Ideia de martírio de Khamenei facilita ascensão do filho – 10/03/2026 – Mundo

177315620569b0376d66402_1773156205_3x2_rt.jpg


A maneira como o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, foi morto pelos Estados Unidos e Israel —trabalhando em seu escritório com familiares presentes— evocou para Mikaeel Dayani uma das histórias centrais do islamismo xiita: o martírio do imã Hussein, o terceiro imã e neto do profeta Maomé.

Dayani, um fervoroso apoiador do sistema teocrático iraniano, tem levado repetidamente sua esposa e filhos às principais praças de Teerã durante as noites desde então. Ele se juntou a milhares de pessoas em luto pela morte de Khamenei, o líder xiita mais proeminente e de mais longo reinado do mundo, que foi sucedido nesta semana por seu filho Mojtaba.

“O martírio do nosso líder nos lembra de Ashura”, disse Dayani, referindo-se à comemoração anual da morte de Hussein. “O sangue do nosso líder nos torna mais determinados a continuar seu caminho, assim como o sangue do imã Hussein, que garantiu o islã. Não temos medo.”

Essa tradição remonta à morte de Hussein em 680 d.C. em Karbala, atual Iraque, onde ele, sua família e um pequeno grupo de seguidores foram cercados e mortos pelas forças do governante omíada Yazid após se recusarem a jurar lealdade, cristalizando a divisão no islã entre a maioria sunita e a minoria xiita.

A história de Karbala tornou-se uma narrativa moral definidora do pensamento político xiita, mais recentemente incorporada à ideologia da revolução islâmica de 1979: a crença de que os muçulmanos devem estar prontos para sacrificar suas vidas para resistir à injustiça, neste caso a tirania percebida dos EUA e seus aliados.

A morte de Khamenei e as comparações com a de Hussein alimentaram ainda mais essa perspectiva, enquanto os legalistas do regime buscam endeusar o líder supremo e moldar o legado de um homem detestado por muitos em seu próprio país por supervisionar quatro décadas de regime autoritário.

Enquanto muitos na região culpavam Khamenei por espalhar o sectarismo e desestabilizar seus países, também houve explosões de raiva do Líbano ao Iraque, do Bahrein ao Paquistão, onde profundas queixas contra as elites governantes e a guerra de Israel em Gaza se fundiram para intensificar o senso de injustiça. Isso galvaniza grupos políticos e armados xiitas na região a aproveitar o momento para suas próprias agendas.

A morte de Khamenei por EUA e Israel “desperta uma raiva em certas comunidades xiitas que supera as nuances geopolíticas do momento, apesar da oposição que alguns tinham às posições políticas e teológicas do Irã”, disse Noor Zaidi, professora de história do Oriente Médio e islamismo xiita na Universidade de Maryland, condado de Baltimore.

Embora o papel de Khamenei como a mais alta autoridade religiosa fosse frequentemente contestado —a maioria dos xiitas no mundo prefere seguir clérigos menos politizados— ele era, no entanto, popular em partes do mundo muçulmano por enfrentar Israel e EUA.

No Paquistão, lar da segunda maior população xiita do mundo com aproximadamente 40 milhões de pessoas, a morte de Khamenei desencadeou dias de luto e agitação. Manifestações eclodiram por todo o país logo após Teerã confirmar o ataque.

Em um protesto em Karachi, grandes grupos de mulheres vestindo chador preto (vestimenta que cobre o corpo todo, deixando o rosto exposto) marcharam pelas ruas carregando retratos do falecido aiatolá e entoando: “Eu respondo ao seu chamado, Khamenei” —um slogan derivado do antigo grito de devoção ao imã Hussein.

“Pessoas de todas as seitas acreditam que seus governantes muçulmanos eram covardes, corruptos ou fracos demais para enfrentar os EUA e Israel”, disse Mushahid Hussain, ex-senador paquistanês que se encontrou com o falecido aiatolá várias vezes. “Khamenei era a exceção.”

No Iraque e no Líbano, houve emoções mistas pela morte de Khamenei entre os xiitas desses países, muitos dos quais não se identificam com o regime de Teerã; no Líbano, culpam seu regime e o Hezbollah por repetidamente arrastar o país para a guerra.

O establishment clerical xiita iraquiano em Najaf, que tem muito mais seguidores ao redor do mundo do que Khamenei tinha, há muito se opõe à doutrina da República Islâmica de fundir liderança política e religiosa.

No entanto, lamentou cuidadosamente a morte de Khamenei, abalado pelo assassinato de um clérigo. Apoiadores de grupos armados xiitas iraquianos estreitamente ligados ao Irã organizaram procissões e protestos violentos, chegando a tentar invadir a embaixada americana em Bagdá e usando a morte de Khamenei como justificativa para entrar no conflito, lançando ondas de ataques a bases americanas e missões diplomáticas.

