Iraniana: Como distinguir o assassino interno do externo? – 07/03/2026 – Ilustríssima

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[RESUMO] A autora sustenta que a repressão da teocracia iraniana moldou décadas de violência e resistência. Revisita os protestos contra o véu obrigatório em 1980, o assassinato da jovem curda Mahsa Amini e as mobilizações recentes. Após os ataques dos Estados Unidos e de Israel que mataram o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país persa, pergunta como distinguir o assassino interno do externo.

Em março de 1980, quando começaram os rumores de aplicação das leis islâmicas, reprimindo entre outros direitos os das mulheres, milhares delas desceram às ruas de Teerã e, depois, de outras cidades.

Na ausência de apoio dos grupos progressistas e socialistas, que consideravam tal demanda burguesa demais para ser uma pauta revolucionária, elas sofreram humilhações da milícia e repressão do recém-criado regime iraniano. O slogan miliciano mais famoso era: “ou o lenço, ou a pancada na cabeça”.

O uso do véu tornou-se obrigatório. A existência feminina tornou-se legalmente inferior em diversos aspectos, tais como herança, guarda, divórcio, seguro etc.

Os progressistas e socialistas pagaram com as próprias vidas o preço da ilusão de uma possível aliança com o regime islâmico. Milhares de presos políticos foram enforcados e enterrados em massa em cemitérios clandestinos nos anos 1980. Para muitos deles, dez minutos de julgamento —quando houve— foram um luxo.

Por um lado, a guerra com o Iraque, por outro, a vigilância permanente do regime e as repressões. Mas aquela manifestação de março não foi a última. Desde então, a cada oportunidade possível, universitários, feministas, autores e artistas levantaram a voz contra o regime.

O preço sempre foi alto: do atentado contra o ônibus de escritores a caminho da Armênia, que a inteligência iraniana tentou derrubar, aos assassinatos de intelectuais ordenados pelos mesmos serviços de controle; prisões, espancamentos, suspensões de entrada de estudantes nas universidades —nossa memória está cheia.

Nossa memória está cheia de mentiras e propagandas, de nossas conciliações e aceitações da reforma em troca de mais repressão e mais ruptura com o que sobrava da república, dos gritos de mulheres sendo arrastadas pelas ruas pelas mãos da polícia moral.

O regime iraniano tinha nos tirado até a possibilidade de imaginar que ele, e suas ordens, pudessem não existir. Até que um dia Teerã acordou com a imagem de uma menina, de moletom e sem véu, em cima de uma caixa de eletricidade na avenida Enghelab (Revolução), levantando um véu branco como se fosse uma bandeira de paz.

Tornou-se possível resistir —não por um véu mais aberto, mas por um não véu, um não hijab.

E o regime também aumentou sua crueldade. Aprendeu a cortar a internet para matar. Começou a matar nas ruas, a atirar nos olhos, no peito, a lançar míssil contra avião civil, a alvejar crianças dentro de casa.

À medida que a situação econômica piorava, aumentava a matança. Suspeitava de toda e qualquer atividade em grupo, de todo e qualquer pronunciamento em oposição.

Espera… por que estou conjugando os verbos no passado, como se o regime não existisse mais? Ah, ato falho de distanciamento, da dissociação.

Volto… espera… imagens… vozes. Qual delas tenho que escolher?

Qual delas é mais importante para vocês, no Brasil, entenderem o porquê dessa inconveniência iraniana que não cabe nem no desejo incessante da direita de nos afastar dos outros povos da região, nem na análise pronta, anti-imperialista, da esquerda campista? Qual delas? Talvez Jina…

Quando Jina Mahsa Amini [jovem de 22 anos, de origem curda, morta após ser presa pela polícia da moralidade por supostamente violar as regras de uso do hijab] foi enterrada no Curdistão, uma mão escreveu em curdo sobre a pedra da terra fresca: “Jina querida, você não morre, seu nome se tornará um símbolo”.

As mulheres tiraram seus véus e gritaram: “Jin, Jiyan, Azadi” (mulher, vida, liberdade). O país se levantou. Depois disso, nada voltou a ser como antes. A violência de Estado piorou. Ficou mais evidente que “eles” precisam ir embora —e mais urgente o desejo de acordar um dia e ver que “eles” já não nos governam.

E eles mataram ainda mais. Não faz dois meses que milhares foram mortos nas ruas do país. E nossos outros inimigos também atacaram.

Como dizer a um povo que acaba de voltar do túmulo de seus jovens que há diferença entre o assassino interno e o externo? Como dizer que o míssil de um é defesa, enquanto esse mesmo agora atira nas ruas e contra as janelas? Como dizer que o míssil do outro permitirá que nos levantemos contra o regime, se nada restará vivo —nem humano, nem pássaro, nem cidade?

Volto… para onde? Para uma casa bombardeada? Longe… não.

Imagens… Minha mãe, antes que cortem a internet de novo e que Israel e Estados Unidos ataquem, perguntou no WhatsApp qual das conservas que Reza Shahabi, sindicalista e ex-preso iraniano, havia disponibilizado para vender e sobreviver eu queria. Respondi: qualquer uma. Ela escreveu: “Compro e levo para São Paulo”. Em uma semana, ela não poderá embarcar, e eu ainda não contei para meu filho.

Volto…



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