Vamos parar de rodeios: o governo de ultradireita de Israel, liderado pelo primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, está cuspindo na cara dos Estados Unidos e dizendo que está chovendo. Não está chovendo. Bibi está fazendo de tolos tanto o presidente Trump quanto os judeus americanos. E, se os EUA deixarem isso passar, serão tolos mesmo.
Enquanto mantém Trump focado na ameaça nuclear e de mísseis do Irã —que, embora reduzida, ainda é muito real e terá que ser enfrentada diplomática ou militarmente—, Bibi está ameaçando fundamentalmente os interesses mais amplos dos EUA no Oriente Médio, sem falar na segurança dos judeus em todo o mundo. De que forma? Não consigo colocar de forma mais sucinta do que fez Ehud Olmert, ex-primeiro-ministro israelense.
“Um esforço violento e criminoso está em andamento para limpar etnicamente territórios na Cisjordânia”, escreveu ele em um artigo no Haaretz este mês. “Gangues de colonos armados perseguem, prejudicam, ferem e até matam palestinos que vivem lá. Os ataques incluem queimar olivais, casas e carros; invadir residências; e agredir fisicamente as pessoas.” Ele continuou: “Os desordeiros, os terroristas judeus, atacam palestinos com ódio e violência com um único objetivo: forçá-los a fugir de suas casas. Tudo isso é feito na esperança de que a terra seja então preparada para assentamentos judaicos, a caminho de realizar o sonho de anexar todos os territórios”.
As tentativas aceleradas de Israel de anexar a Cisjordânia e permanecer permanentemente em Gaza —negando direitos políticos aos palestinos em ambas as áreas— são tão moralmente imprudentes e demograficamente insanas quanto seria os EUA anexarem o México.
Se fossem apenas os israelenses que seriam prejudicados pela fantasia maluca de que cerca de sete milhões de judeus israelenses podem controlar cerca de sete milhões de árabes palestinos perpetuamente, eu poderia ser tentado a dizer que, se os líderes de Israel querem cometer suicídio nacional, não posso impedi-los.
Mas os efeitos não ficarão confinados a Israel. Acredito que esse empreendimento de motivação messiânica vá tornar o Israel de hoje permanentemente indistinguível da África do Sul do apartheid e terá implicações seriamente prejudiciais tanto para os interesses americanos quanto para os interesses e a segurança dos judeus em todo o mundo.
Se o governo de Netanyahu continuar nesse curso, vai despedaçar as instituições judaicas em todos os lugares, à medida que membros da diáspora judaica são forçados a decidir se ficam a favor ou contra um Israel semelhante ao apartheid. Também acelerará a tendência iniciada pela devastação de Gaza por Israel, em que um número crescente de jovens democratas e republicanos nos EUA está se voltando contra Israel e, nas franjas, contra os judeus em geral.
Pais judeus ao redor do mundo logo estarão em uma posição que nunca imaginaram: assistindo a seus filhos e netos aprenderem o que é ser judeu em um mundo onde o Estado judeu é um Estado pária.
Uma pesquisa do Institute for Middle East Understanding Policy Project, conduzida pelo YouGov em novembro, descobriu que 51% dos eleitores republicanos com menos de 45 anos disseram preferir apoiar um candidato nas primárias presidenciais de 2028 que fosse a favor de reduzir os repasses de armas financiadas pelos contribuintes para Israel. Apenas 27% apoiariam um candidato que aumentasse ou mantivesse o fornecimento de armas. Candidatos democratas hoje que não descrevem a guerra de Israel em Gaza como um genocídio enfrentam ventos contrários com jovens eleitores progressistas.
Na recente Conferência de Segurança de Munique, a deputada Alexandria Ocasio-Cortez foi questionada se achava que “o candidato presidencial democrata nas eleições de 2028 deveria reavaliar a ajuda militar a Israel”. Ela respondeu: “Acho que, pessoalmente, a ideia de ajuda completamente incondicional, não importa o que se faça, não faz sentido. Acho que isso possibilitou um genocídio em Gaza”.
Como eu disse no início, Netanyahu fez de Trump um otário, assim como do lobby pró-Israel liderado pelo Comitê de Assuntos Públicos Americano-Israelense e de muitos outros chamados líderes judeus americanos. Ele conseguiu que se concentrassem no Irã e ignorassem o fato de que tudo o que ele está fazendo em Gaza, na Cisjordânia e dentro de Israel vai tensionar as relações entre os EUA e seus principais aliados no Oriente Médio, incluindo Egito, Jordânia, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Turquia e Qatar.
Sim, o Irã continua sendo uma ameaça nuclear reduzida, mas muito real, após os ataques aéreos israelenses e americanos atingirem suas instalações de enriquecimento nuclear e mísseis balísticos em junho. Ele já reconstruiu em grande parte seu estoque de mísseis balísticos que poderiam causar danos físicos reais a Israel se a guerra for retomada. Levo isso muito a sério.
Mas focar exclusivamente a ameaça externa do Irã ignora a ameaça interna que o governo de Netanyahu representa para Israel e sua posição como uma democracia baseada no Estado de Direito e uma sociedade unificada. Netanyahu tem se engajado em um esforço de três anos, mesmo durante a guerra em Gaza, para realizar um golpe judicial que praticamente eliminaria a separação de Poderes em Israel —aquela que permite que a Suprema Corte controle os excessos do partido político governante. O Irã é responsável por isso? Não.
