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A China reagiu de maneira firme à morte do líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, na operação conjunta entre Estados Unidos e Israel. A guerra abre um processo de transição em Teerã e deverá impactar Pequim para além do esperado.
O vínculo sino-iraniano vai além da afinidade política: é sustentado por complementaridades econômicas difíceis de substituir no curto prazo.
O país asiático é o principal comprador do petróleo iraniano e um dos maiores parceiros comerciais de Teerã.
Em 2021, os dois países assinaram um acordo de cooperação de 25 anos que prevê investimentos chineses em energia e infraestrutura.
As compras de Pequim funcionaram como fonte crucial de receita para Teerã, que sofre sanções ocidentais, e concederam ao país comandado por Xi uma influência considerável nos acontecimentos do Golfo.
O Irã também é uma peça central na expansão da Iniciativa do Cinturão e Rota, além de ser um membro permanente dos Brics desde a expansão do grupo em 2023.
Em números: cerca de 70% do petróleo consumido pela China é importado, e pouco mais da metade desse volume vem do Golfo, passando pelo estreito de Hormuz.
Uma interrupção prolongada da região (como o Irã tenta forçar, atacando navios petroleiros que por lá passam desde sábado) pressionaria preços, cadeias industriais e planejamento econômico. Não por acaso, os posicionamentos chineses enfatizam estabilidade regional e diálogo.
No cálculo estratégico do regime que era comandado por Khamenei, a China oferecia mercado estável para seu petróleo, acesso a bens industriais e disposição para manter comércio apesar da pressão americana.
Talvez por isso, o Ministério das Relações Exteriores chinês rapidamente classificou o ataque americano-israelense como “grave violação da soberania e da segurança do Irã” e afirmou que a ação “pisoteia os propósitos e princípios da Carta da ONU”.
Ainda que surja no Irã uma liderança mais aberta ao Ocidente, é improvável que a dinâmica do relacionamento entre iranianos e chineses mude no curto prazo. Romper com Pequim implicaria abrir mão de uma âncora econômica em meio à transição.
Por que importa: a transição em Teerã testa até onde vai a influência chinesa no Oriente Médio. Ao condenar a mudança de regime e defender a soberania, Pequim reafirma princípios diplomáticos, mas seu objetivo central é proteger fluxos de energia e acordos estratégicos de longo prazo.
Caso atravesse a crise mantendo acesso ao petróleo iraniano e presença econômica no país, a China reforça sua imagem de parceiro resiliente. Se a escalada militar atingir o Golfo e as rotas marítimas, a vulnerabilidade energética chinesa, já impactada pelo sequestro de Maduro e interrupção dos fluxos de petróleo venezuelano, ficará ainda mais exposta.
o que também importa
★ Cientistas chineses usaram uma nova técnica de edição genética para corrigir uma mutação ligada a déficits cognitivos e comportamentais em camundongos. Após receberem uma injeção com os genes editados, os animais apresentaram melhora significativa na interação social. A equipe de Xangai busca aplicar a técnica no tratamento da síndrome de Snijders Blok-Campeau, condição rara associada a atraso no desenvolvimento para a qual ainda não existem terapias efetivas.
★ A rede social chinesa Weibo suspendeu a conta da humorista uigur Xiao Pa após piadas sobre casamento e maternidade, alegando que ela “estimulou conflitos de gênero” e gerou ansiedade sobre filhos. A medida, adotada durante o Ano Novo Lunar, faz parte de campanha da Administração do Ciberespaço da China contra conteúdos que “incitem emoções negativas”, como críticas ao matrimônio ou à natalidade. A decisão provocou reação dos usuários, que afirmam que a comediante apenas retratou pressões enfrentadas por mulheres no país.
★ A China registrou 30 milhões de entradas de estrangeiros sob regimes de isenção de visto em 2025, alta de 49,5% ante o ano anterior, segundo dados oficiais divulgados no sábado (28). O número inclui viajantes beneficiados por dispensa unilateral de até 30 dias (válida atualmente para 48 países) e por programas de trânsito de 144 e 240 horas. Pequim ampliou a lista de elegíveis e pontos de entrada e digitalizou o cartão de chegada. Companhias aéreas já reforçam rotas, apostando na retomada do turismo e das viagens de negócios.
fique de olho
A chinesa BYD registrou em fevereiro a maior queda mensal de vendas desde o auge da pandemia.
- Foram 190.190 veículos elétricos vendidos no mundo, recuo de 41,1% na comparação anual e sexta baixa consecutiva.
- No mercado doméstico, as vendas despencaram 65%, para 89.590 unidades, aprofundando a perda de fôlego da líder do setor.
A também chinesa Xiaomi informou entregas de pouco mais de 20 mil veículos elétricos no mês, abaixo das 39 mil unidades de janeiro e distante do pico de dezembro, quando superou 50 mil. Ela prepara a produção em massa da próxima geração do sedã SU7, seu principal modelo.
O desempenho fraco reflete em parte o calendário. O Ano Novo Lunar caiu integralmente em fevereiro e foi estendido para nove dias, afetando produção e demanda.
Ainda assim, no caso da BYD, a tendência negativa vai além do efeito sazonal: as vendas globais acumulam queda de 35,8% no primeiro bimestre, a pior marca para o período desde 2020.
A concorrência se intensificou. Em janeiro, a Geely a superou como maior montadora da China. Para reagir, a BYD e outras fabricantes, como Tesla e Nio, passaram a oferecer financiamentos de até sete anos com juros reduzidos.
A BYD tenta compensar a fraqueza doméstica com expansão internacional —as vendas externas somaram 100.600 unidades em fevereiro, alta de 50% em um ano.
Por que importa: o setor de elétricos virou um termômetro da economia chinesa e da competição tecnológica global. A desaceleração simultânea de líderes como BYD e Xiaomi, mesmo que parcialmente explicada pelo calendário, sugere margens sob pressão e guerra de preços mais profunda.
Se a demanda doméstica não reagir na primavera, a disputa tende a migrar com mais força para mercados externos, o que promete elevar tensões comerciais e consolidar o excesso de capacidade como novo capítulo da rivalidade industrial com EUA e Europa.
para ir a fundo
- Em uma iniciativa inédita, o governo de Pernambuco vai oferecer bolsas para estudos em Sichuan, na China. São elegíveis estudantes naturais do estado ou que concluíram o ensino médio, graduação ou pós em uma universidade pernambucana. Mais informações aqui.
- O Hotel Intercontinental em São Paulo recebe na próxima terça-feira (10) o evento “Tour Global das Marcas Chinesas”, em que marcas vão apresentar oportunidades de importação e exportação para empresários brasileiros. O evento acontece no Jardim Paulista e interessados podem emitir o ingresso gratuito aqui.
- O BRICS Policy Center, no Rio de Janeiro, recebe na segunda (9) a professora Karin Vazquez para discutir o processo de construção e transformação do Sul Global. O evento é gratuito e as inscrições podem ser feitas aqui.




