O Irã afirmou nesta segunda-feira (12), um dia após o presidente Donald Trump dizer que avalia respostas à violenta repressão aos protestos no país, que mantém o diálogo aberto com os Estados Unidos. A mais recente onda de manifestações representa um dos maiores desafios ao regime teocrático desde a Revolução Islâmica de 1979.
No domingo (11), o republicano afirmou que os EUA podem se reunir com autoridades iranianas e que está em contato com a oposição. Ao mesmo tempo, porém, aumentou a pressão sobre os líderes da República Islâmica, inclusive ameaçando com uma possível ação militar em resposta à violência contra os manifestantes.
O Irã já enfrentou protestos em massa nas últimas décadas, mas, desta vez, os atos estão por todo o país e ocorrem em um momento delicado. A Rússia, uma importante parceira, está em guerra na Ucrânia há quase quatro anos e aliados do regime na região sofreram derrotas nos últimos meses —o ex-ditador Bashar al-Assad caiu na Síria, e o Hezbollah, no Líbano, enfrentou perdas em guerra com Israel.
“O canal de comunicação entre nosso Ministro das Relações Exteriores, Abbas Araqchi, e o enviado especial dos EUA [Steve Witkoff] está aberto e mensagens são trocadas sempre que necessário”, disse o porta-voz da chancelaria iraniana, Esmaeil Baghaei, nesta segunda. Os contatos também permanecem abertos por meio da Suíça, mediadora tradicional, afirmou ele.
“Eles [os EUA] abordaram alguns casos, ideias foram levantadas e, em geral, (…) a República Islâmica é um país que nunca abandonou a mesa de negociações”, continuou, acrescentando que as “mensagens contraditórias” de Washington demonstram falta de seriedade e não são convincentes.
Araqchi reiterou, em uma reunião com embaixadores estrangeiros em Teerã, que a República Islâmica está preparada para a guerra, mas também aberta ao diálogo.
Enquanto isso, a repressão já matou mais de 500 pessoas desde o dia 28 de dezembro, segundo o grupo de direitos humanos HRANA, com sede nos EUA. A ONG disse ter verificado a morte de 490 manifestantes e 48 membros das forças de segurança, com mais de 10.600 pessoas presas desde o início dos protestos em 28 de dezembro.
O Irã não divulgou um número oficial de mortos, e a agência de notícias Reuters não conseguiu verificar os dados de forma independente. O fluxo de informações do Irã está prejudicado por um bloqueio da internet desde quinta-feira (8).
Também no domingo, Trump afirmou que o Irã havia feito um convite para negociar seu programa nuclear. “O Irã quer negociar, sim. Podemos nos encontrar com eles. Uma reunião está sendo organizada, mas talvez tenhamos que agir devido ao que está acontecendo antes da reunião, mas uma reunião está sendo organizada. O Irã ligou, eles querem negociar”, disse ele a jornalistas a bordo do Air Force One.
Israel e os EUA bombardearam instalações nucleares iranianas em uma guerra de 12 dias em junho.
Trump se reuniria com assessores de alto escalão nesta terça (13) para discutir opções para o Irã, disse um funcionário americano à Reuters. O jornal americano The Wall Street Journal noticiou que as opções incluíam ataques militares, uso de armas cibernéticas secretas, ampliação das sanções e fornecimento de ajuda online a fontes antigovernamentais.
Atacar instalações militares, no entanto, poderia ser extremamente arriscado. Algumas bases de forças militares e de segurança de elite podem estar localizadas em áreas densamente povoadas, com risco de grandes baixas civis.
O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Baqer Qalibaf, alertou Washington contra “um erro de cálculo”. “Sejamos claros: em caso de ataque ao Irã, os territórios ocupados [Israel], bem como todas as bases e navios dos EUA, serão nossos alvos legítimos”, disse Qalibaf, ex-comandante da Guarda Revolucionária de elite do Irã.
Ele afirmou ainda, nesta segunda, que o país está travando uma “guerra contra os terroristas”, durante um discurso em um grande comício pró-governo em Teerã. “A grande nação iraniana jamais permitiu que o inimigo atingisse seus objetivos”, disse, prometendo que as forças armadas iranianas dariam a Trump “uma lição inesquecível” caso ele ordenasse outro ataque contra a República Islâmica.
As autoridades iranianas acusam EUA e Israel de fomentarem instabilidade interna e convocaram uma manifestação nacional nesta segunda, segundo a mídia estatal.
A TV estatal transmitiu ao vivo imagens de manifestações pró-governo em cidades como Kerman, Zahedan e Birjand, realizadas “em condenação aos recentes atos terroristas”. Foram transmitidas ainda imagens de grandes multidões participando de um cortejo fúnebre para membros das forças de segurança mortos em Shahrud.
Araqchi afirma que a situação no Irã está “sob controle total” após o aumento da violência ligada aos protestos durante o fim de semana. Ele disse que a advertência de Trump contra Teerã, de que tomaria medidas caso os protestos se tornassem violentos, motivou o que ele chamou de terroristas a atacar manifestantes e forças de segurança a fim de provocar uma intervenção estrangeira.
As autoridades declararam no domingo três dias de luto nacional “em homenagem aos mártires mortos na resistência contra os EUA e o regime sionista”, segundo a mídia estatal.
Os protestos começaram em resposta à alta dos preços, mas logo se voltaram contra os governantes religiosos que estão no poder há mais de 45 anos. Os iranianos estão cada vez mais ressentidos com a poderosa Guarda Revolucionária, cujos interesses comerciais, incluindo petróleo e gás, construção civil e telecomunicações, valem bilhões de dólares.




