Giuliano da Empoli: Autocrata e techs querem regime global – 10/06/2025 – Mundo

1749164616684222481868e_1749164616_3x2_rt.jpg


A aliança entre oligarcas da tecnologia e autocratas carismáticos é uma ameaça à democracia –esses “predadores” buscam uma mudança de regime global, demolindo todas as regras. Este é o alerta do suíço-italiano Giuliano da Empoli, autor do best-seller Engenheiros do Caos, que lança agora no Brasil seu novo livro, “A Hora dos Predadores”. “Em praticamente todos os lugares, a máquina tecnológica está trabalhando para substituir as instituições democráticas liberais tradicionais”, diz Empoli à Folha. “Para que uma esfera pública democrática possa sobreviver na era digital, você tem que enfrentar isso. Se você se submeter e aceitar que não devemos regular, teremos uma mudança de regime, os predadores assumirão o controle.”

Quais são as características dos barões da tecnologia que se aliam aos autocratas?

Da mesma maneira que os predadores clássicos, eles não querem estar limitados por nenhuma regra e são bastante radicais na busca de sua visão de mundo. Querem eliminar qualquer forma de autoridade estabelecida. Desprezam a classe política democrática, a mídia tradicional e a academia.

O sr. pode citar alguns desses predadores antigos e atuais?

Bem, cito no livro [Donald] Trump, claro, Bukele [Nayib Bukele, presidente de El Salvador], [Javier] Milei [presidente da Argentina]. [Jair] Bolsonaro é citado, como uma espécie de pioneiro, [Binyamin] Netanyahu [primeiro-ministro de Israel], e Mohammad bin Salman, o príncipe herdeiro saudita. Eu os chamo de borgianos, porque eles remontam a César Bórgia (1475-1507), que foi o modelo para o príncipe de Maquiavel (1469-1527).

Algum ou alguma oligarca da tecnologia não é predador?

Alguns deles estão do lado de Trump, outros não. Mas isso não é importante. Sabe aqueles caras legais com moletons de capuz que apareceram há 30 anos como jovens e simpáticos empreendedores? Não era apenas dinheiro, não era um negócio como qualquer outro. Eles carregam consigo um novo modelo de sociedade e de governança. Não importa se são progressistas, trumpistas ou de extrema direita. Em praticamente todos os lugares, a máquina tecnológica que construíram está trabalhando para substituir as instituições democráticas liberais tradicionais e a forma de organizar a sociedade.

Quando falamos sobre seu livro “Os Engenheiros do Caos”, o sr. disse que os políticos moderados eram uma espécie em extinção. Como isso evoluiu?

Naquela época, o caos ainda era uma ferramenta dos insurgentes, para tomar o poder. Hoje, há a hegemonia do caos, é o selo do poder. Estamos enfrentando uma tentativa de mudança de regime global. É pior do que apenas o risco de extinção dos políticos moderados.

Como o sr. caracterizaria esse novo regime?

Temos democracias em que há muito descontentamento, e as pessoas têm a sensação de que nada pode ser feito para mudar a situação delas. A máquina digital amplifica todas as queixas. Nesse contexto, aparece um predador que diz: a única maneira de resolver o problema é quebrar as regras. Você só pode resolver a criminalidade suspendendo o Estado de Direito e colocando todas as pessoas tatuadas na prisão, como Bukele fez em El Salvador. Ou você só pode intervir na inflação e no custo de vida com uma guerra tarifária. Isso é uma forma de milagre político. Na teologia, um milagre é quando Deus contorna as regras normais de funcionamento do mundo para intervir em um caso e produzir um resultado espetacular. Isso é o que os predadores prometem —vou contornar todas as regras para produzir um milagre.

Há alguma forma de resistir a essa mudança de regime?

Comparo os políticos tradicionais aos imperadores astecas que viram um tipo diferente de homem desembarcando de navios [colonizadores espanhóis] e não sabiam como confrontá-lo. Nós aceitamos a ideia de que a esfera digital era diferente, que as regras democráticas não se aplicavam a ela, que não precisava de contrapesos, responsabilidade e prestação de contas. E acabamos com uma espécie de Estado falido, uma Somália na esfera digital, em que as únicas regras são feitas por senhores da guerra. Essa Somália digital está colonizando nossas democracias, e deveria acontecer o oposto. Nossas democracias com suas regras e contrapesos é que deveriam colonizar a esfera digital.

