A Hungria decide neste domingo (12) se a era Viktor Orbán chegou ao fim. Ponta de lança do movimento reacionário internacional, “cara magnífico” para Donald Trump, anfitrião de embaixada de Jair Bolsonaro, que se diz “à disposição” de Vladimir Putin e, por isso mesmo, persona non grata em boa parte da Europa, o premiê testa também os limites de sua “democracia iliberal”.
Há 16 anos no poder, Orbán, 62, patrocinou uma série de mudanças institucionais no país para se aferrar ao cargo. Dentre elas, uma reforma eleitoral que dificulta a transição de poder. Líder das pesquisas de intenção de voto, Péter Magyar, 45, precisa de uma vantagem de 3 a 6 pontos percentuais para vencer o pleito, segundo especialistas.
E talvez não seja suficiente apenas vencer. Se não alcançar dois terços das 199 cadeiras do Parlamento, o Tisza, partido fundado por Magyar em 2020, terá grandes dificuldades para impor reformas, já que o Judiciário instrumentalizado por Orbán será um obstáculo.
De acordo com os últimos levantamentos, a sigla do advogado e eurodeputado tem cerca de 10 pontos percentuais de vantagem sobre o Fidesz, do incumbente. A estatística, porém, precisa sobreviver ao voto não obrigatório e a pelo menos um quinto de eleitores que se dizem indecisos.
Na noite de sexta-feira (10), um concerto com mais de 50 artistas e dezenas de milhares de pessoas foi organizado justamente para estimular a participação no pleito. Batizado de “Demolição do Sistema”, o evento foi idealizado por Robert Puzser, um intelectual crítico de Orbán e do Fidesz, o partido que virou modelo para a ultradireita global.
Da Casa Branca ao Kremlin, pipocaram palavras de apoio, postagens em caixa alta e interferências, assumidas ou não. O vice de Trump, J. D.Vance, antes de ir negociar o cessar-fogo com o Irã em Islamabad, passou dois dias da semana passada em visita oficial a Budapeste.
O americano falou que amava Orbán, que Trump também o amava e que os “burocratas de Bruxelas” estavam interferindo na eleição. Vance, no ano passado, já tinha declarado que a União Europeia censurava a liberdade de expressão das forças conservadoras do continente, opinião que revoltou os líderes do bloco, mas acabou reproduzida até na última edição da Estratégia de Segurança Nacional dos EUA.
Moscou concordou com o diagnóstico, dizendo que “forças de Bruxelas” trabalhavam para impedir a reeleição de Orbán. Dmitri Peskov, porta-voz do Kremlin, em conversa com jornalistas, tentava tirar do foco uma série de denúncias das últimas semanas que escancaram a proximidade estratégica ou, como percebida, promíscua entre os dois países.
Manter a discussão eleitoral fora de Budapeste está no cerne da campanha do primeiro-ministro. Em casa, o principal problema para a população é o governo, de acordo com pesquisa Gallup realizada no ano passado. Corrupção e um setor de habitação com dificuldades, entre outros temas, contrastam com a ascensão de oligarcas ligados a Orbán e a ostentação de propriedades de luxo.
Nos cartazes de rua dos partidos governistas, Ursula von der Leyen e Volodimir Zelenski aparecem ao lado de Magyar sob uma tarja vermelha em que se lê “perigosos”. Pela tese, a Comissão Europeia e a Ucrânia ameaçam a segurança energética da Hungria, dependente do gás russo —o uso do produto será completamente descartado pelo bloco a partir de 2027.
A narrativa omite que a dependência também seria fruto da proximidade de Orbán com empresários do setor, de acordo com reportagens investigativas.
Magyar, ex-integrante do Fidesz e ex-marido de uma ministra da Justiça de Orbán, fez o caminho contrário. Sua posição pró-Europa e pró-Otan é clara, mas Ucrânia, guerra e gás russo são assuntos para outra hora. Sua bandeira é a anticorrupção e o desmonte do legado autocrático da era Orbán.
Fluente nas redes sociais, o candidato mal fala com a imprensa do país que, segundo a organização Repórteres Sem Fronteiras, tem 80% de seus veículos comprometidos com Orbán ou aliados. “Ele não cometeu os vários erros que nós cometemos”, declarou recentemente à imprensa europeia Péter Márki-Zay, líder do bloco de oposição unificado que naufragou na tentativa de tirar Orbán do poder nas últimas eleições, em 2022.
Para Márki-Zay, hoje prefeito de uma cidade do interior, os húngaros já perceberam que a situação do país é culpa de Orbán. E Magyar “não tem medo de ser populista”.
A comunicação centralizada tem evitado até aqui traições partidárias, comuns no cenário político local, e deixado pouca margem para manipulação e produção de conteúdo falsificado.
Nessa frente, Orbán tem contado desde o ano passado com a ajuda de serviços de inteligência russos, sombra frequente em processos eleitorais europeus. Campanhas virais e canais de notícia falsos, montados com inteligência artificial, têm espalhado da narrativa oficial da campanha a boatos como a volta do serviço militar obrigatório.
Também é disseminada a ideia de que os levantamentos de intenção de votos não trazem o quadro real e serão usados para desqualificar uma subsequente vitória de Orbán.
A participação russa, negada pelo Kremlin, preocupa a comissão do Parlamento Europeu que monitora o Estado de direito na Hungria. Em carta enviada a Von der Leyen, eurodeputados disseram temer que a interferência possa minar a credibilidade da eleição.
Ou, em possibilidade mais drástica, gerar eventos que justifiquem o governo de turno decretar estado de emergência e suspender o pleito.
Qualquer semelhança com acontecimentos dos últimos anos em países que rejeitaram aliados de Orbán não parece mera coincidência.




