Mojtaba Khamenei delega decisões a generais do Irã – 24/04/2026 – Mundo

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Quando o aiatolá Ali Khamenei governava o Irã como líder supremo, ele exercia poder absoluto sobre todas as decisões relacionadas à guerra, à paz e às negociações com os Estados Unidos. Seu filho e sucessor não desempenha o mesmo papel.

O aiatolá Mojtaba Khamenei, o filho, é uma figura elusiva que não tem sido visto nem ouvido desde que foi nomeado em março. Em vez disso, um coletivo experiente de comandantes da Guarda Revolucionária do Irã e seus aliados são os principais tomadores de decisão em questões de segurança, guerra e diplomacia.

“Mojtaba está administrando o país como se fosse o diretor de um conselho”, diiz Abdolreza Davari, um político que atuou como conselheiro sênior de Mahmoud Ahmadinejad quando ele era presidente do Irã e conhece Mojtaba.

“Ele depende fortemente dos conselhos e orientações dos membros do conselho, e eles tomam todas as decisões coletivamente”, disse Davari em entrevista por telefone de Teerã. “Os generais são os membros do conselho.”

Esse relato da nova estrutura de poder do Irã baseia-se em entrevistas com seis funcionários iranianos de alto escalão, dois ex-funcionários, dois membros da Guarda Revolucionária, um clérigo sênior familiarizado com o funcionamento interno do sistema e três pessoas que conhecem bem Mojtaba.

Outras nove pessoas com ligações com a Guarda e o regime também descreveram a estrutura de comando. Todos falaram sob condição de anonimato por estarem discutindo assuntos sensíveis de Estado.

Mojtaba, que foi escolhido por um conselho de clérigos como o novo líder supremo, está escondido desde que forças militares dos Estados Unidos e de Israel bombardearam o complexo de seu pai em 28 de fevereiro, onde ele também vivia com a família. Seu pai, esposa e filho foram mortos. O acesso a ele agora é extremamente difícil e limitado. Ele está cercado principalmente por uma equipe de médicos e profissionais de saúde que tratam os ferimentos sofridos nos ataques aéreos.

Comandantes da Guarda e autoridades de alto escalão do regime não o visitam, temendo que Israel possa rastreá-los até ele e matá-lo. O presidente Masoud Pezeshkian, que também é cirurgião cardíaco, e o ministro da Saúde estão envolvidos em seu tratamento.

Embora Mojtaba tenha sido gravemente ferido, ele está mentalmente lúcido e engajado, segundo quatro funcionários iranianos familiarizados com sua saúde. Uma perna foi operada três vezes, e ele aguarda uma prótese. Ele passou por cirurgia em uma mão e está lestamente recuperando os movimentos. Seu rosto e lábios foram severamente queimados, dificultando a fala, disseram os funcionários, acrescentando que, eventualmente, ele precisará de cirurgia plástica.

Khamenei não gravou nenhuma mensagem em vídeo ou áudio, disseram as autoridades, porque não quer parecer vulnerável ou soar fraco em seu primeiro pronunciamento público. Ele emitiu várias declarações escritas que foram publicadas online e lidas na televisão estatal.

Mensagens para ele são escritas à mão, lacradas em envelopes e transmitidas por uma cadeia humana de mensageiros confiáveis, que viajam por rodovias e estradas secundárias, em carros e motocicletas, até chegarem ao seu esconderijo. Suas orientações retornam pelo mesmo caminho.

A combinação de preocupações com sua segurança, seus ferimentos e a dificuldade de alcançá-lo resultou em Mojtaba delegando a tomada de decisões aos generais, pelo menos por enquanto. Facções reformistas, assim como ultraconservadoras, ainda participam das discussões políticas. Mas analistas dizem que os laços estreitos de Mojtaba com os generais, com quem cresceu ao se voluntariar para lutar na guerra Irã-Iraque quando adolescente, fizeram deles a força dominante.

O presidente Donald Trump afirmou que a guerra, juntamente com as mortes de camadas da liderança e do aparato de segurança do Irã, trouxe uma “mudança de regime” e que os novos líderes são “muito mais razoáveis”. Na realidade, a República Islâmica não foi derrubada. O poder agora está nas mãos de um aparato militar enraizado e linha-dura, e a ampla influência dos clérigos está diminuindo.

O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, um ex-general da Guarda e principal negociador com os Estados Unidos no Paquistão, disse em um discurso televisionado no sábado que a proposta dos EUA para um acordo nuclear e plano de paz, assim como a resposta do Irã, foram compartilhadas com Khamenei, e suas opiniões foram consideradas nas decisões.

A ascensão da Guarda

A Guarda Revolucionária, formada como protetora da Revolução Islâmica de 1979, acumulou poder gradualmente por meio de cargos políticos de alto escalão, participação em setores-chave da economia, domínio das operações de inteligência e cultivo de relações com grupos no Oriente Médio que compartilham a hostilidade do Irã em relação a Israel e aos Estados Unidos.

Mas sob o comando de Ali Khamenei, eles ainda tinham que, em grande parte, seguir sua vontade como figura religiosa singular que também servia como comandante-chefe das Forças Armadas. Ele fortaleceu a Guarda, e, com o tempo, ela se tornou ferramenta e pilar de seu regime.

A morte de Ali no primeiro dia da guerra criou um vazio e uma oportunidade. A Guarda se uniu em torno de Mojtaba na disputa pela sucessão que se seguiu e desempenhou um papel fundamental em sua escolha como o terceiro líder supremo do Irã.

