María Elena Morán narra fracasso da Venezuela em livro – 09/01/2026 – Ilustrada

María Elena Morán narra fracasso da Venezuela em livro -


Um componente da boa literatura é a construção de personagens que escapam da tentação das dicotomias fáceis. Fugindo de arquétipos de bondade ou de vilania, aquelas desenvolvidas pela escritora venezuelana María Elena Morán em seu romance “Voltar a Quando” são verossímeis porque são todas imperfeitas.

O romance adota cinco perspectivas para contar a desastrosa experiência da ditadura na Venezuela. Os capítulos alternam os pontos de vista entre cinco personagens. Porém, cada um deles é narrado com estilo diferente.

“Voltar a Quando” é resultado do doutorado da autora em escrita criativa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. O livro foi escrito originalmente em espanhol e traduzido para o português pela própria autora, que hoje vive em São Paulo. Deve ser publicado nos Estados Unidos ainda neste semestre.

No romance, a forma corresponde ao conteúdo. Portanto, o leitor convive com cinco vozes distintas alinhadas às características das personagens e seus conflitos. Mais do que um requinte narrativo, o recurso permite enxergar com abrangência os dilemas elaborados pela autora.

A opção por adotar diferentes pontos de vista forma um caleidoscópio literário. Na verdade interna do romance, a própria figura do caleidoscópio é modificada conforme a leitura avança.

A protagonista é Nina, apelido de Catalina Gutiérrez, uma ex-chavista que precisou deixar sua cidade natal de Maracaibo para migrar para o Brasil, em Porto Alegre. Nina é uma protagonista que divide o espaço de forma quase proporcional com as demais personagens. Mas é ela quem move a trama.

A filha adolescente de Nina, Elisa, permanece na Venezuela com a avó enlutada Graciela, viúva de Raúl. Elisa se sente abandonada, enquanto Nina se sente responsável por no começo ter apoiado o governo de Hugo Chávez. Assim, busca uma forma de consolidar a vida no exterior para só depois receber sua família.

Graciela, a avó que é mais cuidada pela neta do que o contrário, é a única personagem com narração em primeira pessoa. É dela o testemunho direto sobre a geladeira vazia, a inflação que impede a compra de itens básicos, o racionamento de água e o apagão de energia elétrica. É Graciela quem precisa vender a sua casa por apenas US$ 5.000, um episódio que foi inspirado na vida da própria autora.

Embora não tenha passado por todas as situações descritas, Morán usou inúmeros elementos autobiográficos para compor a história. É o caso da própria capa da edição brasileira. Nela, há uma fotografia de seu próprio acervo, na qual aparecem seus pais.

O registro espontâneo mostra uma celebração familiar com os pais sentados em cadeiras brancas de plástico, um signo latino-americano reconhecido em todo o continente.

O pai da escritora serviu de inspiração para o avô Raúl. Ele carrega o elemento de realismo mágico do romance, outro traço tipicamente latino-americano. Seus capítulos são permeados por brumas, espíritos de seus ancestrais e um tempo que não é linear como ocorre no mundo dos vivos.

Já Nina é narrada com parágrafos longos que emulam a velocidade de seus pensamentos revoltados com a situação da Venezuela. Elisa, por sua vez, é uma típica adolescente que alterna maturidade e ingenuidade. Quando volta a conviver com o pai, Camilo, seu contentamento faz com que a palavra seja escrita com hífens entre as letras, “p-a-i”. Um pai que possibilita conhecer o “m-u-n-d-o”.

Essa interação, porém, não é permitida pela mãe. Camilo integra o aparato estatal do chavismo e usufrui de privilégios políticos e de classe. Mas será um desertor.

Sua voz narrativa é a mais interessante, em segunda pessoa. “Você é tão ousado, tão ousadamente trouxa, você é um pedaço de merda que se acha diferente dessa gente rica e é tão arrogante quanto eles”, diz o narrador.

Com estilo apurado e personagens críveis, “Voltar a Quando” é um romance capaz de despertar empatia no leitor porque não fala apenas sobre o fracasso da ditadura venezuelana, mas sobre aquilo que é mais humano.



Fonte CNN BRASIL

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