Um mês após o ataque conjunto de Estados Unidos e Israel, a guerra no Irã se tornou um problema diplomático e doméstico para Washington. Em vez de uma vitória rápida como Donald Trump aparentava esperar, a escalada do conflito ameaça corroer a influência global americana e corre o risco de fazer desmoronar até a base eleitoral do republicano, afirmam especialistas ouvidos pela Folha.
A armadilha, segundo os analistas, tem nome: Binyamin Netanyahu. Para Daniel Rio Tinto, doutor em estudos internacionais e professor da FGV, a especulação na opinião pública americana é que o presidente foi “sugado” para a guerra pelo primeiro-ministro de Israel.
“Na literatura de ciência política temos um termo para isso que é muito difícil de traduzir, chamado ‘moral hazard’ [risco moral]; essa ideia de que seu aliado faz alguma coisa e você é obrigado a ajudá-lo, mesmo que não concorde diretamente”, explica. “Os EUA consideram que isso pode ser uma implicação da relação com Israel, porque é um aliado que não conseguem controlar completamente.”
Essa á uma possibilidade que tanto o israelense quanto o americano negam.
“Eu não enganei ninguém, e não tive que convencer o presidente Trump da necessidade de impedir que o Irã desenvolvesse seu programa nuclear, colocando ele debaixo da terra e possibilitando o lançamento de mísseis com ogivas nucleares nos EUA. Ele já entendia isso; ele me explicou, não eu para ele”, afirmou Netanyahu em entrevista coletiva recente. “Os EUA não lutam por Israel, mas com Israel.”
Ter sido impulsionado à guerra por Netanyahu traria a Trump o ônus político de contrariar sua promessa de campanha de não envolver os EUA em conflitos internacionais. E, como afirma Karabekir Akkoyunlu, professor de ciência política da UFMG, a insatisfação dos americanos é um fator central para a sobrevivência política de Trump.
“A resistência a novos envolvimentos militares no Oriente Médio cresce inclusive em setores da direita ligados ao movimento Maga, que temem que os EUA sejam arrastados para conflitos custosos”, diz, citando a sigla que se refere ao slogan “faça a América grandiosa novamente” e é usada para denominar a base mais leal ao presidente.
O resultado é uma guerra altamente impopular. Diferentemente do esmagador apoio doméstico dado a empreitadas militares após o ataque do Japão a Pearl Harbor e no início da chamada “guerra ao terror“, a atual ofensiva americana amarga uma aprovação que varia de apenas 27% a 50% nos EUA, de acordo com pesquisas da Reuters/Ipsos e Fox News.
Se a escalada exigir o envio de tropas americanas ao solo iraniano, como as movimentações militares até aqui indicam, o custo político pode ser ainda maior. “Isso seria uma derrota, no sentido de que Trump prometeu aos americanos que não se envolveriam em novas guerras. Ele estava conseguindo isso, fazendo com o que aconteceu na Venezuela passar como se não fosse guerra, mas uma operação especial”, diz Rio Tinto.
O que representa um desgaste para Washington funciona como um trunfo em Tel Aviv. Enquanto Trump enfrenta erosão de apoio, para Denilde Holzhacker, doutora em ciência política e diretora acadêmica de pesquisa da ESPM, a deflagração do conflito serviu como uma salvação política para Netanyahu, elevando sua popularidade e consolidando seu poder internamente, mesmo que em um momento delicado.
“Netanyahu conseguiu um apoio expressivo na opinião pública israelense para que o regime iraniano seja derrubado. Com essa força, conseguiu fazer uma ação no Líbano, afetando diretamente apoiadores do Irã“, afirma a especialista. “Israel, do ponto de vista militar, tem alcançado muito mais os seus objetivos do que se percebe no caso americano.”
Na prática, o Exército israelense aproveitou o fôlego político interno para intensificar sua ofensiva. Nas últimas semanas, o país fez ataques concentrados a líderes do alto escalão da Guarda Revolucionária do Irã, além de atacar diretamente a infraestrutura do grupo extremista Hezbollah em Beirute, ameaçando fazer com a cidade algo similar ao que fez na Faixa de Gaza.
Há ainda o peso das relações dos EUA enfraquecidas com países outrora aliados, principalmente da Europa, que tendem a buscar parceiros mais previsíveis, como pontua Gustavo Macedo, doutor em ciência política e professor de economia no Insper.
“Isso gera desconfiança e alimenta a percepção de declínio relativo do poder norte-americano. Como consequência, países passam a fortalecer relações regionais e a buscar novos parceiros —especialmente a China. Assim, enquanto os EUA ampliam sua presença militar, sua influência política tende a se enfraquecer.”
Para além da geopolítica, o risco econômico é imediato. Macedo alerta que a instabilidade no estreito de Hormuz pode gerar um efeito cascata na economia internacional, para além da alta de preços do petróleo.
“Estamos falando de uma região estratégica para a logística global. Qualquer instabilidade ali afeta não apenas o fluxo de petróleo, mas também outras cadeias produtivas e até a infraestrutura digital global. Isso gera efeitos em cascata na economia internacional”, afirma Macedo.
Diante do agravamento da guerra, as organizações multilaterais se mostraram estagnadas. Akkoyunlu destaca o que chama de “papel marginal” da ONU, agravado pela atuação de EUA e Israel que, segundo o professor, dá-se fora dos marcos do direito internacional. Rio Tinto acrescenta que as grandes organizações, além de subfinanciadas, carecem de vontade política, operando de “mãos amarradas”.




