A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã aumenta a pressão sobre a cadeia de remédios e insumos hospitalares , algo que já vinha acontecendo desde o tarifaço anunciado por Donald Trump no ano passado.
A preocupação se dá por fatores logísticos, segundo associações ouvidas pela Folha, uma vez que o Brasil é altamente dependente de insumos farmacêuticos oriundos da Ásia. Algo entre 85% e 95% dos IFAs (insumos farmacêuticos ativos, as substâncias que dão efeito aos remédios) são importados, dependendo de rotas no Oriente Médio. O Brasil produz ínfimos 5% dos IFAs de que precisa.
Há um temor, por parte do Ministério da Saúde, de que isso incorra em elevação de preços dos produtos de saúde, conforme exposto pelo ministro Alexandre Padilha em visita a uma fábrica de medicamentos em Valinhos, no interior de São Paulo, no último dia 3.
“Hoje, a indústria usa a Arábia Saudita como ponte aérea para o envio de IFAs, e a inviabilização desse hub obriga desvios pela Rússia, que também tem limitações pelo conflito com a Ucrânia, ou pelo Pacífico”, afirma Nelson Mussolini, presidente da Sindusfarma (Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos).
Ele diz que estudos internos estimam alta de 20% a 25% nos custos de logística, mas que eventuais prejuízos serão assumidos pela indústria. Isso porque os preços dos remédios são controlados pela Cmed (Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos).
Nelson Mussolini cita como outra preocupação o fato de que as seguradoras têm travado a emissão de seguros para rotas atingidas pelo conflito, fazendo com que eventuais perdas sejam assumidas pelo setor. O Irã ameaça navios pela região em retaliação aos rivais, por exemplo.
A preocupação logística também atinge os exportadores indianos, que com a China respondem por 70% dos IFAs usados no Brasil.
As empresas afirmam que Dubai, importante centro logístico global para o setor farmacêutico, especialmente para cargas de produtos refrigerados, foi duramente afetada. Exportações indianas passam pelo Aeroporto Internacional de Dubai com destino ao Golfo, à África, à Europa e às Américas. O Irã realizou ataques com drones aos Emirados Árabes após a morte do líder supremo Ali Khamenei.
“O que a gente já sabe é que o custo de logística aumentou, o tempo [também aumentou], o seguro ficou muito caro para todo mundo, então vai refletir para a gente também”, diz Norberto Prestes, presidente da Abiquifi (Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos).
Para ele, é cedo para afirmar que faltarão insumos. A entidade diz que aguarda manifestação das empresas do setor para estimar eventuais perdas.
FARMÁCIAS E LABORATÓRIOS DIZEM OPERAR NORMALMENTE
Fontes ligadas ao varejo afirmam ainda não sentir impacto pelo conflito. A Abafarma (Associação dos Distribuidores Farmacêuticos) diz que as operações estão normais. Redes de medicina diagnóstica, como Fleury e DMS, também relataram funcionamento normal de suas operações.
Embora o Ministério da Saúde não veja risco de desabastecimento de remédios e insumos, a dependência brasileira do mercado externo para o setor, considerado estratégico, é um incômodo, uma vez que torna o país refém de movimentos geopolíticos que possam afetar a cadeia global.
“Desde o ano passado, com o tarifaço imposto pelos Estados Unidos, a pasta reforçou as ações voltadas à soberania nacional na produção de insumos de saúde e diversificação da cadeia de fornecedores do SUS. Como resultados dessa política, o país voltou a produzir insulina depois de 20 anos e retomou a agenda de inovação e as Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDP) visando a transferência de tecnologia –neste governo, foram firmadas 31 novas parcerias com investimento de R$ 5 bilhões por ano na indústria da saúde”, diz o Ministério da Saúde em nota.
Em evento na USP (Universidade de São Paulo) também no dia 3 de março, o ministro Alexandre Padilha disse que o Brasil precisa produzir cada vez mais o que precisa e depender cada vez menos da cadeia produtiva global.




