Irã: guerra vai gerar efeito rebote sobre geração rebelde – 15/03/2026 – Mundo

177343400969b47499c47d0_1773434009_3x2_xl.jpg


A guerra travada por Estados Unidos e Israel contra o Irã pode levar ao efeito político oposto ao pretendido pelo presidente americano, Donald Trump, segundo a socióloga iraniana Valentine Moghadam. A professora da Universidade Northeastern, em Boston, afirmou à Folha que a ofensiva militar corre o risco de transformar em antiamericanos justamente os jovens que, há poucos anos, se rebelaram contra o próprio regime iraniano.

“Agora eles veem por que seus pais e avós estavam certos de se opor aos EUA e ao imperialismo e expansionismo. Essa geração continuará sendo anti-israelense e anti-americana por muito tempo, incluindo todas aquelas jovens mulheres que estavam se rebelando contra este Estado islâmico”, diz.

Nascida em Teerã, Moghadam deixou o Irã antes da Revolução Islâmica de 1979 para estudar no Canadá e, depois, nos EUA. Especializada em política do Oriente Médio e questões de gênero e desenvolvimento, produziu trabalhos críticos à restrição de direitos das mulheres no regime.

Para ela, a intervenção militar externa sabota as possibilidades de transição do regime teocrático. “A maioria das mulheres iranianas, incluindo eu mesma, gostaria de uma forma de governo mais secular e democrática”, afirma. “Isso não é equivalente a uma invasão por qualquer potência externa.”

A professora também critica o que chama de oportunidades perdidas de reaproximação entre o Irã e os Estados Unidos, incluindo o acordo nuclear assinado em 2015 do qual Trump retirou os americanos durante seu primeiro mandato.

A ação militar dos Estados Unidos tem implicações de gênero? Ela afeta de formas específicas as mulheres iranianas?

Sim, as implicações de gênero são bastante reveladoras. Está claro que nem o regime israelense nem o americano estão preocupados com a forma como seus bombardeios afetarão a saúde, o bem-estar ou os direitos humanos de mulheres e crianças. É por isso que bombardearam escolas, hospitais e moradias e até os depósitos de petróleo que poluíram o ar e a água. Esses são crimes de guerra. Essas ações têm como objetivo aterrorizar a população para que ela se volte contra o regime islâmico.

Mas o que elas revelam é a extensão do militarismo masculinista que está na raiz das campanhas contra o Irã. E as mulheres do Irã, que tiveram que lidar com suas próprias formas locais de masculinidade tóxica, agora podem ver a verdadeira face das chamadas democracias de Israel e dos EUA.

A sra. pode explicar melhor o que chama de “militarismo masculinista”?

Guerra, gastos militares, militarismo são formas de masculinidade. Nem todas as masculinidades são tóxicas, mas essa em particular certamente é. É uma expressão de masculinidade na medida em que essas guerras são ofensivas contra outros povos, planejadas e conduzidas por homens. Líderes homens, políticos homens e, infelizmente, soldados homens.

Veio-me à mente a figura de Donald Trump, associada a uma masculinidade que pode ser chamada de tóxica —a associação com Jeffrey Epstein, por exemplo. O fato de ser ele a conduzir essa operação amplifica o “militarismo masculinista”?

Os EUA têm uma longa história de militarismo e ação militar desde sua própria fundação. Quero dizer, lembre-se de que os EUA foram fundados com apenas 13 colônias e depois se expandiram para 50 e alguns territórios.

Trump é apenas a mais recente manifestação dessa longa linha na história do expansionismo e militarismo americanos. Mas ele é um exemplo especialmente grosseiro de um líder político que nem consegue manter suas justificativas e histórias coerentes. [O objetivo da guerra] são recursos? Alguns dias é, e alguns dias não é. É construir a paz? Alguns dias sim, alguns dias não. É apoiar a população iraniana? Então ele é apenas o mais recente em uma linha, mas o exemplo mais grosseiro de um presidente americano muito agressivo e egocêntrico.

Um discurso prevalente nas redes sociais de apoio à guerra tem sido um de libertação das mulheres. Esse mesmo discurso foi comum em outras intervenções militares, como a do Afeganistão. As iranianas podem se beneficiar dessa ação dos EUA e de Israel?

