EUA viram maior ameaça mundial sob Trump – 10/01/2026 – Ian Bremmer

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2026 é um ano de ponto de virada. A maior fonte de instabilidade global não será a China, a Rússia, o Irã ou os cerca de 60 conflitos em curso em todo o planeta –o maior número desde a Segunda Guerra Mundial. Será os Estados Unidos.

Essa é a linha central do relatório Top Risks 2026 do Eurasia Group: o país mais poderoso do mundo, o mesmo que construiu e liderou a ordem global do pós-guerra, está agora a desmantelando ativamente, liderado por um presidente mais comprometido e mais capaz de remodelar o papel da América no mundo do que qualquer outro na história moderna.

O fim de semana passado ofereceu uma prévia. Após meses de pressão crescente –sanções, uma enorme mobilização naval, um bloqueio total de petróleo– forças especiais dos EUA capturaram o ditador venezuelano Nicolás Maduro em Caracas e o levaram para Nova York para enfrentar acusações na Justiça americana.

Trump já batizou sua abordagem para o Hemisfério Ocidental de “Doutrina Donroe“. É sua versão da afirmação da primazia americana nas Américas do século 19 do presidente James Monroe –exceto que, onde Monroe alertou as potências europeias para ficarem fora do continente americano, Trump está usando pressão militar, coerção econômica e acerto de contas pessoal para dobrar a região à sua vontade. E está apenas começando.

Isolacionismo “América em Primeiro Lugar”, isso não é. Os Estados Unidos estão simultaneamente se envolvendo mais, não menos, com Israel e os estados do Golfo Pérsico. A disposição de Trump de atacar o Irã no ano passado e se intrometer na política europeia não exatamente grita retração.

O modelo de “esferas de influência” também não se encaixa. Trump não está dividindo o mundo com potências rivais, cada uma permanecendo em sua faixa. Washington acabou de enviar a Taiwan seu maior pacote de armas de todos os tempos, e a postura do governo no Indo-Pacífico não demonstra desejo de ceder a Ásia à China.

A política externa de Trump não opera em eixos tradicionais –aliados versus adversários, democracias versus autocracias, competição estratégica versus cooperação. Opera em um cálculo mais simples: Você consegue revidar com força suficiente para machucá-lo? Se a resposta for não, e você tem algo que ele quer, você é um alvo. Se for sim, ele fará um acordo.

Trump queria derrubar Maduro, e não havia nada que Maduro pudesse fazer para impedi-lo. Ele não tinha aliados dispostos a agir, um exército capaz de retaliar, nenhuma influência sobre qualquer coisa com a qual Trump se importasse. Então ele foi removido. Não importa que toda a estrutura do regime venezuelano permaneça intacta, e qualquer transição para um governo democrático estável será confusa, contestada e em grande parte responsabilidade da Venezuela.

Trump está pessoalmente satisfeito com a Venezuela continuando a ser governada pelo mesmo regime repressivo, desde que concorde em fazer o que ele manda (de fato, ele escolheu esse arranjo em vez de um governo liderado pela oposição). A ameaça do “faça o que eu mando, senão…” parece já estar funcionando, com Trump anunciando que as novas autoridades da Venezuela entregarão de 30 a 50 milhões de barris de petróleo aos Estados Unidos, com os recursos –palavras dele– “controlados por mim, como presidente”. Sucesso na Venezuela, por mais estreitamente definido que seja, encorajará o presidente a dobrar a aposta nessa abordagem e ir mais longe –seja em Cuba, Colômbia, Nicarágua, México ou Groenlândia.

Na outra ponta do espectro está a China. Quando Trump aumentou as tarifas no ano passado, Pequim retaliou com restrições de exportação sobre terras raras e minerais críticos –ingredientes essenciais para uma ampla gama de produtos de consumo e militares do século 21. A vulnerabilidade exposta, Trump foi forçado a recuar. Agora ele está determinado a manter a distensão e garantir um acordo a qualquer custo.

A isto damos o nome de lei da selva, não estratégia: poder unilateral exercido onde quer que Trump ache que pode se safar, desvinculado das normas, processos burocráticos, estruturas de aliança e instituições multilaterais que antes lhe davam legitimidade. À medida que as restrições se apertam em outros lugares –eleitores irritados com a acessibilidade de preços, perdas nas eleições de meio de mandato se aproximando– e sua urgência em cimentar seu legado se acentua, a disposição do presidente de assumir riscos no lado da segurança, onde ele permanece em grande parte sem restrições, crescerá.

O hemisfério ocidental por acaso é um habitat especialmente rico em presas, onde os Estados Unidos têm alavancagem assimétrica que ninguém pode conter e Trump pode marcar vitórias fáceis com resistência e custos mínimos. Mas a vizinhança imediata da América não é o limite da abordagem de Trump.

Se já não estava claro, as ameaças do governo Trump à Groenlândia esclarecem que a Europa agora faz parte do conjunto de alvos da América. As três maiores economias do continente entram no ano com governos fracos e impopulares sitiados por populistas internamente, a Rússia à sua porta, e um governo americano apoiando abertamente a extrema direita que fragmentaria ainda mais a região. A menos que os europeus encontrem maneiras de ganhar influência e impor custos de forma crível que pesem para Trump–e logo– eles enfrentarão o mesmo aperto que ele está aplicando em todo o hemisfério.

Para a maioria dos países, responder a uma Casa Branca imprevisível, não confiável e perigosa é agora um empreendimento geopolítico urgente. Alguns falharão; a Europa pode estar tarde demais para se adaptar. Alguns terão sucesso; a China já está em uma posição mais forte, satisfeita em deixar seu principal rival se minar e vencer por W.O. Xi Jinping pode se dar ao luxo de jogar o jogo longo. Ele estará no poder muito depois do término do mandato de Trump em 2029.

O dano ao próprio poder americano persistirá após este governo. Alianças, parcerias e credibilidade não são apenas boas de se ter –são multiplicadores de força, dando a Washington uma influência que o poder militar e econômico bruto sozinhos não poderiam ter sustentado.

Trump está queimando essa herança, tratando-a como restrição em vez de ativo, governando como se o poder americano operasse fora do tempo e ele pudesse remodelar o mundo pela força sem consequência duradoura. Mas as alianças que ele está destruindo não voltarão ao normal quando o próximo presidente assumir o cargo. A credibilidade leva uma geração para reconstruir –se é que pode ser reconstruída.

Então, sim, 2026 é um ano de ponto de virada. Não porque saberemos como isso termina, mas porque começaremos a ver o que acontece quando o país que escreveu as regras decide que não quer mais jogar por elas.


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