A Guarda possui múltiplas alavancas de poder. O comandante-chefe é o general Ahmad Vahidi. O general Mohammad Bagher Zolghadr, recém-nomeado chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional, é um ex-comandante linha-dura da Guarda. O general Yahya Rahim Safavi atuou como principal conselheiro militar tanto do pai quanto do filho.

“Mojtaba não é supremo. Pode ser líder no nome, mas não é supremo como seu pai era”, disse Ali Vaez. “Mojtaba é subordinado à Guarda Revolucionária porque deve sua posição e a sobrevivência do sistema a eles.”

Os funcionários entrevistados dizem que os generais veem a guerra com os Estados Unidos e Israel como uma ameaça à sobrevivência do regime e, após cinco semanas de combates intensos, estão confiantes de que contiveram essa ameaça. Em todos os momentos, assumiram a liderança na definição da estratégia e no uso de recursos.

Eles abalaram a economia global ao fechar o estreito de Hormuz e usaram ganhos na guerra como alavanca para superar rivais políticos internamente. O presidente eleito e seu gabinete foram marginalizados e instruídos a focar apenas em assuntos domésticos, como garantir o fornecimento de alimentos e combustível e manter o funcionamento do país.

O ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, foi marginalizado nas negociações que liderava com os Estados Unidos antes da guerra, disseram autoridades. Ghalibaf assumiu a liderança.

O novo líder supremo seguiu essa linha, raramente ou nunca se opondo aos generais.

Foi a Guarda que elaborou a estratégia para os ataques do Irã contra Israel e os Estados do Golfo, além do fechamento do estreito ao tráfego marítimo. Membros da Guarda foram os que concordaram com um cessar-fogo temporário com os Estados Unidos e aprovaram a diplomacia indireta e negociações diretas com os EUA. Eles escolheram Ghalibaf para liderar as conversas com o vice-presidente J. D. Vance em Islamabad.

Pela primeira vez, vários generais da Guarda fizeram parte da delegação iraniana que negociava com os Estados Unidos.

Funcionários iranianos e três pessoas que conhecem Mojtaba Khamenei disseram que sua deferência à Guarda se deve, em parte, ao fato de ser novo no cargo de liderança. Ele não possui o mesmo peso político e religioso que seu pai tinha. E também se deve aos seus laços pessoais profundos com a Guarda.

Quando tinha 17 anos, Mojtaba se voluntariou para lutar na guerra Irã-Iraque. Ele foi destacado para uma brigada da Guarda chamada Batalhão Habib. Essa experiência o marcou e criou laços duradouros. Muitos membros dessa unidade ascenderam a posições influentes no aparato militar e de inteligência.

Mojtaba concluiu seus estudos em um seminário teológico, alcançando o título de aiatolá, considerado um estudioso e jurista da fé xiita. Trabalhou no complexo de seu pai, coordenando operações militares e de inteligência —papel que reforçou ainda mais seus vínculos com os generais e chefes de inteligência.

Diferenças emergem

Os generais não são as únicas vozes na mesa. A política iraniana nunca foi monolítica, e o sistema é projetado para ter estruturas paralelas de poder. Divergências sempre foram comuns e, muitas vezes, públicas entre figuras políticas e comandantes militares. Pezeshkian e Araghchi também têm assentos no Conselho de Segurança Nacional.

Mas, sob a atual liderança coletiva, são os generais que prevalecem, e não há sinais de desordem entre eles.

Na terça-feira, quando as equipes de negociação do Irã e dos EUA se preparavam para voar a Islamabad para uma segunda rodada de conversas, os generais interromperam o processo. Por dias, houve divergências sobre se o Irã deveria continuar negociando com Vance enquanto Trump mantinha um bloqueio marítimo. Cerca de 27 navios iranianos já haviam sido obrigados a retornar ao tentar entrar ou sair dos portos do país.

Trump havia publicado uma série de mensagens nas redes sociais pressionando o Irã a ceder a todas as suas exigências e renovado ameaças de bombardear usinas e pontes caso não houvesse acordo. Os EUA então apreenderam dois navios iranianos, o que enfureceu ainda mais os generais, que consideraram a ação uma violação do cessar-fogo.

O comandante-chefe Vahidi e outros generais argumentaram que as negociações eram inúteis, pois o bloqueio demonstrava que Trump não estava interessado em diálogo, mas sim em forçar a rendição do Irã.

Autoridades disseram que Pezeshkian e Araghchi discordaram. Pezeshkian alertou para as graves perdas econômicas da guerra, estimadas em cerca de US$ 300 bilhões (cerca de R$ 1,4 trilhão na cotação atual), e a necessidade de alívio de sanções para reconstrução. Também houve divergências sobre até que ponto o Irã deveria levar o fechamento do estreito.

Os generais venceram, e as negociações fracassaram.

Trump estendeu o cessar-fogo, mas mantém o bloqueio até que, segundo ele, os “líderes fragmentados” do Irã apresentem uma proposta própria de paz. O que acontecerá a seguir não está claro. Também não está claro se a Guarda permitirá concessões suficientes aos EUA sobre o programa nuclear iraniano para que um acordo de paz se concretize, incluindo duas questões sensíveis: congelar o enriquecimento e abrir mão de um estoque de 440 quilos de urânio altamente enriquecido.

Uma facção linha-dura no Irã, embora não dominante, se opõe a qualquer concessão, acreditando que, se o país continuar lutando, derrotará Israel e os Estados Unidos. Apoiadores dessa ala têm ido às ruas em manifestações noturnas, acenando bandeiras e prometendo dar seu sangue pela República Islâmica. Quando Araghchi chegou a postar nas redes sociais que o Irã estava abrindo o estreito,os linha-dura o atacaram, acusando a equipe de negociação de trair seus apoiadores.



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