Absolutamente não. A destruição em massa da infraestrutura de um país, incluindo hospitais e escolas femininas, e as mortes que a acompanham, quando isso beneficiou alguém? De que forma poderia ajudar a promover a igualdade e os direitos das mulheres?

O resultado das recentes campanhas dos israelenses e americanos é exatamente o oposto. Essa geração mais jovem, que se rebelou contra o governo durante os protestos Mulher, Vida, Liberdade —mulheres e homens igualmente— poderia ter algum tipo de admiração pela cultura e pela democracia americana. Agora eles veem por que seus pais e avós estavam certos de se opor aos EUA e ao imperialismo e expansionismo.

E essa geração mais jovem continuará anti-israelense e anti-americana por muito tempo, incluindo todas aquelas jovens mulheres que estavam se rebelando contra o Estado islâmico.

Os ataques criam uma divisão entre a diáspora iraniana e os iranianos que ainda estão no país? Porque a reação dos exilados tem sido bastante positiva em relação à guerra.

Sim. Esse é um pequeno grupo de pessoas que eu simplesmente acho muito, muito mal orientadas.

Elas se apegam a certas ilusões e delírios monarquistas, à ideia de que uma monarquia poderia ser revivida no Irã. Lamento muito que haja iranianos que estão esperando por uma mudança de regime através de guerra, bombardeios e destruição de infraestrutura e vidas. É muito, muito lamentável.

Nas fotos de manifestações de luto pela morte do líder supremo, Ali Khamenei, havia muitas mulheres. O quão difundido é entre as mulheres iranianas o desejo de mudança de regime?

Primeiro precisamos entender o que queremos dizer com mudança de regime. Para a grande maioria dos iranianos, isso não é equivalente a uma invasão por qualquer potência externa.

No entanto, a maioria das mulheres iranianas, incluindo eu mesma, gostaria de uma forma de governo mais secular e democrática, que, aliás, era totalmente possível antes dos bombardeios israelenses e americanos que começaram em junho de 2025. Depois do protesto Mulher, Vida, Liberdade, o governo fez uma grande concessão ao permitir que mulheres e meninas aparecessem em público sem hijab.

Quero mencionar outras oportunidades perdidas para uma transição mais genuína que poderia ter ocorrido no Irã. A primeira foi depois do 11 de Setembro. No Irã, o presidente emitiu declarações de solidariedade e apoio aos americanos. Houve grandes manifestações em Teerã onde as pessoas seguravam velas em simpatia e apoio.

Qual foi a resposta americana, ou pelo menos a resposta de [George W.] Bush? “O Irã faz parte do eixo do mal.” Essa era uma oportunidade de amizade, de normalização, de cooperação que foi completamente minada por Bush.

Outra oportunidade perdida foi o acordo nuclear iraniano. O Plano de Ação Conjunto Abrangente foi assinado em 2015. Novamente, no Irã houve muita celebração, até um concerto em Teerã com homens e mulheres se apresentando juntos, o que era muito incomum. Três anos após a conclusão do acordo nuclear, Trump se opõe, retira os Estados Unidos dele, e os europeus o seguem. O que eles fizeram foi fortalecer a linha-dura no Irã.

Se essa é a ideia deles de mudança de regime, sai pela culatra. Tenho certeza de que a grande maioria dos iranianos está horrorizada com os ataques.

Na eleição presidencial de 2024, Masoud Pezeshkian, um reformista, saiu vencedor depois de um ciclo de linhas-duras. A sra. entende que isso indicava uma possibilidade de abertura política?

Isso é o infeliz e trágico. Há esses ciclos eleitorais ao longo da história da República Islâmica, e eles coincidem com pressões de fora. Sempre que há uma pressão dos americanos ou israelenses, os linha-dura são fortalecidos.

Com as eleições presidenciais mais recentes, um reformista voltou ao poder. E a ideia era que esta era uma oportunidade de responder às demandas do movimento Mulher, Vida, Liberdade e às daquelas organizações da sociedade civil que vinham emitindo declarações por mudança no Irã.

