Após um mês desde o início da guerra contra o Irã, iranianos que vivem nos Estados Unidos e são pró-Trump rejeitam a possibilidade de o presidente americano firmar um acordo com autoridades do regime. Eles dizem ainda que “não se negocia com terroristas” e têm esperança que o republicano, ao não comentar sobre mudança de regime, esteja blefando e não mostrando todas suas cartas para lidar com o conflitos.
A Folha conversou com alguns desses iranianos, que participam da CPAC, maior conferência conservadora dos EUA, neste ano sendo realizada em Dallas, no Texas. Para Babak Sotoudeh, 50, que vive nos EUA desde os anos 1990, é preciso que o objetivo final da guerra seja o “colapso total do regime”.
“Se der tempo a ele [regime], vai ser muito pior. Esperamos que o presidente não negocie com eles, não se negocia com terroristas. São facções que sequestraram o povo iraniano e usam essas pessoas como escudo”, disse Sotoudeh, que trabalha no mercado financeiro.
Ele diz que ficou “um pouco desapontado” quando Trump deu sinais que estaria negociando com Teerã. “Mas sei que Trump não quer mostrar suas cartas. Acho que ele está tentando blefar, como no pôquer. Acho que ele definitivamente tem um plano para eles.”
Desde o início da guerra, Trump tem dito que ordenou os ataques por supostas ameaças do Irã de desenvolver uma arma nuclear, e que caberia ao povo iraniano operar uma mudança no regime.
Sotoudeh acredita que os iranianos não têm medo disso porque veem Reza Pahlavi, filho do xá deposto pelos aiatolás, como alternativa. “O povo do Irã confia nele e o conhece, conhecem a família dele. Sempre foram amigáveis com o povo iraniano. A modernidade no Irã basicamente veio da família dele”, afirmou, embora não exista uma oposição pró-xá dentro do Irã atualmente e o governo de seu pai, anterior à Revolução Islâmica, tenha sido marcado também por forte repressão.
Apesar de Pahlavi tentar se apresentar como alternativa para governar o país, ele é criticado por outras forças no exílio, que dizem que ele não tem mais contato com os iranianos que permaneceram no país.
Além disso, antes do início da guerra, Trump já demonstrou incertreza sobre a possibildiade de Pahlavi de assumir a liderança no país, uma vez que não tinha certeza se ele conseguiria reunir apoio dentro do Irã. Depois do início dos conflitos, deu outro sinal de que Pahlavi não seria a escolha para o posto ao dizer que todos os nomes que a Casa Branca tinha em mente para liderar o Irã tinham sido mortos em ataques.
Assim como os iranianos presentes no evento, Pahlavi mandou recado para a base de aliados de Trump durante discurso neste sábado, último dia do CPAC. Em sua fala, diante de uma plateia lotada, ele foi interrompido diversas vezes durante a fala por gritos de iranianos que o saudavam e gritavam palavras de ordem pró-EUA, a favor de Trump e chamavam o xá de “rei Reza Pahlavi”.
Durante a fala, ele também enviou alguns recados ao presidente americano, que flertou com a possibilidade de fechar acordo com a República Islâmica, e disse que o regime atual não é composto por “agentes de acordos”, mas de “agentes do caos.”
“O IRGC [Guarda Revolucionária Islâmica] não é o Exército nacional do Irã, nem sequer tem a palavra ‘Irã’ no nome. Ele serve à sua própria ideologia e ao terror, e não ao interesse nacional do Irã. Ele nunca será parceiro dos interesses dos EUA”, afirmou Pahlavi.
O xá disse que, desde o início dos ataques americanos, “milhõs de iranianos têm me ligado para liderar a transição para a democracia e aceitado esse chamado. Não para me servir, mas para servir a minha nação e o meu povo”.
Entre iranianos no evento, alguns usavam blusas com a bandeira do Irã antes da Revolução ou o rosto de Pahlavi estampado. Do lado de fora, imagens do xá e até um evento improvisado foi montado em uma praça ao lado do hotel onde ocorre a conferência.
Ali, iranianos organizaram uma espécie de programação paralela com um palco improvisado, cadeiras e quiosque que vendia camisetas com o rosto de Pahlavi. A iraniana Bita Behgooy, 32, que ajudava a organizar o evento promovido pela organização Iran Voice (Voz do Irã), relembra que vive nos EUA desde os 16 anos e relata ter sido presa quando era adolescente por usar esmalte nas unhas.
A migração dela e da família aconteceu após os protestos de 2009, quando milhares de pessoas foram assassinadas. “O regime virou uma espécie de máquina mafiosa. Ou você estava com eles, ou contra eles. Não queríamos fazer parte disso. E, como mulher, era extremamente opressor. Existe um trauma geracional por causa disso.”
Sobre a possibilidade de Reza não ter apoio do republicano, ela diz que o republicano é muito estratégico. “Ele não mostra todas as cartas. Acredito que ele sabe o que está fazendo e, no momento certo, demonstrará apoio”, disse ela.
Com a bandeira do Irã pré-revolução nas mãos e a frase “libertem o Irã” estampada na camiseta, Nick Mohajir, 73, aguardava ao lado da mulher, Mitra Jamshidi, 57, dentro do hotel para ver se conseguia ver o xá. Sem convites, que esgotaram para o dia, não conseguiram entrar no evento.
Ele vivia nos EUA desde antes da Revolução Iraniana, em 1979, e decidiu não retornar porque não aceitava as políticas e a filosofia do novo regime, especialmente as restrições religiosas. Nick apoia a intervenção dos EUA e de Israel, dizendo que o povo iraniano recebe a ajuda necessária para se defender do regime.




