especialistas afirmam que o principal fator que hoje favorece o partido é o desgaste do governo Donald Trump —e não necessariamente uma agenda unificada da oposição.
As eleições ocorrem em um momento em que o presidente voltou a questionar, sem apresentar provas, a confiabilidade do sistema eleitoral americano. Ele pressiona o Congresso a aprovar o Save America Act, projeto que exige documento com foto e comprovante de cidadania para registro eleitoral, além de ampliar o compartilhamento de dados entre os estados e o governo federal.
Críticos afirmam que a fraude eleitoral é extremamente rara e que a proposta poderá restringir votos legítimos.
Historicamente, as eleições de meio de mandato costumam favorecer o partido de oposição ao presidente. Segundo reportagem do New York Times, os democratas aparecem como favoritos para retomar o controle da Câmara dos Representantes. Já o Senado segue em aberto, já que o partido precisaria vencer ao menos dois estados conquistados por Trump por ampla margem.
O avanço da ala mais à esquerda nas primárias também passou a ocupar o centro da estratégia eleitoral de Trump. Levantamento da Reuters mostra que o presidente intensificou nas últimas semanas o uso de discursos que associam adversários ao comunismo após vitórias de candidatos progressistas, especialmente em Nova York.
Segundo a agência, integrantes da equipe republicana avaliam que a retórica mobiliza fortemente a base de Trump e pode aumentar a participação de eleitores republicanos menos frequentes nas urnas, embora tenha desempenho mais limitado entre independentes e jovens.
A estratégia também busca deslocar o foco do debate sobre inflação e custo de vida para retratar os democratas como um partido dominado pela esquerda mais radical.
Os independentes devem ter peso ainda maior neste ciclo. Pesquisa da CNN mostra que 47% dos americanos não se identificam com nenhum dos dois principais partidos, o maior percentual em mais de uma década.
Para Jonathan Hanson, professor de ciência política da Universidade de Michigan, as primárias mostram que o Partido Republicano segue amplamente alinhado ao presidente. “Na maior parte, os candidatos apoiados por Trump estão vencendo ou, no mínimo, fazem campanha defendendo sua agenda. Ninguém está realmente concorrendo contra a ala trumpista do partido neste momento”, afirma.
Entre os democratas, Hanson vê uma disputa entre moderados e progressistas. “Estamos vendo candidatos progressistas derrotarem nomes mais moderados ou ligados ao establishment. Em alguns casos, até parlamentares que já ocupavam o cargo estão perdendo.”
Robert Shapiro, professor da Universidade Columbia, pondera que ainda é cedo para interpretar esses resultados como uma tendência nacional. Para ele, o comparecimento nas primárias ainda não permite concluir que exista um entusiasmo generalizado do eleitorado democrata.
Ele cita o Colorado como exemplo. Na avaliação do professor, o avanço da esquerda no estado pode ser mais relevante do que o observado em Nova York —onde nomes apoiados pelo prefeito Zohran Mamdani tiveram bom desempenho— justamente por refletir menos as características específicas da política nova-iorquina.
Ao mesmo tempo, Shapiro afirma que esse avanço fortalece um dos principais argumentos republicanos para novembro. “Isso aumenta a percepção de que o Partido Democrata está muito à esquerda e desconectado dos eleitores comuns. É exatamente isso que os republicanos tentarão enfatizar.”
Apesar das disputas internas entre moderados e progressistas, os dois especialistas concordam que o principal fator para a oposição continua sendo a avaliação do governo Trump.
Hanson diz estar “razoavelmente otimista” quanto às chances democratas, mas ressalta que isso decorre principalmente da baixa popularidade do presidente devido a inflação, custo de vida, mercado de trabalho e a guerra contra o Irã. “Os números de aprovação de Trump estão muito ruins.”
Shapiro faz avaliação semelhante e afirma que o conflito com o Irã pode produzir efeito parecido ao da Guerra do Iraque em 2006, quando os republicanos sofreram forte derrota nas midterms.
Mesmo assim, Hanson afirma que os democratas ainda têm dificuldade para apresentar uma agenda clara ao eleitor. “Uma coisa é dizer: ‘Nós somos a oposição, votem em nós porque vocês não gostam de quem está governando’. Outra é dizer: ‘Votem em nós e é isso que vamos fazer’. Os democratas ainda não fizeram um bom trabalho ao definir claramente essa agenda.”
No Maine, a desistência do candidato democrata ao senado Graham Platner após acusações de agressão sexual embaralhou uma das disputas consideradas mais promissoras para o partido. Hanson avalia que a republicana Susan Collins continua vulnerável, mas resta saber, diz, se os democratas conseguirão lançar outro nome competitivo a tempo.
Shapiro vê o episódio com mais cautela. Para ele, embora a desistência de Platner represente um desafio, também pode abrir espaço para um candidato considerado mais moderado e em melhores condições de derrotar Collins.
Para o professor de Columbia, o Senado continuará sendo o principal desafio democrata, enquanto a Câmara apresenta um cenário mais favorável porque o partido precisa conquistar poucas cadeiras para retomar a maioria.
“O mau desempenho percebido da administração Trump deve levar os democratas a conquistar cadeiras suficientes para assumir o controle da Câmara. Não espero uma maioria muito grande, mas provavelmente será suficiente para fazer diferença.”




