Quando os dois filhos pequenos de Nur Kalima perguntam onde está o pai, ela diz que ele voltará em breve. Na realidade, porém, ela está convencida de que ele está morto há semanas.
Ela diz acreditar que seu marido, Abdul Rahman, estava em um dos dois barcos que, segundo a ONU, naufragaram na costa de Mianmar neste mês.
As embarcações seguiam para a Malásia, onde seus passageiros, em sua maioria membros da perseguida minoria muçulmana rohingya de Mianmar, esperavam construir uma vida melhor. Na última quinta-feira (16), a ONU disse temer que mais de 500 pessoas tenham morrido.
“Quem vai cuidar de mim agora?”, afirma Nur Kalima, 24, grávida do terceiro filho.
Sua família está entre mais de 1 milhão de rohingyas que vivem em campos de refugiados em Cox’s Bazar, em Bangladesh, desde que foram expulsos de Mianmar por seus compatriotas há quase uma década. Eles têm pouco ou nenhum acesso à educação ou emprego, e a ajuda internacional vem diminuindo há anos.
Cerca de seis semanas atrás, Abdul Rahman deixou o abrigo de bambu de sua família nos campos, presumivelmente para procurar trabalho no exterior. Uma semana depois, um homem, que não se identificou, ligou para Nur Kalima e disse que seu marido estava a caminho da Malásia.
Ele exigiu cerca de US$ 3.000 (R$ 15 mil) para mantê-lo em segurança, um sinal de que traficantes de pessoas estavam envolvidos na jornada de Abdul Rahman.
Então as ligações pararam. Em vez disso, começaram a chegar notícias sobre corpos que haviam dado à costa de Mianmar. O coração de Nur Kalima afundou.
A ONU afirmou acreditar que duas embarcações partiram do estado de Rakhine, região empobrecida no oeste de Mianmar e terra natal tradicional dos rohingyas, no final de junho. Alguns passageiros eram rohingyas que haviam retornado a Mianmar vindos dos campos em Bangladesh.
Um barco perdeu contato com a terra logo após iniciar sua viagem, segundo a ONU. O outro teria virado aproximadamente uma semana após o início da jornada.
Não há relatos de que alguém tenha vindo em socorro.
Lynn Htet, pesquisador birmanês da Fortify Rights, grupo de direitos humanos sediado na Tailândia, disse estar desanimado com o fato de centenas de pessoas poderem desaparecer sem que o mundo entre em ação para ajudá-las.
“Se as pessoas nos barcos fossem do Ocidente, muitos países teriam se unido para formar grupos de busca. Mas os rohingyas não têm nenhuma influência. São pessoas invisíveis.”
Na última década, cerca de 5.000 rohingyas morreram afogados no mar, segundo a ONU, sendo 2025 o ano mais mortal já registrado.
“Esta tragédia ressalta, mais uma vez, as consequências mortais da perseguição contínua, da violência e da negação de direitos básicos enfrentados pelo povo rohingya”, disse a organização Médicos Sem Fronteiras em comunicado.
Os rohingyas são apátridas em seu próprio país e são perseguidos há décadas. Em 2017, o exército de Mianmar lançou uma operação de violência étnica contra eles que a ONU e os Estados Unidos classificam como genocídio.
Em abril, acredita-se que 250 migrantes de Bangladesh, incluindo muitos refugiados rohingyas, morreram quando seu barco virou no Mar de Andamão.
Mohammed Rafique, 26, passageiro rohingya, foi um dos poucos sobreviventes. As condições no barco eram tão desumanas, contou ele, que alguns viajantes haviam morrido sufocados no porão de pesca superlotado antes de ele virar.
“Passei pelo pior e nunca encorajaria ninguém a fazer essa jornada”, disse.
A ONU está pedindo atenção ao número crescente de viagens de barco que os rohingyas estão fazendo pelo Golfo de Bengala, que faz fronteira tanto com Bangladesh quanto com Mianmar, enquanto tentam fugir de dificuldades e perseguição, ou são enganados e colocados em barcos por traficantes.
“Esforços regionais e internacionais mais fortes são necessários para evitar mais perdas de vidas ao longo de uma das rotas marítimas mais mortais do mundo”, disseram o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados e a Organização Internacional para as Migrações, agência da ONU, em comunicado conjunto.
Hamid Ullah, 19, estava entre os moradores do campo em Bangladesh que foram para Mianmar e acredita-se que estava em um dos barcos. Ele continua desaparecido. Mesmo antes de sua família perder contato com ele, era difícil alcançá-lo por telefone no estado de Rakhine, onde a conectividade foi em grande parte cortada devido ao caos da guerra civil de Mianmar.
Seu cunhado, Nur Mohammed, disse: “O quarteirão inteiro está rezando por ele”.