No Líbano, o grupo xiita Hezbollah atacou Israel após a morte de Khamenei, chamando-a de “linha vermelha” significativa demais para não arrastá-los a um conflito que pode significar seu fim.

Em um comício nos subúrbios ao sul de Beirute, milhares de apoiadores agitaram bandeiras do Hezbollah, bandeiras iranianas e bandeiras vermelhas simbolizando vingança. “Por mais de 1.400 anos não nos rendemos”, disse uma mulher à televisão local. “E hoje, não nos renderemos, se Deus quiser.”

O Hezbollah e várias facções armadas iraquianas proeminentes parabenizaram Mojtaba por sua nomeação como líder supremo na segunda-feira, elogiando sua seleção como uma continuação do caminho ideológico que seu pai estabeleceu.

No Irã, apoiadores como Dayani têm se reunido repetidamente desde a morte de Khamenei para agitar bandeiras iranianas, entoar cânticos e percorrer as ruas em motocicletas carregando armas, buscando projetar força não apenas diante dos ataques americanos e israelenses, mas no rescaldo dos protestos contra o regime em janeiro. Apoiadores de Mojtaba também foram às ruas para celebrar sua seleção como líder supremo, com grandes reuniões nas principais praças do Irã.

Mas muitos no país, cada vez mais secular e onde os jovens são menos observantes das orações diárias, jejum ou tradições religiosas, desprezavam Khamenei e até celebraram sua morte, culpando sua ideologia e resistência a reformas pelo aumento da pobreza e por colocar o Irã no caminho da guerra.

Outros no mundo árabe também celebraram, principalmente sírios que o detestavam por apoiar o brutal regime de Bashar al-Assad.

Um analista xiita em Teerã disse que não esperava que a morte de Khamenei desencadeasse um aumento da religiosidade no Irã, mas acrescentou que, no entanto, ela serviria para “fortalecer a determinação” da base do regime de lutar por sua sobrevivência.

Imagens da bisneta de Khamenei, Zahra, de 14 meses, que foi morta no ataque junto com vários familiares, circularam amplamente nas redes sociais, reforçando paralelos com Karbala, onde o filho bebê de Hussein foi perfurado por uma flecha.

O fato de ele ter sido morto pelos arqui-inimigos do regime em seu escritório em um dia de trabalho também alimentou especulações de que o clérigo de 86 anos havia conscientemente escolhido um fim como mártir, com enlutados invocando o ditado de Hussein de que “a morte com dignidade é melhor do que uma vida de humilhação”. “Esse elemento de escolha é o que solidificaria seu status como mártir”, disse Zaidi.

Um parente do líder supremo, falando ao Financial Times, rejeitou a ideia de que ele havia deliberadamente arriscado sua vida, no entanto. “Isso teria sido religiosamente ilegítimo, um pecado”, disse ele.

Mas, argumentou o parente, porque ele morreu servindo a Deus e liderando a República Islâmica, o status de Khamenei é claro.

“Ele é indubitavelmente um mártir”, argumentou o parente. “E como ele era tanto o mais alto funcionário político quanto a mais alta autoridade religiosa, ele é Seyed-ul-Shohada”, o mestre dos mártires, como o próprio imã Hussein.



Source link

Leia Mais

Trump: Guerra no Irã vai acabar quando eu quiser que

Trump: Guerra no Irã vai acabar quando eu quiser que acabe – 11/03/2026 – Mundo

março 11, 2026

177323951469b17cdaa1a89_1773239514_3x2_rt.jpg

Flávio diz que Lula foi pequeno ao cancelar ida ao Chile – 11/03/2026 – Política

março 11, 2026

naom_6229c3d10089c.webp.webp

Petróleo chega a subir mais de 5% após registrar maior queda em quatro anos com temores sobre guerra

março 11, 2026

Vendas no comércio crescem 0,4% em janeiro e igualam patamar

Vendas no comércio crescem 0,4% em janeiro e igualam patamar recorde

março 11, 2026

Veja também

Trump: Guerra no Irã vai acabar quando eu quiser que

Trump: Guerra no Irã vai acabar quando eu quiser que acabe – 11/03/2026 – Mundo

março 11, 2026

177323951469b17cdaa1a89_1773239514_3x2_rt.jpg

Flávio diz que Lula foi pequeno ao cancelar ida ao Chile – 11/03/2026 – Política

março 11, 2026

naom_6229c3d10089c.webp.webp

Petróleo chega a subir mais de 5% após registrar maior queda em quatro anos com temores sobre guerra

março 11, 2026

Vendas no comércio crescem 0,4% em janeiro e igualam patamar

Vendas no comércio crescem 0,4% em janeiro e igualam patamar recorde

março 11, 2026