Assim como em 2022, quando a queima de hijabs e o corte de cabelo viraram cenas comuns em atos de apoio aos protestos do Irã em todo o mundo, as atuais manifestações na República Islâmica já tem seu próprio símbolo —e ele também envolve mulheres.
O gesto consiste em atear fogo em uma foto do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, e, com as chamas, acender o próprio cigarro. A cena, um ato de rebeldia para o regime ultraconservador imposto pela revolução de 1979, tomou conta das redes sociais nas últimas semanas, quando manifestações tomaram quase 200 cidades da nação.
Os protestos começaram contra a alta no custo de vida, mas logo se voltaram contra os líderes religiosos no poder há quase quatro décadas. As normas severas do país afetam especialmente as mulheres —o Irã é um dos únicos países, ao lado do Afeganistão, que exigem por lei que as mulheres cubram o cabelo, por exemplo.
Foi justamente essa regra que causou as últimas manifestações em massa no Irã, em 2022. Naquele ano, a jovem de 22 anos Mahsa Amini foi morta sob custódia do regime após ser detida na capital iraniana por supostamente deixar parte do cabelo à mostra sob o véu islâmico.
As manifestações “Mulher, Vida, Liberdade” duraram meses, mas sem resultar em uma organização ou liderança consolidada. Mesmo assim, a repressão aos atos resultou em 551 mortes, de acordo com a ONG Human Rights Watch, 19.262 prisões, segundo a organização Hrana, e diversas execuções.
As mortes nos atuais protestos também já estão em 538 desde o dia 28 de dezembro, segundo a ONG de direitos humanos Hrana. Desses, há 490 manifestantes e 48 membros de forças de segurança. O número de presos, ainda de acordo com a entidade, já supera 10 mil. Não é possível confirmar de forma independente esses números, e o regime até agora não divulgou balanço oficial de vítimas.
Uma das primeiras cenas de uma mulher acendendo o cigarro com chamas que consumiam uma foto de Khamenei foi gravada no Canadá e publicada em uma conta na rede social X, de acordo com a imprensa internacional. Em seguida, outras mulheres se filmaram fazendo o mesmo.
Ao que tudo indica, porém, esses atos ocorrem fora do Irã, já que, no país, o gesto seria reprimido. Em novembro, a morte de Omid Sarlak após filmar a si mesmo queimando uma fotografia do líder do país levantou suspeitas. A mídia estatal afirma que ele foi encontrado em seu carro baleado na cabeça e pólvora nas mãos —o que indicaria, para a polícia, que ele cometeu suicídio.
Desta vez, muitos dos protestos também ocorrem fora do Irã. No Reino Unido, manifestantes entrevistados pelo The Guardian esperam que a dissidente iraniana Maryam Rajavi seja a primeira presidente mulher do país do Oriente Médio.
“Desta vez é diferente porque [a revolta] está bem organizada”, disse ao jornal britânico Laila Jazayeri, diretora da Associação de Mulheres Anglo-Iranianas no Reino Unido. “E temos uma liderança, uma alternativa pronta para assumir o poder. Uma mulher está liderando essa resistência, Maryam Rajavi. Ela tem um plano progressista de 10 pontos para um Irã livre e democrático.”
A questão do véu divide a classe política. Em 2024, o governo do presidente Masoud Pezeshkian se recusou a aprovar uma lei que teria aumentado drasticamente as penas para mulheres que não cobrissem o cabelo. As restrições às mulheres, no entanto, seguem vigentes.
No começo de dezembro, por exemplo, autoridades iranianas prenderam os dois principais organizadores de uma maratona realizada no dia anterior em Kish, no sul do país, na qual mulheres participaram sem véu.
Em diversas das provas reservadas para o público feminino, algumas corredoras não usaram véu, de acordo com imagens que circulam nas redes sociais. Na ocasião, o procurador-geral de Kish afirmou que a conduta do evento “foi contrária à decência” e que foram iniciados processos legais contra os organizadores.
As detenções coincidem com um momento em que algumas autoridades do país denunciam um crescente desrespeito à obrigatoriedade do uso do véu, fenômeno inimaginável há alguns anos. Os casos parecem ter ganhado ainda mais força desde o fim da guerra com Israel em junho, especialmente na capital, Teerã, de acordo com a agência de notícias AFP.



