“Meu coração apertou enquanto ele se atrapalhava com as respostas, mexendo nas anotações, estranhamente sem palavras. Parecia cansado e perplexo.” Esta é a recordação de um filho angustiado, assistindo ao debate presidencial na campanha de reeleição de seu pai. “Comecei a sentir a náusea de um pesadelo se tornando real,” escreveu o filho.
Errou quem pensou se tratar de Hunter, filho de Joe Biden. A descrição acima faz parte do livro “My Father at 100” (Meu Pai aos 100 anos), lançado por Ronald Reagan Jr. em 2011. O ano era 1984, quatro décadas antes de um presidente idoso ser forçado a desistir da campanha à reeleição por causa de um desempenho quase catatônico, em junho do ano passado.
No caso do ex-presidente democrata, o filho Hunter alegou recentemente que o desempenho no debate com Donald Trump foi causado pelo remédio hipnótico zolpidem, prescrito para insônia, após o pai ter cruzado inúmeros fusos horários, viajando duas vezes à Europa e uma vez à Califórnia num período curto.
No caso de Ronald Reagan, morto em 2004, cuja doença de Alzheimer foi anunciada ao público só em 1994, nenhum astro zilionário de Hollywood publicou artigo de opinião pedindo sua renúncia, embora o filho Ron Jr. tenha confirmado que percebeu os sintomas naquele ano do debate, o quarto do primeiro mandato do republicano.
Reagan se reelegeu com folga, aos 73, enfrentando o democrata Walter Mondale, então com 56 anos. No segundo mandato, anedotas sobre seu declínio mental se acumularam, sem que a corporativa imprensa política de Washington desse ao assunto a urgência merecida.
Entre os males da gerontocracia e o preconceito do etarismo, será possível usar bom senso para discutir os rigores impostos pelo cargo de governar centenas de milhões ou mais de 1 bilhão, cruzando vastas distâncias e despachando jovens para morrer em guerras?
Donald Trump, com 79, será o mais velho americano a concluir um mandato na Casa Branca; Narendra Modi faz 75 em setembro; Vladimir Putin, 73 em outubro; o chinês Xi Jinping e o sul-africano Cyril Ramaphosa, já comemoraram 72 anos; Lula completa 80 em outubro.
Há um motivo sólido para o limite mínimo de idade para concorrer a presidente –35 anos no Brasil e nos Estados Unidos. Mas, se a juventude é comumente associada a inexperiência, impulsividade e maior atração por riscos, pouco se fala no risco de governantes idosos, invariavelmente homens, que rejeitam a aposentadoria.
Afinal, a expectativa de vida masculina mais alta do mundo não passa de 83 anos –entre a população de Hong Kong. É difícil dissociar a desordem mundial em curso das obsessões de governantes que sabem ter pouco tempo pela frente. Putin com a restauração imperial, começando pela Ucrânia, Xi com Taiwan e Trump com uma política externa e comercial do século 19. A fixação em deixar um legado esbarra na falta de tempo para construí-lo.
Governantes idosos têm em comum a relutância ou até a sabotagem da busca por herdeiros. Putin, Xi e Trump compartilham esta qualidade, assim como a recusa em ser transparentes sobre a própria saúde. A pressa destrutiva destes homens nada tem a ver com o ímpeto da juventude. É uma pressa de quem nega a própria mortalidade ou, pior, sabe que provavelmente não terá que viver com as consequências dos próprios atos.




