Crimes contra defensores ambientais continuam amplamente impunes na América Latina. Dez anos após o assassinato da líder indígena hondurenha Berta Cáceres, a justiça no caso permanece incompleta: os executores foram condenados, mas os mandantes do crime seguem sem responder plenamente pelo crime.
Cáceres foi assassinada em 3 de março de 2016, em sua casa na cidade de La Esperanza, em Honduras. Fundadora do Conselho Cívico de Organizações Populares e Indígenas (COPINH), dedicou grande parte de sua vida à defesa dos direitos do povo lenca e à proteção de seus territórios. Sua principal batalha era contra a construção da hidrelétrica Agua Zarca, um projeto que ameaçava o rio Gualcarque, considerado sagrado pelas comunidades indígenas da região.
Filha de uma parteira e ativista social, Berta Cáceres cresceu em um ambiente marcado pela mobilização política e pela defesa dos direitos humanos. Ainda jovem, envolveu-se em movimentos comunitários e, nos anos 1990, ajudou a fundar o COPINH, que passou a denunciar projetos extrativistas e hidrelétricos que avançavam sobre territórios indígenas sem consulta às comunidades.
Sua atuação rapidamente ultrapassou as fronteiras de Honduras. Em 2015, recebeu o Goldman Environmental Prize, um dos principais reconhecimentos internacionais para defensores do meio ambiente. Ao recebê-lo, alertou para a crescente criminalização e violência contra ativistas ambientais na América Latina.
Mesmo com o reconhecimento internacional, as ameaças contra ela se intensificaram. Cáceres denunciava perseguições constantes e expunha o risco que corria. Investigações posteriores mostraram que o assassinato contou com a participação de militares e de funcionários ligados à empresa responsável pelo projeto hidrelétrico. Vários executores foram condenados, mas organizações de direitos humanos afirmam que a cadeia completa de responsabilidades ainda não foi esclarecida.
Segundo a Anistia Internacional, a família da ativista e o COPINH encontraram apenas “uma justiça pela metade”. Um relatório do Grupo Interdisciplinario de Expertos Independientes (GIEI), criado com apoio da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, concluiu que o assassinato era previsível e poderia ter sido evitado, além de apontar falhas graves na investigação que continuam dificultando a identificação dos responsáveis intelectuais.
O caso expôs um problema estrutural. Honduras continua um dos lugares mais perigosos do mundo para defensores ambientais. Dados da Global Witness mostram que a violência contra ativistas que defendem rios, florestas e territórios indígenas permanece elevada.
Dez anos depois, a morte de Berta Cáceres continua a expor uma realidade incômoda: na América Latina, a defesa do meio ambiente ainda pode custar a vida —e a justiça raramente alcança todos os responsáveis.
No Brasil, o assassinato do jornalista britânico Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira, em 2022, segue um padrão semelhante. Os executores foram presos, mas as estruturas que alimentam a violência —redes ilegais e máfias de garimpo, da pesca e da exploração de recursos naturais— continuam amplamente impunes. Como no caso de Cáceres, a punição termina muitas vezes nos elos mais fracos da cadeia.