Ajudei a traduzir algumas dessas declarações para o inglês para um público internacional mais amplo. E elas eram muito comoventes e progressistas. Essa foi outra oportunidade perdida, tínhamos a sociedade civil emitindo orientações para o Estado, um novo presidente reformista. Ele é de dois dos grupos étnicos minoritários, azeri e curdo, é pai de filhas e disse que não as forçaria a fazer nada que elas não quisessem. É um homem de quem os iranianos poderiam, talvez, ter orgulho.

Mas então o que os americanos e israelenses fazem? Eles bombardearam em junho de 2025. E só vai de mal a pior. Parece que há um esforço constante para sabotar qualquer uma dessas perspectivas e oportunidades de mudança social progressista, de uma transição pacífica para uma democracia.

A grande maioria dos iranianos é muçulmana, mas quer a separação entre lei religiosa e lei civil. Querem se parecer com o Marrocos, a Turquia. Mas os americanos e israelenses parecem determinados a destruir quaisquer perspectivas de mudança gerada domesticamente.

Uma das justificativas para a ação, da parte de Trump, é o fato de protestos em janeiro terem terminado com milhares de mortos pela repressão do Estado iraniano.

Nos Estados Unidos, quando há protestos e pessoas são mortas, não há intervenção externa ou interferência. Não digo isso para eximir as entidades estatais da responsabilidade pela violência, de forma alguma, mas para fornecer algum contexto para o que aconteceu em janeiro. Isso foi usado como desculpa para os israelenses e americanos que sempre quiseram destruir aquele regime e então tomar seus recursos e sua riqueza petrolífera.

O que a escolha de Mojtaba Khamenei como novo líder supremo significa para o Irã e mais especificamente para as mulheres iranianas?

Precisamos esperar para ver como a guerra atual prossegue e se ela pode terminar em breve. É de conhecimento geral que a legitimidade do governo do líder supremo vinha sendo questionada havia bastante tempo.

Após o protesto Mulher, Vida, Liberdade, várias organizações da sociedade civil, incluindo grupos de mulheres, emitiram declarações pedindo um referendo sobre o sistema de governança no Irã, com vistas a uma transição pacífica para um Estado mais democrático.

Infelizmente, as ações criminosas dos israelenses e americanos minaram esse tipo de transição. Não acho que sabemos muito sobre Mojtaba Khamenei, e temos de esperar para ver se o Irã terá a oportunidade de mudar seu sistema de governança de dentro e pelo próprio povo iraniano.

Raio-X | Valentine Moghadam, 73


Nascida em Teerã em 1952, é professora de sociologia e relações internacionais na Universidade Northeastern, nos Estados Unidos. Doutora em sociologia pela American University, em Washington, especializou-se em gênero, desenvolvimento e política no Oriente Médio.



Source link

Leia Mais

Inscrições em curso para mediadores culturais do MAR terminam quarta

Inscrições em curso para mediadores culturais do MAR terminam quarta

agosto 11, 2026

17863187256a790f85bf9d3_1786318725_3x2_rt.jpg

Brasil tem amigos nos EUA, dizem analistas – 10/08/2026 – Mundo

agosto 11, 2026

naom_62a76878d4c78.webp.webp

Fachin defende lei sobre salário de juiz e cobra transparência do Judiciário

agosto 11, 2026

Rede de vigilância é essencial para evitar propagação de sarampo

Rede de vigilância é essencial para evitar propagação de sarampo em SP

agosto 11, 2026

Veja também

Inscrições em curso para mediadores culturais do MAR terminam quarta

Inscrições em curso para mediadores culturais do MAR terminam quarta

agosto 11, 2026

17863187256a790f85bf9d3_1786318725_3x2_rt.jpg

Brasil tem amigos nos EUA, dizem analistas – 10/08/2026 – Mundo

agosto 11, 2026

naom_62a76878d4c78.webp.webp

Fachin defende lei sobre salário de juiz e cobra transparência do Judiciário

agosto 11, 2026

Rede de vigilância é essencial para evitar propagação de sarampo

Rede de vigilância é essencial para evitar propagação de sarampo em SP

agosto 11, 2026