Mudança climática intensificou em 40% chuvas na África – 29/01/2026 – Ambiente

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Chuvas excepcionais na virada do ano mataram ao menos 200 pessoas no sul do continente africano. Centenas de milhares foram afetados, assim como grandes áreas de plantações, pastagens e infraestrutura.

Só o Parque Kruger, o mais famoso do gênero, na África do Sul, calcula um prejuízo de US$ 30 milhões. Motor dessa coleção de estragos, as precipitações foram intensificadas em 40% pela mudança climática, mostra estudo publicado nesta quinta-feira (29).

Junto com o fenômeno La Niña, a crise climática transformou a atual temporada de chuvas em Moçambique, Essuatíni, Zimbábue e parte do território sul-africano na maior enchente da região desde 2000. “Colisão entre um clima que se torna cada vez mais perigoso e as vulnerabilidades sociais profundamente enraizadas que existem por aqui”, afirma, de Maputo, Bernardino Nhantumbo, pesquisador do Instituto Nacional de Meteorologia de Moçambique.

“Quando 90% das casas são feitas de barro, elas simplesmente não conseguem resistir a tanta chuva. O colapso estrutural de aldeias inteiras é um forte lembrete de que nossas comunidades e infraestrutura estão sendo testadas por condições climáticas para as quais não foram projetadas“, diz Nhantumbo, um dos autores do estudo rápido organizado pelo World Weather Attribution (WWA).

O consórcio de cientistas, liderado pelo Imperial College, de Londres, procura mensurar o impacto das mudanças climáticas em eventos extremos enquanto seus efeitos ainda estão em debate; no caso, efeitos ainda sendo sentidos, pois parte da região continua alagada.

Nhantumbo lembra que, de tantos atores responsáveis pelo aquecimento global, provocado sobretudo pela queima de combustíveis fósseis, os afetados pelas enchentes provavelmente estão entre os que menos contribuíram para o problema.

Apenas em Moçambique, 75 mil pessoas foram atingidas. Milhares de casas e quilômetros de estrada foram destruídos, incluindo trechos da principal rodovia do país; também foram perdidos 105 mil hectares de plantação e 34 mil cabeças de gado. Em algumas regiões, choveu em um dia mais do que os 200 mm esperados para um ano.

À jusante de uma série de bacias regionais, Moçambique vinha de um período de seca extrema, em 2023 e 2024. Moradias precárias à beira do rio Limpopo, um dos maiores da região, se tornaram armadilhas com as inundações. O estudo aponta ainda mineração ilegal e infraestrutura inadequada como fatores que intensificam as consequências do problema.

Nhantumbo pondera que sistemas de alerta, uma preocupação da ONU, foram implantados pelas autoridades desde a enchente histórica de 2000. “Houve avanços nesse sentido, mas não foram suficientes dada a excepcionalidade do evento atual.”

O desastre também evidencia a falta de estrutura para o monitoramento do clima na região. “Todos os modelos climáticos com que trabalhamos foram desenvolvidos fora da África“, diz Friederike Otto, professora do Imperial College e uma das fundadoras do WWA. “E os modelos naturalmente funcionam melhor nas regiões em que foram criados.”

Segundo Izidine Pinto, pesquisador do Real Instituto de Meteorologia da Holanda, os primeiros modelos do continente estão em desenvolvimento na África do Sul. “Tudo isso consome muitos recursos, que são limitados na África.”

Nos estudos de atribuição, dados observacionais são rodados em cinco modelos para determinar o grau de responsabilidade da mudança climática e de fenômenos naturais em eventos extremos. No caso atual, as conclusões sobre a magnitude das chuvas tiveram que se basear mais nas observações colhidas pelas estações e na literatura existente.

“Temos confiança nos números, mas eles poderiam ser mais precisos”, afirma Otto. A mudança climática tornou o regime de chuvas 40% mais intenso em comparação com o período de referência pré-industrial, quando não havia aquecimento global provocado pela atividade humana, padronizado no estudo como 1,3°C —o planeta já enfrenta mais do que isso.

O La Niña fraco, fenômeno natural que regularmente influencia o regime de chuvas, intensificou as precipitações no período de dez dias analisado em 22%. Medida de como o evento foi extremo, sua expectativa de frequência é uma ocorrência a cada 50 anos.

“Seria ainda mais raro em um clima não modificado pela atividade humana”, diz Pinto.

“Um aumento de 40% na intensidade das chuvas não é uma pequena anomalia estatística. Para uma família que vive em um assentamento informal, isso pode significar a diferença entre pés molhados e colapso total”, declara Otto, sobre os efeitos exacerbados da mudança climática quando os afetados fazem parte de uma população vulnerável.

“Não podemos simplesmente tratar essas enchentes como ‘atos de Deus’. São resultado direto de um sistema baseado em exploração e no fracasso global na eliminação gradual dos combustíveis fósseis.”



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