Linha-dura do Irã ataca negociadores por acordo com os EUA – 29/05/2026 – Mundo

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Os ultraconservadores do Irã atacaram os negociadores do país por causa de um possível acordo com os Estados Unidos, expondo divisões entre os parlamentares sobre até que ponto Teerã deveria ceder a Washington para encerrar o conflito que já dura meses.

Membros influentes da facção Paydari, que ocupam assentos no Parlamento e posições de destaque nas emissoras estatais, insistiram que o Irã mantenha o controle sobre o estreito de Hormuz e se recuse a fazer concessões sobre seu programa nuclear, descrevendo esses pontos como “linhas vermelhas”.

Eles criticaram o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, rival político de longa data que tem liderado as negociações, alegando que ele agiu além do mandato concedido pelo novo líder supremo, o aiatolá Mojtaba Khamenei.

Mahmoud Nabavian, proeminente parlamentar linha-dura alinhado com o Paydari, pediu esta semana que Ghalibaf e o alto funcionário de segurança, Mohammad Bagher Zolghadr, insistissem em termos maximalistas para encerrar o conflito, afirmando que a guerra transformou o Irã em uma “superpotência”.

As críticas surgem enquanto os mediadores aguardam a resposta do Irã a uma proposta preliminar que estenderia o cessar-fogo entre EUA e Irã por 60 dias, levaria à reabertura gradual do estreito e estabeleceria a estrutura para discussões sobre o programa nuclear da república.

Nabavian argumentou que o estreito, por onde passa cerca de um quinto do suprimento global de petróleo e gás, só deveria ser totalmente reaberto se “todas” as sanções americanas fossem suspensas com aprovação do Congresso e acompanhadas de garantias contra sanções futuras.

Ele também delineou o que afirmou serem as condições de Khamenei para um acordo, incluindo que o Irã mantenha a “gestão exclusiva” do estreito, imponha pedágios sobre a navegação, proíba embarcações ligadas a Israel e receba pagamentos de compensação dos EUA por danos de guerra.

Qualquer coisa aquém disso, disse ele, significaria que “o Irã será um perdedor total e os EUA um vencedor total”.

A opinião foi ecoada por Mohsen Mansouri, outro ultraconservador. Ele afirmou que os pragmáticos que lideram as negociações “estão lutando por um acordo já fracassado com os assassinos de nosso líder supremo”, referindo-se ao assassinato do pai de Mojtaba, Ali Khamenei, no início da guerra em 28 de fevereiro.

Mansouri disse que alegações de que os negociadores estavam se coordenando com Mojtaba, ou que estavam agindo com base em uma decisão coletiva tomada por altas autoridades, “não funcionariam mais”, sugerindo que eram falsas.

As intervenções destacaram as tentativas da facção Paydari de se inserir nas negociações e ressaltaram o desafio enfrentado pela liderança iraniana ao tentar equilibrar a exaustão pública após meses de guerra com a pressão de ideólogos linha-dura.


Políticos mais moderados e pragmáticos, no entanto, argumentam que a influência política dos ultraconservadores está enfraquecendo à medida que o público —e grande parte do establishment político— se cansa de sua insistência em mais escalada com os EUA e Israel e de seus apelos por mais restrições políticas e sociais.

Isso inclui defender a continuação de um apagão global de internet que dura vários meses, que o Irã começou a flexibilizar esta semana contra a oposição dos ultraconservadores.

O Paydari sofreu um golpe político na segunda-feira (25) quando Ghalibaf, conservador visto como pragmático e considerado próximo de Khamenei, obteve 235 votos para estender seu mandato como presidente do Parlamento por mais um ano. Seu desafiante, apoiado pelo Paydari, conquistou apenas 29 votos.

“Os membros do Paydari se tornaram como um paciente que não pode mais ser curado”, disse uma fonte interna do regime. “Eles são parcialmente responsáveis por fazer as pessoas ficarem desiludidas com suas políticas. O país não pode mais sustentá-los.”

Ainda assim, analistas dizem que os ultraconservadores mantêm influência suficiente para complicar as negociações, atrasar decisões e elevar as expectativas entre os apoiadores da república islâmica.

O presidente Masoud Pezeshkian, um reformista, pediu na terça-feira (26) que os iranianos evitassem uma abordagem confrontacional em favor de “solidariedade e reconstrução”. Ele disse na quarta-feira que a economia era “o principal campo de batalha”.

Ghalibaf e o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, retornaram a Teerã vindos de Doha na noite da terça-feira (26) após dois dias de conversas com mediadores catari. Os negociadores iranianos disseram que estavam focados em garantir uma estrutura inicial para suspender as hostilidades e facilitar o tráfego por Hormuz.

Relatos iniciais sugerem que Teerã poderia concordar em reabrir o estreito por um período inicial de 60 dias em troca do levantamento de um bloqueio americano à navegação iraniana.

Diplomatas familiarizados com as discussões disseram que tal movimento poderia ser acompanhado pela liberação parcial de ativos iranianos congelados antes do início de negociações mais amplas sobre o programa nuclear de Teerã.

O Irã acusou os EUA esta semana de violações “flagrantes” do cessar-fogo após forças americanas realizarem ataques aéreos contra lançadores de mísseis e embarcações iranianas na segunda-feira (25).

O presidente americano Donald Trump havia afirmado anteriormente que a liderança de Teerã estava em desordem após a guerra, dizendo no mês passado que os iranianos “não têm ideia de quem é seu líder”.

Mas apesar dos confrontos públicos com os linha-dura, analistas acreditam que as negociações ocorreram sob a supervisão de Khamenei.


Embora o líder supremo não tenha aparecido publicamente desde o início da guerrasupostamente ferido no ataque que matou seu pai— acredita-se que a Guarda Revolucionária, funcionários de segurança e líderes políticos como Ghalibaf estejam se coordenando com ele.

“Os linha-dura sempre foram contra Ghalibaf e vice-versa. Isso não é novidade e vai continuar”, disse a fonte interna. “Mas a diferença agora é que o establishment político não está mais planejando protegê-los

caso continuem a obstruir todas as políticas.”

Em uma rara intervenção pública esta semana, Zolghadr, que foi nomeado secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, pediu unidade nacional, descrevendo a coesão política como um componente essencial da defesa do Irã contra os EUA e Israel.

“Mais do que nunca, o país precisa de unidade para decepcionar americanos e sionistas”, disse ele, acrescentando que isso poderia garantir ao Irã uma “vitória final”.



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