Interesse de Trump na Groenlândia contradiz negacionismo – 22/02/2026 – Ambiente

Interesse de Trump na Groenlândia contradiz negacionismo - 22/02/2026 -


As ações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para assumir controle da Groenlândia e interferir na Venezuela contradizem seu discurso de que as mudanças climáticas são falsas.

Ao mesmo tempo em que chama o aquecimento global de “o maior golpe feito no mundo”, Trump tem dado passos geopolíticos que, segundo especialistas ouvidos pela Folha, só fazem sentido em um mundo mais quente.

A obsessão do presidente americano com a Groenlândia é o exemplo mais recente.

Com o degelo acelerado do Ártico, a região tem virado alvo de uma espécie de “corrida do ouro” moderna. “Trump entende que pode estar acontecendo essa história de derretimento de gelo porque todo mundo quer alguma coisa [na região], e ele tem essa postura de querer ser sempre o primeiro da corrida”, diz Karina Spohr, professora da London School of Economics and Political Science e especialista em política ártica.

As rotas marítimas da região estão se tornando mais navegáveis, e a Rússia, principal potência ártica, vem realizando investimentos no mar do Norte. O governo de Vladimir Putin anunciou neste mês que irá entregar dez novos navios quebradores de gelo e 46 barcos de resgate marítimo até 2035.

“Não é que, de repente, a rota da passagem marítima do Norte vai virar o canal do Panamá. Vai continuar tendo gelo, vai continuar tendo problema, vai continuar sendo um lugar relativamente difícil”, afirma Claudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima.

Apesar disso, o degelo tem alimentado esperanças de ampliação das rotas comerciais —e não só para os países árticos como a Rússia. A China se declarou um Estado “quase-ártico” em 2018, explica Spohr.

O país tem planos para o que chamou de “Rota Polar da Seda” e vem trabalhando em parceria com a Rússia. De acordo com um relatório do CSIS (Center for Strategic and International Studies) de 2023, o gigante empresarial estatal China Poly Group tem atuado no norte russo.

Os chineses investiram US$ 300 milhões (R$ 1,55 bilhão) em um terminal de carvão em Murmansk e se comprometeram a construir um porto de águas profundas em Arkhangelsk.

A Groenlândia, especificamente, é considerada uma possível grande fornecedora de terras raras. Atualmente, a reserva do território autônomo da Dinamarca é classificada como a oitava maior do mundo. Estima-se, porém, que possa haver mais desses elementos químicos de difícil extração e alta utilidade para indústrias como a de tecnologia e a de carros elétricos.

No momento, apenas uma pequena parte dessas terras raras são passíveis de exploração, mas há expectativa de que ela se torne mais fácil com as mudanças climáticas. Há, contudo, um certo aspecto mitológico na ideia de que o aquecimento global vai expor as riquezas do Ártico, pondera Angelo.

“O degelo na Groenlândia acontece nas terminações das geleiras, que são as pontas que estão em contato com o oceano, porque o mar esquenta e derrete o gelo mais rápido. O meio do manto de gelo da Groenlândia continua escondendo todas as reservas minerais que estão lá”, explica. “Dito isso, o fato de ter menos cobertura de neve no inverno torna as operações de fato mais simples, com toda a logística facilitada.”

Garantir para os Estados Unidos uma grande quantidade de terras raras faria sentido economicamente, já que a principal detentora de reservas no mundo é a China.

Outro motivo alegado por Trump para querer a posse do território dinamarquês é a segurança. Apesar de os Estados Unidos terem direito a condições especiais para presença militar na Groenlândia desde 1951, o presidente americano vem dizendo que só a posse do local pode garantir tranquilidade aos EUA.

Essa afirmação só faz sentido se as mudanças climáticas estiverem acontecendo. Com o degelo e a ampliação da navegação na passagem marítima do Norte, a presença militar na região fica facilitada. Isso beneficia principalmente os russos, que têm a maior fronteira do mundo.

Os especialistas acreditam que há motivos legítimos de preocupação militar. “Faz sentido a Otan se preocupar com essa região, mas também é verdade que o Ártico passou 40 anos abandonado depois do final da Guerra Fria”, afirma Angelo.

No entanto, outras ações de Trump no Ártico não têm mantido a coerência com o discurso usado na Groenlândia.

“Trump diz ‘ah, eu não quero Rússia e China na minha vizinhança’. Eles definitivamente estão na vizinhança no estreito de Bering [passagem marítima que liga os EUA à Rússia]”, destaca Spohr. “E o Alasca, nesse sentido, está muito mal defendido. Se os EUA estivessem realmente preocupados com a estratégia, seriam muito mais ativos ali.”

A captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro, em janeiro de 2026, teve entre seus objetivos declarados o de permitir a exploração do petróleo local pelos EUA. Embora a fixação de Trump com combustíveis fósseis possa parecer, à primeira vista, uma manifestação clássica de negacionismo, há quem veja diferente.

Ao ampliar a oferta de petróleo no mercado e, portanto, baratear o produto, Trump mantém a indústria americana competitiva frente às alternativas mais sustentáveis.

“Eu acho que os EUA querem quebrar a competição com a China vendendo e impondo ao máximo de países que conseguirem uma tecnologia ultrapassada”, diz Claudio Angelo. “Isso em si já é outra admissão de que existe mudança climática“, afirma.



Fonte CNN BRASIL

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