Guerra aprofunda crise hídrica no Irã, já sob grave seca – – Mundo

Guerra aprofunda crise hídrica no Irã, já sob grave seca


A guerra no Irã expôs os problemas hídricos do país, que já haviam sido levados ao limite pelas mudanças climáticas, pelo uso agrícola excessivo e por décadas de má gestão.

O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, acusou no sábado (7) os Estados Unidos de bombardear uma usina de dessalinização na ilha de Qeshm, afetando o abastecimento de água de 30 vilarejos. O governo americano negou responsabilidade pelo ataque.

O incidente, e o subsequente bombardeio iraniano a uma usina de dessalinização no Bahrein, gerou temores de que a guerra entre EUA e Israel contra o Irã possa levar a ataques mais amplos à infraestrutura hídrica crítica no golfo Pérsico, ameaçando o abastecimento de milhões de pessoas.

O Irã, no entanto, já enfrentava uma escassez crítica de água antes do conflito.

“Eles ainda estão em estado de crise”, disse Eric Lob, professor associado de política e relações internacionais da Universidade Internacional da Flórida. “Ainda há problemas de escassez de água e apagões, e agora, se algo acontecer, o regime pode culpar o conflito.

Teerã, uma cidade de 10 milhões de habitantes, vem sendo afetada por anos de seca. No final do ano passado, a precipitação média do país caiu para 45% abaixo do normal, e as barragens e reservatórios que abasteciam a capital operavam em capacidade mínima.

A organização meteorológica do Irã disse que as cidades estavam à beira do que chamou de “dia zero da água”, o ponto em que os sistemas de abastecimento simplesmente param de funcionar. Antes do início da guerra, o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, pediu a transferência da capital e disse que a diminuição das reservas de água e outras pressões ecológicas haviam “tornado a cidade inabitável”.

Uma chuva torrencial em dezembro trouxe pouco alívio porque caiu sobre um solo seco e degradado, com pouca capacidade de absorção, disse Francesco Femia, cofundador do Centro para Clima e Segurança, uma organização de pesquisa de Washington.

“Por essa razão e outras relacionadas à má gestão da água, as chuvas também não reabasteceram os aquíferos subterrâneos do Irã, deixando o país em um estado contínuo de grave estresse hídrico”, afirmou Femia.

As mudanças climáticas tiveram um papel importante. Os ciclos de seca estão se tornando mais frequentes e severos, e o ano passado marcou um dos períodos mais secos dos últimos 20 anos para o Irã. Eventos climáticos extremos —como uma onda de calor em 2023 que levou a uma paralisação nacional de dois dias quando as temperaturas atingiram 50,5 °C— agravaram a escassez de água. Ao mesmo tempo, o derretimento da neve nas montanhas que alimenta os rios vem diminuindo.

Mas o governo iraniano também aprofundou perigosamente a crise com décadas de má gestão, segundo especialistas no assunto.

Após a Revolução Islâmica de 1979, o Irã começou a acelerar drasticamente a construção de barragens e reservatórios em busca de autossuficiência hídrica. Mas muitos foram construídos em locais inadequados, e o aumento do calor intensificou a evaporação da água.

“A prioridade era energia e lucro, em vez do que fazia sentido do ponto de vista ecológico ou hídrico”, disse Lob, professor da Flórida. Agora, muitos reservatórios estão quase vazios e se tornaram o que um crítico chamou de “monumentos ao fracasso”.

As autoridades iranianas também silenciaram ativistas ambientais e funcionários do governo que pediam que as questões hídricas fossem levadas mais a sério. Em vez de mudanças mais amplas, os funcionários implementaram medidas paliativas durante as crises, como reduzir a pressão da água e racionar o abastecimento.

O país também está drenando o que resta de sua água subterrânea. Um estudo de 2024 sobre 1.700 reservas de água em 40 países descobriu que 32 dos 50 aquíferos mais sobrexplorados do mundo estão no Irã.

As autoridades cogitaram algumas soluções de longo prazo, como importar água do golfo de Omã. Mas o governo nunca fez um esforço sério para enfrentar a crise hídrica, concentrando recursos em fortalecer as capacidades militares e nucleares e apoiar grupos terroristas por procuração em toda a região.

A destruição da usina de dessalinização de Qeshm pode ter tido apenas um impacto modesto nos problemas hídricos do país, segundo Michael Gremillion, diretor do Centro Global de Segurança Hídrica da Universidade do Alabama. Mas a contínua escassez de água no Irã, combinada com a devastação econômica da guerra, pode levar à escassez de alimentos e fazer com que os moradores fujam de suas casas.

“Pelo menos no futuro próximo, a seca não vai se resolver tão cedo. Isso vai causar muitos problemas”, disse Gremillion.



Fonte CNN BRASIL

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