Milhares de mulheres casadas ou viúvas de combatentes do Estado Islâmico vivem em um limbo em campos de detenção no norte da Síria.
Morando há anos com seus filhos em condições insalubres, proibidas de sair dos campos, grande parte dessas mulheres é estrangeira e quer voltar para casa, mas seus países de origem se recusam a recebê-las. Outras temem ser condenadas à morte ou à prisão perpétua se voltarem para seus países, então querem permanecer na Síria, fora das áreas curdas.
Agora, com o governo sírio de Ahmed Al-Sharaa assumindo o controle desses campos, antes administrados pelas Forças Democráticas da Síria (SDF), elas têm esperança de anistia. Um funcionário da nova gestão afirmou à agência de notícias Reuters que Damasco pretende fechar os campos de Hol e Roj.
A Folha esteve no Roj, no nordeste da Síria, onde vivem 2.200 mulheres e crianças ligadas ao Estado Islâmico. Ainda sob comando do SDF, o campo deve passar em breve para o controle do governo sírio, conforme estipulado em acordo de cessar-fogo recém-assinado após três semanas de guerra.
A egípcia Habiba, 37, está no campo há nove anos, com seus três filhos. Ela diz que gostaria de voltar para o Egito, mas afirmou que nunca conseguiu falar com nenhuma autoridade de seu país. Outras egípcias do campo tiveram pedidos negados.
Habiba diz acreditar que as coisas podem melhorar com o governo Sharaa assumindo o campo. A esperança é de que elas possam ser libertadas.
Ajeitando os óculos na fresta de seu niqab, véu islâmico que deixa apenas os olhos de fora, ela conta que seus filhos não têm acesso a educação de qualidade, porque a escola do campo é ruim.
“Meus filhos nunca saíram daqui, não conhecem o mundo lá fora. Eu quero sair daqui, quero que eles estudem para serem médicos ou engenheiros”, diz à Folha. “Você acha que essas crianças são perigosas? Eles tinham um ano, três anos, quando entraram. Você acha que vão sair daqui e matar alguém?”
Outra egípcia, Fatma, 36, diz que seus três filhos têm muitas doenças, porque o ambiente no campo é insalubre, pela proximidade com os campos de exploração de petróleo.
Entidades de direitos humanos criticam o estado de detenção por tempo indeterminado e as condições esquálidas do campo. O Crescente Vermelho Curdo, a Cruz Vermelha e algumas ONGs atuam no campo.
As forças curdas insistem que se trata de pessoas de alta periculosidade. “Essas crianças vão sair daqui e se tornar jihadistas mais perigosos que seus pais”, diz a administradora do campo, membro das forças curdas, Hakmiyeh Ibrahim.
Segundo ela, o campo é um centro de doutrinação do Estado Islâmico. Muitas crianças não vão à escola, são educadas pelas mães e por jovens emires, seguindo a versão fundamentalista do islã abraçada pelo grupo terrorista, de acordo com Ibrahim.
Até 2023, as autoridades curdas mandavam jovens que completavam 18 anos no campo a centros de reabilitação para radicalizados. Mas, segundo a administradora, os centros ficaram lotados, não há mais vagas. Há cerca de cem homens acima de 18 anos no Roj.
Habiba diz que não tem nenhum contato com seu marido, ex-combatente do Estado Islâmico, e que não sabe nada da facção. “Eu só quero ir embora. Eu não sou perigosa, só sigo o islã e uso roupas islâmicas, isso é meu direito. Eu sou feminista, quero usar as roupas com as quais fico confortável. Por isso sou perigosa?”
Segundo Ibrahim, poucos países aceitam as mulheres e crianças de volta. Da última vez, em 2025, foram 16 famílias para 10 países. Entre elas estava a brasileira Karina Aylin Rayol Barbosa, 28, que havia se juntado ao Estado Islâmico nove anos antes. De acordo com o governo brasileiro, ela é oficialmente a única brasileira que aderiu ao grupo terrorista e ainda está viva.
Conforme relatou a Folha, Karina estava com o filho de sete anos, fruto de seu casamento com um membro do grupo terrorista na Síria. Ela deixou o Brasil em abril de 2016. Vivia antes com a família em Belém (PA), onde era estudante de jornalismo na Universidade Federal do Pará (UFPA) e dizia aos pais que seu sonho era ser comentarista esportiva na televisão.
Karina viveu a maior parte de sua vida no chamado califado de Raqqa, a capital simbólica e religiosa do Estado Islâmico. O califado foi criado por Abu Bakar al-Baghdadi em 2014. O terrorista iraquiano foi morto em 2019 pelos Estados Unidos em Idlib, na Síria.
Uma das mulheres que vive no campo é a britânica Shamima Begum, que fugiu do Reino Unido para a Síria em 2015, aos 15 anos, e se casou com um combatente do Estado Islâmico. Ela teve sua cidadania britânica revogada, e a Justiça negou seu pedido de recuperá-la para poder voltar ao país.
Segundo Ibrahim, as mulheres estão com esperanças de que serão soltas pelo governo Sharaa. “Elas nos dizem: ‘hoje vocês estão de guarda e nós estamos presas; amanhã vai ser o inverso’.”
Sharaa foi integrante da Al Qaeda até 2016 e, ao assumir o governo, era líder do Hayat Tahrir al-Sham (HTS), facção considerada terrorista por muitos países, que removeram sanções após a troca de governo. O governo sírio já assumiu o controle do campo Al-Hol, em Hasakah, onde há 24 mil pessoas, e algumas foram liberadas. Não há números oficiais.
Além das famílias nos campos, há mais de 9.000 combatentes do Estado Islâmico em prisões no nordeste da Síria. Após a ofensiva de Sharaa contra os curdos em janeiro, o governo assumiu o controle dos centros de detenções, e mais de cem detentos fugiram. Diante da instabilidade, o governo americano está em processo de transferir os prisioneiros mais perigosos do Estado Islâmico para prisões no Iraque.



