“Mir kumen on, mir kumen on! Un fest un zikher undzer trot!” No final da noite de uma sexta-feira, dezenas de vozes se juntaram a esse hino iídiche –”estamos chegando, estamos chegando! e nosso passo é firme e verdadeiro!”– que se ergueu de um centro de conferências nos arredores de Melbourne, na Austrália.
Hoje, o iídiche é mais comumente usado em comunidades ultraortodoxas em lugares como Nova York ou Jerusalém. Mas em Melbourne trechos da língua podem ser ouvidos em certas ruas, em torno de mesas multigeracionais, em palcos e salas de aula.
E, durante um fim de semana por ano, australianos que falam iídiche se reúnem no Sof-Vokh Oystralye, ou Weekend Australia, para 48 horas de imersão total na língua de mil anos de vida e cultura judaica que, antes do Holocausto, era falada por 13 milhões de pessoas.
Para alguns dos cantores do retiro deste ano, no final de maio, o iídiche é a língua da vida cotidiana ou evoca uma infância distante num bairro de imigrantes em Melbourne. Para outros, é a língua da sala de aula ao lado do hebraico e do inglês na única escola primária secular do mundo onde é uma disciplina diária obrigatória.
No Sof-Vokh, os participantes com gorros e lenços estampados com as insígnias dos times de futebol australiano jogaram basquete e xadrez; espalharam queijo cremoso em blintzes numa cozinha de aço inoxidável; e jogaram jogos em que personificaram animais e traduziram jargões em poesia –tudo em iídiche.
De um jogo Twister improvisado montado no saguão do hotel, uma criança solta um alto “Oy vey!”
Além do acendimento de velas e bênçãos em iídiche sobre pão e vinho na noite de sexta-feira, havia poucos sinais de religião organizada. No entanto, a preservação da língua tornou-se, para os fundadores do evento e outros membros da comunidade judaica de Melbourne, uma cruzada quase sagrada.
Em 1995, quando o último jornal iídiche de Melbourne fechou, Freydi Mrocki, musicista e professora, caiu no chão de sua sala de jantar, chorando. “Foi quando decidi que o iídiche só morreria por cima do meu cadáver”, diz Mrocki, 63. “Entreguei minha vida ao iídiche, da mesma forma que algumas pessoas entregam sua vida a Deus.”
Junto com Doodie Ringelblum, ela cofundou a Sof-Vokh em 2004. “O iídiche é nossa contribuição para a cultura mundial”, diz Ringelblum, 60, “e o judaísmo é nossa contribuição para a riqueza da vida humana”.
Ringelblum e sua mulher criaram seus três filhos para falar iídiche como primeira língua. Mas com poucas outras famílias iídiche em Melbourne e escassos recursos seculares –bem como a resistência ocasional de seus filhos adolescentes–, transmiti-lo foi “terrivelmente difícil”, disse ele. “As duas palavras mais faladas em nossa família são ‘redt iídiche’ –’fale iídiche’.”
Muitos dos atuais falantes de iídiche de Melbourne, incluindo Mrocki e Ringelblum, descendem de uma onda de refugiados judeus que se estabeleceram na cidade entre 1938 e 1960, dando à Austrália uma proporção de sobreviventes do Holocausto maior que a de qualquer país, exceto Israel.
Hania Joskowicz, que completará 100 anos em fevereiro, mudou-se para a Austrália em 1951 com o marido e a filha. Ela passou seis anos da guerra em um campo de trabalho forçado, sem saber que os nazistas tinham assassinado seus pais e dois de seus três irmãos. Foi uma “vida de nada”, disse ela numa entrevista recente em sua casa em Melbourne. “Em cada minuto, você está morto. Cada segundo.”
Mas em Melbourne ela encontrou uma comunidade pronta no bairro de Carlton, vivendo entre outros sobreviventes do Holocausto e novos migrantes e aprendendo grego e italiano ao lado do inglês. “Realmente era ‘shtetl’ Carlton naquela época”, diz Arnold Zable, 76, escritor que retratou a comunidade em seu livro “Scraps of Heaven”.
No Kadimah, centro cultural judaico e biblioteca em Melbourne, Joskowicz e seu marido assistiram ao teatro iídiche, bailes e outros eventos. Ela lembra o choque de encontrar, de repente, um amigo próximo de antes da guerra lá. “Eu caí, de felicidade.”
À medida que a última geração de falantes de iídiche de Melbourne anterior à guerra desaparece, o idioma ganha vida para a maioria dos falantes atuais em ambientes como Sof-Vokh ou em aulas, bem como por meio da próspera cena musical iídiche de Melbourne.
Este tem sido o caso em todo o mundo, diz Rivke Margolis, professora de estudos judaicos na Universidade Monash. “Não há qualquer indício de que o iídiche esteja ‘morrendo'”, disse ela.
No Sof-Vokh, ela conduziu uma multidão através de um monólogo do escritor Aaron Zeitlin, no qual um migrante falante de iídiche para os Estados Unidos reflete sobre sua família assimilada antes de observar, aflito, que ninguém dirá o Kadish, a oração dos enlutados judeus, quando ele morrer.
Com o tempo, a população judaica de Melbourne mudou-se de Carlton para o atual “cinturão do bagel” da cidade ao sul do rio, para onde o centro Kadimah acabou se mudando. No número 111, a organização ainda apresenta peças em iídiche e ensina o idioma para pessoas de todas as idades.
Virando a esquina, fica o Sholem Aleichem College, escola primária judaica secular com o nome do aclamado escritor iídiche, onde cerca de 300 alunos aprendem em inglês, hebraico e iídiche.
Em um almoço em Sof-Vokh, Helen Greenberg, diretora da escola há 17 anos, riu enquanto conversava com ex-alunos e cumprimentou os que ainda estavam sob sua responsabilidade. “A entonação deles é sensacional”, diz ela sobre a proficiência dos estudantes de iídiche. “Eles não o veem apenas como um idioma, mas como parte de sua identidade.”




