Horas depois de um torpedo americano afundar um navio de guerra iraniano na costa do Sri Lanka, o maior hospital de Galle, a cidade portuária mais próxima do desastre, começou a ficar lotado. Ambulâncias brancas com cruzes vermelhas iam e vinham sem parar entre o porto e o hospital transportando os feridos, enquanto os mortos foram trazidos mais tarde em caminhões.
Ao fim do dia, o necrotério havia ficado sem espaço. Os funcionários do hospital tiveram que colocar os sacos de cadáveres em uma mistura de serragem e gelo seco —uma técnica que os pescadores usam para evitar que seus peixes estraguem —enquanto aguardavam a chegada de dois veículos refrigerados.
O Sri Lanka, uma nação insular no oceano Índico a mais de 3.200 quilômetros do golfo Pérsico, viu-se sugado para uma guerra distante —e um inesperada confusão diplomática com o Irã. Diplomatas iranianos ficaram irritados porque o Sri Lanka não havia permitido a entrada do Dena, um dos navios de guerra mais valiosos do Irã, em suas águas territoriais, embora o país tivesse anteriormente convidado a Marinha iraniana para uma visita.
Autoridades do Sri Lanka disseram que ficaram surpresas quando o Dena e outros dois navios iranianos pediram, no final de fevereiro, para atracar com pouca antecedência. Depois que os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã em 28 de fevereiro, o Sri Lanka hesitou, temendo que admiti-los afetaria sua neutralidade na guerra e ameaçaria sua segurança.
Mesmo enquanto seus barcos e helicópteros resgatavam marinheiros atingidos do Dena, o governo levou mais um dia antes de decidir abrigar o Bushehr, um antigo navio de abastecimento da frota que solicitava refúgio seguro. A essa altura, o terceiro, um navio de desembarque iraniano chamado Lavan, já estava atracado em um porto na vizinha Índia.
O Sri Lanka e o Irã compartilham laços amigáveis, mas a cautela do primeiro irritou autoridades iranianas, que sentiram que isso deixou o Bushehr exposto a um ataque subsequente, de acordo com duas pessoas com conhecimento direto das conversas diplomáticas. Elas pediram para não serem identificadas porque não estavam autorizadas a falar publicamente.
Para o Sri Lanka, um erro geopolítico poderia causar mais danos econômicos. Agora o país precisa decidir o que fazer com os 32 marinheiros que resgatou do Dena e mais de 200 trazidos à terra do Bushehr. O Ministério da Defesa do Sri Lanka disse que enviou um comunicado ao Irã e aguardava resposta. Enquanto isso, os marinheiros receberam vistos de 30 dias.
UMA VISITA SURPRESA
Cerca de duas semanas antes de o Dena ser torpedeado, os três navios iranianos estavam entre dezenas de embarcações e pessoal naval de mais de 70 países que participaram de exercícios navais em tempo de paz na costa da cidade indiana de Visakhapatnam, no sudeste do país.
No dia seguinte ao término dos exercícios, em 25 de fevereiro, quando os navios começaram a retornar para casa, as forças americanas estavam se concentrando no Golfo. Autoridades iranianas perguntaram ao governo do Sri Lanka se seus três navios poderiam fazer uma visita de quatro dias para “fortalecer a cooperação” a partir de 9 de março, segundo autoridades do Sri Lanka.
O pedido pegou o país de surpresa, especialmente quando descobriram que a flotilha já estava próxima de Galle, uma antiga cidade portuária na parte sul da ilha, a cerca de 800 milhas náuticas de Visakhapatnam.
Enquanto o Sri Lanka preparava a documentação, os EUA e Israel iniciaram ataques aéreos ao Irã em 28 de fevereiro. Isso fez o Sri Lanka hesitar. Autoridades do governo disseram que estavam preocupadas que permitir a entrada das embarcações poderia trazer o conflito para suas costas, embora reconhecessem que os navios iranianos eram alvos mais fáceis se permanecessem em águas internacionais.
Autoridades iranianas também haviam procurado a Índia em 28 de fevereiro buscando refúgio seguro. A Índia deu permissão no dia seguinte, de acordo com autoridades do governo em Nova Déli. Mas apenas o Lavan chegou à Índia, “presumivelmente” porque era o mais próximo, disse S. Jaishankar, ministro das Relações Exteriores da Índia, no sábado.
FÚRIA, CONFUSÃO E CONSTERNAÇÃO
Os sinais de socorro começaram a chegar às 5h08 de 4 de março, originando-se a cerca de 19 milhas náuticas de Galle. O Dena havia sido atingido por um torpedo pesado Mark-48 —projetado para partir ao meio um navio por baixo.
A Marinha e a Força Aérea do Sri Lanka correram para montar uma operação de resgate, com a Índia enviando assistência posteriormente. Encontraram corpos e balsas salva-vidas em meio a manchas de óleo no mar, mas nenhum sinal do navio de guerra. As primeiras vítimas chegaram a Galle mais tarde naquela manhã. Equipes de resgate —algumas delas em trajes de proteção— retiraram corpos de navios da marinha e botes salva-vidas, colocando-os em macas e levando-os às pressas para o hospital.
Tripulantes iranianos sobreviventes, muitos deles jovens cadetes, chegaram com ossos quebrados e ferimentos na cabeça e no tórax. Alguns tinham fraturas na coluna —um médico que os examinou disse que isso provavelmente ocorreu porque a explosão os projetou para cima antes de caírem pesadamente.
Na terça-feira, o Sri Lanka encerrou suas buscas com cerca de 20 pessoas ainda desaparecidas.
Os EUA não disseram se deram aos marinheiros iranianos algum aviso antes do ataque, mas autoridades iranianas e do Sri Lanka disseram que não receberam nenhum. Teerã disse que o Dena estava desarmado e indefeso. O Comando do Indo-Pacífico dos EUA contestou essa afirmação em uma publicação nas redes sociais.
Mas o Dena não era o único navio. O Bushehr, uma embarcação naval menor às vezes usada como navio-escola, também aguardava que o Sri Lanka o deixasse entrar. Menos de uma semana antes, em 27 de fevereiro, o Sri Lanka havia trazido à terra um marinheiro iraniano ferido do navio para tratamento, determinando que tinha a obrigação de fornecer assistência humanitária sob as leis marítimas internacionais.
Mas o próprio Bushehr, com mais de 200 tripulantes, permaneceu em águas internacionais a oeste do Sri Lanka, mais próximo de Colombo, a capital e um movimentado porto comercial. Autoridades do Ministério das Relações Exteriores do Sri Lanka mantiveram extensas discussões com seus homólogos iranianos quando o Bushehr relatou que um de seus motores estava danificado, o que fortaleceu seu caso para porto seguro por razões humanitárias.
Em 5 de março, o Sri Lanka acolheu o Bushehr sob custódia. Os dois lados concordaram que a tripulação desembarcaria em Colombo naquele dia e o navio navegaria para um porto menor em Trincomalee, no nordeste do país.
Naquela noite, o presidente Anura Kumara Dissanayake do Sri Lanka disse que seu governo havia sido pego em uma situação delicada. Em um pronunciamento televisionado, ele disse que a neutralidade do país, particularmente no contexto “do conflito no Oriente Médio“, determinava que não poderia “permitir que nosso território terrestre, zonas marítimas ou espaço aéreo fossem utilizados de maneira tendenciosa por qualquer nação envolvida em um conflito”.
Mas ele disse que também tinham que cumprir as leis internacionais, incluindo a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar de 1982, que tem diretrizes sobre ajudar navios em perigo.




