Após mais de dois anos de embates com a Presidência do Chile, Javier Milei recebeu nesta segunda-feira (6) o novo líder do país vizinho, José Antonio Kast, com um demorado abraço na Casa Rosada, a sede do Executivo da Argentina.
Além de repetir a tradição de reservar a primeira viagem oficial do mandato a Buenos Aires, a visita de Kast marca o realinhamento ideológico das duas nações após o antecessor do ultradireitista, o ex-presidente chileno Gabriel Boric, perder um aliado regional ao fim do mandato do argentino Alberto Fernández, em 2023.
Depois de se cumprimentarem e trocarem algumas palavras, os líderes seguiram para uma reunião privada em que falaram sobre turismo, comércio entre os dois países, que compartilham uma fronteira de mais de 5.000 km, investimento e mineração, segundo Kast. “Foi muito produtivo”, afirmou o presidente chileno após o encontro.
O ultradireitista disse que a reunião também contemplou também a imigração irregular (“vamos avançar na expulsão de imigrantes irregulares nas próximas semanas, nos próximos meses”, disse ele) e o crime organizado.
O último aspecto é um ponto sensível do encontro, que acontece após o governo argentino fracassar na extradição do ex-guerrilheiro chileno Galvarino Apablaza, acusado de participar, em 1991, do assassinato do ex-senador Jaime Guzmán, fundador de um dos principais partidos da base de apoio à ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).
Apablaza fugiu para a Argentina dois anos após o assassinato e era considerado refugiado político desde 2010 —status que mudou em fevereiro deste ano por decisão de um tribunal. Desde quarta, porém, quando foi expedido um mandado de prisão contra o ex-guerrilheiro, ele está foragido.
No domingo (5), antes de embarcar rumo a Buenos Aires, Kast afirmou que “a justiça prevalecerá e, mais cedo ou mais tarde, Apablaza terá que responder perante a justiça chilena”. “Agradecemos a cooperação que a Argentina tem prestado em todos esses assuntos”, continuou.
Dois dias antes, o Ministério da Segurança de Milei havia oferecido uma recompensa de aproximadamente US$ 14 mil por informações que levassem à prisão de Apablaza. O advogado do ex-guerrilheiro Rodolfo Yanzón, afirmou à agência de notícias AFP que recorreria a organismos internacionais e defendeu que a sua prisão seria ilegal, já que ele ainda pode recuperar seu status de refugiado.
Embora seja a primeira reunião dos dois em uma visita oficial, os líderes já haviam se encontrado em 2022, quando se conheceram na CPAC (Conferência Política de Ação Conservadora), realizada em Campinas (SP) naquele ano, e, mais recentemente, em dezembro, quando Kast também reservou a Milei a sua primeira viagem como presidente eleito, menos de 48 horas após sua vitória.
Já este ano, eles se viram também em Miami, onde líderes de direita da região posaram ao lado do presidente americano, Donald Trump, em um evento para lançar uma coalizão para combater o crime organizado no continente denominada “Escudo das Américas”.
E não foram poucos os presentes —estavam ali também os presidentes Rodrigo Paz (Bolívia), Daniel Noboa (Equador), Nayib Bukele (El Salvador) e Santiago Peña (Paraguai), para citar alguns. A reunião deu a dimesão da onda de direita que vem isolando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na região.
No entanto, alguns de seus representantes, como Kast e Milei, vêm enfrentando dificuldades domésticas. Antes de embarcar para a Argentina, o presidente chileno viu a sua popularidade cair mais uma vez —rondam os 42% aqueles que aprovam a gestão do político, ante 57% quando chegou ao La Moneda, segundo a empresa de pesquisas Cadem.
Já o argentino acumulava uma desaprovação de mais de 61% no final de março, segundo a Atlas Intel —um aumento de dez pontos percentuais em cerca de quatro meses. De acordo com o levantamento, pesam para a deprovação o desemprego, a inflação, o enfraquecimento da democracia e a corrupção.
O último tema diz respeito aos escândalos que o governo Milei acumulou nesses três anos de governo. O mais recente foi a revelação de compra de propriedades do chefe de Gabinete, Manuel Adorni, após conseguir um cargo público.




