O grupo armado libanês Hezbollah está cada vez mais isolado após arrastar o país para uma guerra impopular com Israel, com a reação negativa se estendendo à comunidade xiita em meio a tensões sectárias crescentes.
O grupo xiita apoiado pelo Irã disparou foguetes e drones contra Israel no domingo (8), desencadeando uma ofensiva israelense que até agora matou 634 pessoas no Líbano e deslocou mais de 800 mil.
Embora o Hezbollah mantenha uma base forte, a guerra irritou pessoas em todo o país, que ainda se recupera da devastação do último conflito em grande escala com Israel em 2024. Muitos críticos veem o Hezbollah como lutando uma guerra em nome do Irã, e não do Líbano.
A decisão do Hezbollah de entrar no conflito gerou ressentimento em relação à comunidade xiita mais ampla, além de seus seguidores mais fervorosos, muitos dos quais não apoiam a milícia.
Até mesmo seu principal aliado político, o movimento xiita Amal, se opôs ao envolvimento na guerra e votou a favor de uma proibição das atividades militares do Hezbollah na semana passada —a medida mais agressiva do Estado libanês contra a milícia até aqui, embora seja difícil de implementar.
“O clima sectário geral, exceto entre os xiitas, é muito anti-Hezbollah”, disse Imad Salamey, cientista político da Universidade Libanesa Americana, acrescentando que alguns xiitas também eram contra a guerra.
Salamey disse que havia crescentes apelos por uma ação estatal mais forte para desarmar o grupo, mesmo que isso significasse confronto direto —algo que o Líbano tem se esforçado para evitar.
Um funcionário do poderoso partido cristão de direita Forças Libanesas disse que o Hezbollah e o Irã “juntos arrastaram o país para uma guerra que ninguém quer ou entende o propósito”.
A ofensiva de Israel forçou centenas de milhares de pessoas —muitas delas xiitas— a se refugiarem em áreas majoritariamente não xiitas, alimentando temores de que a raiva em relação ao Hezbollah possa se manifestar contra os deslocados.
O Líbano tem um histórico amargo de guerra civil, com divisões sectárias enraizadas em seu sistema político.
“Essa tensão agora está crescendo”, disse Salamey. “Se este conflito se prolongar e as comunidades deslocadas continuarem a exercer pressão sobre as comunidades anfitriãs que são principalmente sunitas, cristãs ou drusas, a situação pode em breve sair do controle.”
O movimento Amal, aliado do Hezbollah, vinha pressionando o grupo a não entrar na guerra, segundo três pessoas familiarizadas com o assunto.
Seu líder, Nabih Berri, havia recebido garantias contínuas do Hezbollah de que não envolveria o Líbano nos combates até um dia antes do disparo dos primeiros foguetes, e Berri foi pego de surpresa pelo ataque, disseram essas pessoas ouvidas pelo Financial Times. Mas elas minimizaram qualquer ruptura mais ampla.
Michael Young, do Carnegie Center em Beirute, disse que o apoio do Amal à proibição das atividades militares do Hezbollah apontava para um maior isolamento. “Mas não vamos superestimar as coisas. Berri não vai romper com o Hezbollah, ele não tem interesse em criar uma cisão dentro da comunidade xiita.”
O governo também aumentou suas críticas ao Hezbollah enquanto Israel o pressiona a fazer mais para desarmar o grupo.
O embaixador de Israel na ONU pediu na quarta-feira que o governo libanês “mobilize seu exército e enfrente a ameaça terrorista que o Hezbollah representa”.
Na segunda-feira, o presidente Joseph Aoun, cristão maronita, acusou aqueles que lançaram os mísseis —uma referência ao Hezbollah— de buscar destruir o Estado libanês. A reação negativa aprofundou as divisões sectárias.
“Os xiitas estão passando por seus momentos mais difíceis desde que [Israel] foi criado”, disse Nassib Huteit, um acadêmico próximo ao Hezbollah. “Eles estão travando uma guerra existencial, porque não há grupo que não os tenha traído: os israelenses, os extremistas [sunitas] e a maioria dos libaneses.”
Ele disse que pessoas deslocadas foram mortas em suas casas por ataques israelenses após retornarem devido a rejeições humilhantes por parte das comunidades anfitriãs.
Embora muitos xiitas tenham expressado exaustão, o Hezbollah ainda pode contar com profundas reservas de apoio, com muitos de seus seguidores endurecendo sua posição nos últimos dois anos.
Também há pouca fé no Estado libanês, que foi incapaz de impedir os ataques israelenses que continuaram apesar do cessar-fogo mediado pelos EUA que encerrou o último conflito em 2024. O Líbano tem lutado para iniciar a reconstrução.
Em um abrigo para deslocados em Beirute, um homem idoso chamado Hussein Mousa explicou como ele achava que os apoiadores do Hezbollah eram mal compreendidos: “Dizem que somos uma base tola e louca, mas somos apoiadores da resistência. E a resistência precisa pagar, sacrificar.”




