O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, disse na segunda-feira passada (9): “Nós não começamos esta guerra, mas sob o presidente Trump, nós vamos terminá-la.”
Depois de invadir a Ucrânia em 2022, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, colocou a situação desta forma: “Não fomos nós que começamos a chamada guerra na Ucrânia. Pelo contrário, estamos tentando terminá-la.”
A guerra de Putin foi uma invasão terrestre desastrosa contra uma democracia emergente. A guerra de Donald Trump contra o Irã é uma sofisticada campanha de bombardeios contra uma teocracia agressiva que reprimia e matava seus próprios cidadãos nas ruas.
Ainda assim, algumas semelhanças são inquietantes, começando pelo fato de que tanto a Casa Branca quanto o Kremlin tentam evitar chamar suas ações de atos de guerra. Questionado se “isto é guerra”, o presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, Mike Johnson, respondeu: “Acho que é uma operação.”
“Esta é uma operação militar especial”, disse o equivalente russo de Johnson, Viatcheslav Volodin, presidente da Duma (equivalente à Câmara), dois meses após o início da invasão de seu país, mantendo a terminologia oficial do Kremlin. “Se a Rússia tivesse iniciado uma guerra em grande escala, ela já teria terminado há muito tempo.”
Objetivos que mudam, uma ameaça exagerada, uma missão ambígua: os muitos ecos russos na mensagem da Casa Branca sobre o Irã destacam os riscos de uma guerra definida de forma vaga e com duração indeterminada, na qual o lado atacante deposita suas esperanças em uma mudança de regime.
“Ainda nem começamos nada a sério”, disse Putin em julho de 2022, tentando demonstrar desafio após meses de combates.
“Ainda nem começamos a bater neles com força”, disse Trump à CNN na segunda-feira passada.
Eu estava em Moscou quando Putin fez um discurso à nação na madrugada de 24 de fevereiro de 2022, anunciando sua “operação militar especial”. O discurso apresentou décadas de ressentimento contra a Ucrânia e o Ocidente como deixando a Rússia “sem outra escolha” senão atacar.
Um dos momentos mais perturbadores foi quando Putin apelou aos soldados ucranianos: “Deponham imediatamente as armas e voltem para casa”, alertando que, se não o fizessem, “a responsabilidade pelo possível derramamento de sangue recairá total e inteiramente sobre o regime ucraniano governante”.
Por isso foi surpreendente quando Trump adotou notas semelhantes em seu discurso noturno declarando “grandes operações de combate” no Irã. Exagerando a ameaça dos mísseis iranianos, Trump falou de décadas de “derramamento de sangue e assassinatos em massa” por parte do Irã e afirmou que “não podemos mais aceitar isso”. Ele disse que os soldados iranianos deveriam “depor suas armas” ou “enfrentar morte certa”.
Também causou surpresa quando Trump, no dia seguinte, repetiu seu apelo para que os soldados iranianos se desarmassem e incentivou os iranianos a “aproveitar este momento” para derrubar seu governo. Putin também tentou, no segundo dia de guerra, convencer soldados ucranianos a parar de resistir e a “tomar o poder em suas próprias mãos”.
Autoridades ocidentais e elites russas esperavam que a guerra terminasse rapidamente. Oficiais russos foram instruídos a levar seus uniformes de gala, antecipando um rápido desfile militar em Kiev. Mas, mesmo enquanto a Rússia afirmava falsamente ter estabelecido “total superioridade aérea” sobre a Ucrânia, suas linhas de suprimento excessivamente estendidas na desastrosa corrida militar rumo a Kiev tornaram-se alvos fáceis da artilharia ucraniana.
Dias se transformaram em semanas, que se transformaram em meses, que se transformaram em anos. Os ucranianos passaram a usar armamentos ocidentais cada vez mais sofisticados para ataques letais muito atrás das linhas de frente, com coordenadas fornecidas pelos EUA.
Nesse processo, os objetivos de Putin se estreitaram: da mudança de regime —que ele chamou de “desnazificação” e “desmilitarização” da Ucrânia— para o foco em capturar toda a região oriental do Donbass e manter a Ucrânia fora da Otan.
Agora, o saldo da guerra de Putin se aproxima de 500 mil vidas. As Forças Armadas da Ucrânia não se renderam, e o presidente Volodimir Zelenski ainda está no poder em Kiev, liderando o que o Kremlin descreve como um conluio de neonazistas.
Trump está apenas na primeira semana de sua guerra, mas não há evidências de que autoridades ou soldados iranianos estejam começando a se render —mantendo o controle de um regime que o senador Lindsey Graham, republicano da Carolina do Sul e um dos mais duros críticos do Irã em Washington, chama de “nazistas religiosos”.
À medida que o governo Trump tem sugerido diferentes prazos para a guerra no Irã, blogueiros russos tanto pró quanto anti-Kremlin começaram a se referir ao plano de Trump como “Teerã em três dias”. Trata-se de uma referência a “Kiev em três dias”, a expressão irônica usada para descrever a arrogância do Kremlin ao acreditar que a Ucrânia colapsaria rapidamente.
Putin parecia acreditar que poderia repetir a rápida anexação da Crimeia em 2014, quando ignorou conselhos de seus próprios assessores. Trump vinha em alta neste ano depois de ordenar que seu Exército capturasse o ditador da Venezuela, Nicolás Maduro.
Claro, Trump ainda pode encerrar a guerra no Irã em breve e declarar vitória. No sábado (7), ele disse que o Irã estava “apanhando feio” e que considerava impor “destruição completa e morte certa” a outras áreas do país.
Mas Dmitro Kuleba, ministro das Relações Exteriores da Ucrânia na época da invasão russa, disse que, dado o alcance dos objetivos americanos, o governo Trump pode estar sofrendo do mesmo excesso de confiança que condenou o plano inicial de guerra da Rússia.
“Comentaristas americanos voltam a falar de uma ‘guerra curta’”, escreveu Kuleba nas redes sociais na sexta-feira (6). “Disseram a mesma coisa sobre a guerra da Rússia contra a Ucrânia. Ela só será curta se Washington discretamente reduzir seus objetivos, desistir da mudança de regime no Irã e vender um resultado muito menor como vitória.”
“Quebrar um país grande”, acrescentou ele, “é difícil até para os Estados Unidos.”




