Quatro décadas atrás, Robert Fulghum, escritor e pastor americano, publicou um livro de grande sucesso intitulado “Tudo que Eu Devia Saber na Vida Aprendi no Jardim de Infância”. A obra argumentava que as lições de vida mais importantes poderiam e deveriam ser aprendidas na pré-escola, incluindo o importantíssimo ditado “limpe sua própria bagunça”.
Vale a pena refletir sobre isso novamente. Nos longos 14 meses desde que Donald Trump iniciou seu segundo mandato presidencial, sua atitude provocou um profundo choque cultural em antigos aliados. Ele não apenas adotou um estilo caprichoso e autoritário como também abraçou a geoeconomia para disputar poder hegemônico com a China (o que importa também no caso do Irã, dada a influência de Pequim por lá).
Mas há outro trejeito cultural menos discutido que também importa: Trump nem sequer finge que precisa limpar a bagunça que faz. As regras do jardim de infância não se aplicam.
Considere o Oriente Médio. Pouco antes da invasão do Iraque em 2003, o secretário de Estado americano Colin Powell alertou seu chefe, o presidente George W. Bush, com uma frase que ficou famosa: “quebrou, pagou”.
Essa ficou conhecida como “regra da loja de porcelanas” —significando que os Estados Unidos precisava arcar com as consequências de suas ações. E esse elevado ideal retórico foi ecoado por outras figuras militares, como William McRaven, ex-almirante da marinha americana, em seu livro de grande sucesso, “Make Your Bed”.
Mas Trump não é Powell nem McRaven. Na terça-feira (3), o primeiro-ministro alemão Friedrich Merz disse a ele que “precisamos conversar sobre… o que virá depois deste regime” —em outras palavras, as consequências de bombardear o Irã.
“Vamos ver o que acontece com o povo [do Irã]”, respondeu Trump. Superficial? Sim. Mas também revela uma mentalidade que pressupõe que será a população a responsável por qualquer futura bagunça política após a intervenção americana. O mesmo vale para a Venezuela.
Isso horroriza alguns. Mark Warner, o principal democrata no comitê de inteligência do Senado americano, reclama da falta de planejamento para uma “segunda fase”. E o bilionário dos Emirados Árabes Unidos, Khalaf Ahmad Al Habtoor, ousou perguntar se Trump sequer calculou os “danos colaterais” de uma guerra.
Mas isso vai além da geopolítica. Trump, por exemplo, ignorou a bagunça comercial causada por suas tarifas e os riscos financeiros de sua campanha para afrouxar a política monetária ou empurrar investidores do varejo para fundos de capital privado —justamente quando essa bolha está implodindo.
Um cínico poderia retrucar que Trump não é único. Ao longo da história, os impérios (incluindo o britânico do século 19) geralmente ignoraram os danos físicos e sociais que causam. E outros líderes americanos também desconsideraram as más consequências de suas políticas. Basta pensar no envolvimento dos Estados Unidos no Vietnã ou no abandono do padrão-ouro.
O que é tão chocante hoje para líderes na Europa e no Japão é que suas próprias culturas frequentemente mantêm admiração pelos ideais defendidos por Fulghum. Basta olhar para toda a reciclagem feita na Suíça ou na Suécia, ou a diligência com que japoneses comuns recolhem seu próprio lixo. Observe com que frequência líderes japoneses pedem desculpas por seus erros, ou alemães por transgressões cometidas durante a Segunda Guerra Mundial. Para muitos, parece vergonhoso fazer uma bagunça física ou moral. Não é assim na Casa Branca de hoje.
Por quê? O narcisismo pessoal de Trump é uma explicação. Mas como ex-discípula da antropologia, suspeito que ele cristalizou tendências culturais mais amplas também. Uma delas surge da geografia: enquanto os japoneses habitam uma ilha apertada e sabem que os recursos são limitados, os Estados Unidos são vastos. Quando as condições ficavam apertadas, os pioneiros eram encorajados a “ir para o oeste” —e escapar de qualquer bagunça.
Além disso, o alcance militar global dos Estados Unidos é tão extenso que a bagunça política que pode desencadear parece muito distante para a maioria dos eleitores. E dentro dos Estados Unidos, a crescente desigualdade de renda significa que as elites (incluindo as da Casa Branca) estão cada vez mais protegidas em espaços separados e privilegiados, cercadas por empregados que limpam tudo. Como F. Scott Fitzgerald observou, grande riqueza pode levar a descuido.
Depois há outra questão mais sutil: a disrupção. A antropóloga Mary Douglas certa vez observou que sujeira é essencialmente “matéria fora do lugar”. Em termos culturais, é algo que viola sistemas normais de classificação. Os japoneses detestam isso, pois reverenciam classificações rígidas para manter a harmonia.
Mas Trump se orgulha de destruir o status quo. Então, enquanto Powell tinha sua regra da porcelana, o lema de Trump poderia ser mais assim: “Não se pode fazer uma omelete sem quebrar ovos, e as cascas são problema de outra pessoa”.
Portanto, lembre-se disso enquanto a bagunça do Irã continua se espalhando, criando instabilidade em todo o Oriente Médio, problemas energéticos na Ásia e na Europa e um potencial conflito interétnico entre curdos e outros povos. Sim, isso parece moralmente deplorável para muitos não americanos e alarmante para investidores. Mas a bagunça é uma característica, não um defeito, do mundo de Trump —e não será facilmente arrumada.