O Irã tem se engajado em um esforço implacável para expurgar ou enfraquecer a corajosa e independente procuradora-geral de Israel, Gali Baharav-Miara? Não, mas Bibi tem. Essa procuradora-geral, apoiada pela Suprema Corte, é a única coisa que impede novos ataques a um governo baseado em regras: a anulação do julgamento de corrupção de Netanyahu, bem como os esforços de Bibi para politizar nomeações no serviço público e uma isenção generalizada do serviço militar para os judeus ultraortodoxos que o mantêm no poder.
O Irã bloqueou o estabelecimento de uma comissão independente de inquérito sobre a incrível falha de inteligência e liderança antes da invasão assassina do Hamas no 7 de Outubro? Não, mas Bibi bloqueou. Essa invasão não apenas aconteceu sob a vigilância de Netanyahu, mas também foi claramente causada em parte por seus esforços para provar ao mundo que Israel poderia ter paz com os Estados árabes sem fazer paz com os palestinos.
O Hamas cresceu em força graças aos longos esforços de Netanyahu para sustentar o Hamas com dinheiro do Qatar, para que a liderança palestina estivesse sempre dividida entre o Hamas em Gaza e a Autoridade Palestina na Cisjordânia. Dessa forma, Bibi poderia dizer a cada presidente americano que lamentava muito não ter um parceiro palestino unificado para negociar a paz.
O Irã indicou comparsas inexperientes de Bibi para comandar as organizações de segurança mais importantes de Israel —o Shin Bet e o Mossad? Não, Bibi fez isso.
O que levou Trump a exigir publicamente que o presidente de Israel, Isaac Herzog, perdoasse Netanyahu —mesmo antes de um veredicto— pelas acusações de corrupção pelas quais foi indiciado? Seria um golpe terrível para o Estado de Direito em Israel. Certamente não foi o Irã.
E aqui está o que é verdadeiramente louco. Israel hoje nunca foi tão temido militarmente e admirado tecnologicamente por seus vizinhos árabes, por causa dos golpes que desferiu no Irã, no Hezbollah e no Hamas. Se Netanyahu se engajasse em negociações por uma solução de dois Estados com a Autoridade Palestina —em quaisquer termos razoáveis—, isso abriria caminho para a paz entre Israel e Arábia Saudita, Líbano, Síria e Iraque.
Toda a vizinhança, e todo o mundo muçulmano além dela, se abriria para Israel; o Irã ficaria totalmente isolado. A tecnologia israelense e a energia árabe criariam uma sinergia incrível para a era da IA.
Isso seria um enorme benefício para os interesses dos EUA. Embora algumas complicações certamente persistissem, o Oriente Médio estaria essencialmente conseguindo a paz sob um guarda-chuva americano. E a redução das tensões entre Israel e o mundo árabe permitiria que o governo Trump fizesse o que os últimos governos americanos desejaram: reduzir sua presença militar na região e mudar seu foco para contrabalançar a China na Ásia. Infelizmente, Bibi tem outras prioridades.
As ambições anexacionistas do gabinete de Netanyahu colidem diretamente com o plano de 20 pontos de Trump, que imagina uma solução de dois Estados um dia. O “Conselho da Paz” que Trump criou para supervisionar esse plano realizou sua reunião inaugural em Washington, mas Netanyahu não compareceu.
O ministro das Finanças de Bibi, Bezalel Smotrich, disse que, após as eleições deste ano, “encorajaria a migração” de palestinos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza.
Enquanto isso,todos os principais aliados árabes dos Estados Unidos e a Turquia, que são centrais para o acordo de cessar-fogo de Trump em Gaza, se reuniram em uma declaração condenando fortemente a decisão de Israel de designar terras na Cisjordânia ocupada como terras estatais israelenses.
Quando Israel está engajado em anexação de fato, com o que grupos de direitos humanos descrevem como limpeza étnica em Gaza e na Cisjordânia, está se transformando em um grande contribuinte para o conflito permanente na região. Nada disso é do interesse dos Estados Unidos, mas é muito apreciado pelo Irã.
Os governantes islamo-fascistas de Teerã representam uma ameaça muito real a Israel. Eles lideram um regime terrível cuja queda seria uma bênção para seu povo e para a região. Mas, por favor —por favor—, poupem-me do absurdo de que o Irã é a única ameaça a Israel hoje.
O Irã não é a maior ameaça a Israel como uma democracia governada pelo Estado de direito. Não é a maior ameaça às relações EUA-Israel. Não é a maior ameaça à unidade e segurança dos judeus ao redor do mundo. Não é a razão pela qual tantos tecnólogos, engenheiros e médicos israelenses talentosos estão se mudando. E essa não é a maior razão pela qual Israel está se tornando um Estado de apartheid, não apenas por se recusar a tentar criar um Estado palestino separado, mas também por trabalhar para tornar isso impossível.
Esse título pertence ao governo de fanáticos messiânicos, de nacionalistas que odeiam árabes e de israelenses ultraortodoxos antimodernos montado por Binyamin Netanyahu para se manter no poder.




