A aliança entre oligarcas da tecnologia e autocratas carismáticos é uma ameaça à democracia –esses “predadores” buscam uma mudança de regime global, demolindo todas as regras. Este é o alerta do suíço-italiano Giuliano da Empoli, autor do best-seller Engenheiros do Caos, que lança agora no Brasil seu novo livro, “A Hora dos Predadores”. “Em praticamente todos os lugares, a máquina tecnológica está trabalhando para substituir as instituições democráticas liberais tradicionais”, diz Empoli à Folha. “Para que uma esfera pública democrática possa sobreviver na era digital, você tem que enfrentar isso. Se você se submeter e aceitar que não devemos regular, teremos uma mudança de regime, os predadores assumirão o controle.”
Quais são as características dos barões da tecnologia que se aliam aos autocratas?
Da mesma maneira que os predadores clássicos, eles não querem estar limitados por nenhuma regra e são bastante radicais na busca de sua visão de mundo. Querem eliminar qualquer forma de autoridade estabelecida. Desprezam a classe política democrática, a mídia tradicional e a academia.
O sr. pode citar alguns desses predadores antigos e atuais?
Bem, cito no livro [Donald] Trump, claro, Bukele [Nayib Bukele, presidente de El Salvador], [Javier] Milei [presidente da Argentina]. [Jair] Bolsonaro é citado, como uma espécie de pioneiro, [Binyamin] Netanyahu [primeiro-ministro de Israel], e Mohammad bin Salman, o príncipe herdeiro saudita. Eu os chamo de borgianos, porque eles remontam a César Bórgia (1475-1507), que foi o modelo para o príncipe de Maquiavel (1469-1527).
Algum ou alguma oligarca da tecnologia não é predador?
Alguns deles estão do lado de Trump, outros não. Mas isso não é importante. Sabe aqueles caras legais com moletons de capuz que apareceram há 30 anos como jovens e simpáticos empreendedores? Não era apenas dinheiro, não era um negócio como qualquer outro. Eles carregam consigo um novo modelo de sociedade e de governança. Não importa se são progressistas, trumpistas ou de extrema direita. Em praticamente todos os lugares, a máquina tecnológica que construíram está trabalhando para substituir as instituições democráticas liberais tradicionais e a forma de organizar a sociedade.
Quando falamos sobre seu livro “Os Engenheiros do Caos”, o sr. disse que os políticos moderados eram uma espécie em extinção. Como isso evoluiu?
Naquela época, o caos ainda era uma ferramenta dos insurgentes, para tomar o poder. Hoje, há a hegemonia do caos, é o selo do poder. Estamos enfrentando uma tentativa de mudança de regime global. É pior do que apenas o risco de extinção dos políticos moderados.
Como o sr. caracterizaria esse novo regime?
Temos democracias em que há muito descontentamento, e as pessoas têm a sensação de que nada pode ser feito para mudar a situação delas. A máquina digital amplifica todas as queixas. Nesse contexto, aparece um predador que diz: a única maneira de resolver o problema é quebrar as regras. Você só pode resolver a criminalidade suspendendo o Estado de Direito e colocando todas as pessoas tatuadas na prisão, como Bukele fez em El Salvador. Ou você só pode intervir na inflação e no custo de vida com uma guerra tarifária. Isso é uma forma de milagre político. Na teologia, um milagre é quando Deus contorna as regras normais de funcionamento do mundo para intervir em um caso e produzir um resultado espetacular. Isso é o que os predadores prometem —vou contornar todas as regras para produzir um milagre.
Há alguma forma de resistir a essa mudança de regime?
Comparo os políticos tradicionais aos imperadores astecas que viram um tipo diferente de homem desembarcando de navios [colonizadores espanhóis] e não sabiam como confrontá-lo. Nós aceitamos a ideia de que a esfera digital era diferente, que as regras democráticas não se aplicavam a ela, que não precisava de contrapesos, responsabilidade e prestação de contas. E acabamos com uma espécie de Estado falido, uma Somália na esfera digital, em que as únicas regras são feitas por senhores da guerra. Essa Somália digital está colonizando nossas democracias, e deveria acontecer o oposto. Nossas democracias com suas regras e contrapesos é que deveriam colonizar a esfera digital.
Nos EUA, a Câmara acabou de aprovar o projeto de lei do orçamento que inclui uma moratória de dez anos para legislação de IA no nível estadual. Como o sr. vê essa reação contra a regulamentação em geral?
É uma parte central da mudança de regime que estão tentando implementar. [O vice-presidente americano] J. D. Vance foi à Conferência de Segurança de Munique e não falou nada sobre Ucrânia, Otan ou assuntos militares. Falou supostamente sobre liberdade de expressão, mas, na verdade, era sobre regulação tecnológica. Ele disse muito claramente o que eles têm dito em muitas ocasiões: se você regular a tecnologia e nossas plataformas, será uma ação hostil contra os EUA, e nós não só não vamos mais protegê-los como iremos atrás de vocês. Essa é uma parte central da agenda agora. Para que uma esfera pública democrática possa sobreviver na era digital, você tem que enfrentar isso. Caso contrário, se você se submeter e aceitar que não devemos regular, teremos uma mudança de regime, e os predadores assumirão o controle.
Por que a Europa é vista como a nêmesis, o inimigo pelos predadores?
Muitos países europeus eram antigas potências imperiais que entraram em colapso e viveram a tragédia de duas guerras mundiais. Eles desenvolveram uma maneira diferente de interagir, através de um sistema de regras, para impedir que a lei da selva, do mais forte, prevalecesse. Mesmo que de maneira imperfeita, aplicaram esse método a todas as esferas, incluindo a digital. Então a Europa é percebida como um inimigo existencial pelos predadores. Seja Trump e Vance ou os oligarcas da tecnologia, são todos violentamente antieuropeus.
Vimos algumas tentativas de reformar e simplificar a regulamentação na UE. A Europa está cedendo à pressão para desregulamentar ou se trata de um ajuste bem-vindo?
Os europeus têm pensado que vão contornar Trump ao fazer algumas concessões. Essa abordagem subestima a natureza da ofensiva que está em curso, da mudança de regime perseguida pelo governo Trump. Isso vai além de Trump. Essa aliança autocrática entre tecnologia e extremistas é algo estrutural. É a principal ameaça à nossa democracia. Não é algo que se possa negociar, trocar por uma redução de 10% nas tarifas. É o cerne. Se não construirmos nossa soberania digital e garantirmos que a tecnologia será parte de uma vida democrática, todo o resto será inútil.
Giuliano da Empoli, 51
Cientista político, foi vice-prefeito de Florença para Cultura e assessor sênior do ex-primeiro-ministro italiano Matteo Renzi. Publicou 11 livros, entre eles o romance “O Mago do Kremlin”, vencedor do Grande Prêmio da Academia Francesa. Formado em direito pela Universidade Sapienza, de Roma, tem mestrado em Ciências Políticas pela Sciences Po.