Nos EUA, a Câmara acabou de aprovar o projeto de lei do orçamento que inclui uma moratória de dez anos para legislação de IA no nível estadual. Como o sr. vê essa reação contra a regulamentação em geral?

É uma parte central da mudança de regime que estão tentando implementar. [O vice-presidente americano] J. D. Vance foi à Conferência de Segurança de Munique e não falou nada sobre Ucrânia, Otan ou assuntos militares. Falou supostamente sobre liberdade de expressão, mas, na verdade, era sobre regulação tecnológica. Ele disse muito claramente o que eles têm dito em muitas ocasiões: se você regular a tecnologia e nossas plataformas, será uma ação hostil contra os EUA, e nós não só não vamos mais protegê-los como iremos atrás de vocês. Essa é uma parte central da agenda agora. Para que uma esfera pública democrática possa sobreviver na era digital, você tem que enfrentar isso. Caso contrário, se você se submeter e aceitar que não devemos regular, teremos uma mudança de regime, e os predadores assumirão o controle.

Por que a Europa é vista como a nêmesis, o inimigo pelos predadores?

Muitos países europeus eram antigas potências imperiais que entraram em colapso e viveram a tragédia de duas guerras mundiais. Eles desenvolveram uma maneira diferente de interagir, através de um sistema de regras, para impedir que a lei da selva, do mais forte, prevalecesse. Mesmo que de maneira imperfeita, aplicaram esse método a todas as esferas, incluindo a digital. Então a Europa é percebida como um inimigo existencial pelos predadores. Seja Trump e Vance ou os oligarcas da tecnologia, são todos violentamente antieuropeus.

Vimos algumas tentativas de reformar e simplificar a regulamentação na UE. A Europa está cedendo à pressão para desregulamentar ou se trata de um ajuste bem-vindo?

Os europeus têm pensado que vão contornar Trump ao fazer algumas concessões. Essa abordagem subestima a natureza da ofensiva que está em curso, da mudança de regime perseguida pelo governo Trump. Isso vai além de Trump. Essa aliança autocrática entre tecnologia e extremistas é algo estrutural. É a principal ameaça à nossa democracia. Não é algo que se possa negociar, trocar por uma redução de 10% nas tarifas. É o cerne. Se não construirmos nossa soberania digital e garantirmos que a tecnologia será parte de uma vida democrática, todo o resto será inútil.


Giuliano da Empoli, 51

Cientista político, foi vice-prefeito de Florença para Cultura e assessor sênior do ex-primeiro-ministro italiano Matteo Renzi. Publicou 11 livros, entre eles o romance “O Mago do Kremlin”, vencedor do Grande Prêmio da Academia Francesa. Formado em direito pela Universidade Sapienza, de Roma, tem mestrado em Ciências Políticas pela Sciences Po.



Source link

Leia Mais

Conheça as grávidas que sofrem com Cuba à beira do

Conheça as grávidas que sofrem com Cuba à beira do colapso – 06/04/2026 – Equilíbrio e Saúde

abril 6, 2026

177550721369d4170d8a5da_1775507213_3x2_rt.jpg

Kast sela aliança com Milei em visita à Argentina – 06/04/2026 – Mundo

abril 6, 2026

naom_67ade236593d8.webp.webp

Anvisa proíbe 52 lotes de suplemento alimentar por risco de contaminação com Salmonella

abril 6, 2026

Fonseca sobra na estreia em Monte Carlo e quebra jejum

Fonseca sobra na estreia em Monte Carlo e quebra jejum de brasileiros

abril 6, 2026

Veja também

Conheça as grávidas que sofrem com Cuba à beira do

Conheça as grávidas que sofrem com Cuba à beira do colapso – 06/04/2026 – Equilíbrio e Saúde

abril 6, 2026

177550721369d4170d8a5da_1775507213_3x2_rt.jpg

Kast sela aliança com Milei em visita à Argentina – 06/04/2026 – Mundo

abril 6, 2026

naom_67ade236593d8.webp.webp

Anvisa proíbe 52 lotes de suplemento alimentar por risco de contaminação com Salmonella

abril 6, 2026

Fonseca sobra na estreia em Monte Carlo e quebra jejum

Fonseca sobra na estreia em Monte Carlo e quebra jejum de brasileiros

abril 6, 2026