O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tentou trazer para a cúpula do Brics o tema da Guerra da Ucrânia, mas viu o assunto ser praticamente ignorado pelos líderes de China, Índia e África do Sul —a exceção foi o presidente da Rússia, Vladimir Putin, que usou seu pronunciamento para fazer uma defesa enfática da ação militar russa no Leste da Europa.
Lula focou seu discurso nas consequências da guerra para o mundo, principalmente para os países em desenvolvimento.
“A Guerra da Ucrânia evidencia as limitações do Conselho de Segurança da ONU. O Brics se consolidou como um fórum para discussão dos principais temas que afetam a paz e a segurança mundial. Não podemos nos furtar a tratar do principal conflito da atualidade que ocorre na Ucrânia e que tem consequências globais”, declarou Lula na sessão de abertura da cúpula, em Joanesburgo.
Lula destacou a necessidade de buscar uma solução para o conflito. “Achamos positivo que um número crescente de países, entre eles os países do Brics, também esteja engajado em contatos diretos com Moscou ou com Kiev. Não subestimamos as dificuldades para alcançar a paz. Tampouco podemos ficar indiferentes à morte e à destruição”, declarou.
“Estamos prontos a nos juntar a um esforço que possa efetivamente contribuir para um pronto cessar-fogo e uma paz justa e duradoura”.
Ele destacou ainda as propostas de paz lançadas por China e África do Sul como tentativas em consonância com iniciativas brasileiras. Lula tem defendido a proposta da criação de uma espécie de “clube da paz” para o fim do conflito. Segundo ele, as conversas também deveriam envolver países não diretamente envolvidos nas hostilidades, como é o caso do Brasil.
Também falaram nesta quarta os líderes Xi Jinping (China), Cyril Ramaphosa (África do Sul) e Narendra Modi (Índia). Putin participou virtualmente por causa do mandado de prisão emitido pelo TPI (Tribunal Penal Internacional) por supostos crimes de guerra na Ucrânia.
Com a exceção de Putin, os demais governantes praticamente ignoraram a guerra na Ucrânia.
Putin fez sua fala logo após Lula.
Logo no começo ele justificou as ações da Rússia no país vizinho. Ele voltou a responsabilizar o Ocidente pelo conflito. “Nossas ações na Ucrânia são apenas uma coisa: colocar um fim na guerra lançada pelo Ocidente contra as pessoas no Donbass”, disse Putin.
“Agradecemos nossos colegas no Brics que tomaram medidas ativas na tentativa de colocar um fim a essa situação, para alcançar uma solução justa por meios pacíficos”, disse o líder russo.
Já Xi Jinping e Modi não fizeram nenhuma menção à crise na Ucrânia em seus pronunciamentos. O primeiro-ministro da Índia disse que apoia a expansão do Brics e citou medidas concretas que os integrantes do bloco poderiam atuar de forma mais próxima, como é o caso da cooperação espacial.
Xi, que lidera uma potência que se consolidou como a principal antagonista dos Estados Unidos, condenou o que chamou de “mentalidade da guerra fria”. Também criticou a formação de “grupos fechados”, numa referência a fóruns controlados pelo Ocidente, como é o caso do G7.
O que mais chegou perto de tratar da guerra da Ucrânia em seu pronunciamento foi Ramaphosa —mas ainda sim sem fazer qualquer menção direta ao país do Leste europeu ou à Rússia.
Ele disse estar preocupado com conflitos ao redor do globo que causam “grande sofrimento e dificuldades”. “Nossa posição permanece a de que diplomacia, diálogo, negociações e aderência aos princípios da Carta das Nações Unidas são necessários para a resolução pacífica de conflitos”.
O presidente sul-africano também fez breves comentários após a fala de cada um dos líderes. Depois de Lula, limitou-se a dizer que os esforços do brasileiro para “contribuir para um mundo pacífico é algo estimado”.
Depois da declaração de Putin, Ramaphosa agradeceu o russo por reconhecer os esforços de países do Brics na busca por uma solução para a guerra. “Concordamos que para encerrar esse tipo de conflito a negociação seria a melhor forma, como o senhor [Putin] sempre disse estar disposto a fazer”, disse.
A forma como a guerra na Ucrânia foi abordada na cúpula do Brics reflete de certa forma como diferentes países do bloco tratam do assunto no Conselho de Segurança da ONU.
O Brasil é o único país do Brics que votou em resoluções que condenam a invasão russa na Ucrânia —embora sempre tenha criticado o emprego de sanções unilaterais do Ocidente e tenha defendido que o tema não deve bloquear o trabalho de fóruns multilaterais.
Rússia se opõe a essas resoluções, enquanto Índia e China se abstêm.
Ainda na campanha à eleição, Lula havia indicado que pretendia tentar engajar o Brics nos debates sobre uma solução para o conflito. Num encontro com os embaixadores da África do Sul, Índia e Rússia em São Paulo semanas antes do primeiro turno, o petista questionou os diplomatas por quais razões o Brics não discutia a crise ucraniana em suas reuniões.
Ao menos nas declarações iniciais da cúpula, que são públicas, Lula parece não ter conseguido engajar os demais líderes em algum tipo de discussão sobre como encerrar diplomaticamente o conflito.
O Brics é um bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. A cúpula do grupo começou na terça (22), com a expansão do bloco como principal ponto da agenda.




