Mundo deve parar de armar Israel, diz jovem preso – 27/08/2025 – Mundo

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Em Israel, quase todo judeu não ortodoxo maior de idade já fez parte do Exército. Com serviço militar obrigatório de cerca de três anos para homens e dois anos para mulheres a partir dos 18, poucas famílias não tiveram experiência nas Forças Armadas. Num país de quase 10 milhões de habitantes, dos quais 70% judeus, há 465 mil reservistas, além dos 165 mil militares da ativa, entre oficiais de carreira e jovens cumprindo o alistamento.

A população ortodoxa, beneficiada por um acordo firmado na fundação do Estado de Israel em 1948, até pouco tempo estava isenta do serviço militar, e tentativas recentes de alistá-los têm encontrado resistência.

Há, porém, uma minoria que se recusa a servir não por razões religiosas, mas políticas. Conhecidos como “sarvanim” em hebraico (aqueles que se recusam, em português), ou “refuseniks”, esses jovens criticam a condução da guerra na Faixa de Gaza e a política do governo israelense de ocupar a Cisjordânia. Um deles é Soul Tsalik, 19, que se negou a aderir às Forças Armadas e passou três meses em uma prisão militar, de novembro de 2024 a janeiro deste ano.

Em entrevista à Folha em Tel Aviv, Tsalik explica como fez a escolha de se recusar a servir, como a sociedade israelense vê a guerra em Gaza hoje e que perspectivas enxerga para a paz. Ele é parte da organização ativista Mesarvot, que presta apoio jurídico a jovens detidos por não aceitarem o serviço militar.

Como o sr. tomou a decisão de que era preferível ser preso a servir nas Forças Armadas de Israel?

Foi um processo bastante gradual. Quando eu tinha 14 ou 15 anos de idade, comecei a me interessar por história e política e pelo que acontecia ao meu redor. Cresci em Jaffa [bairro com forte presença árabe em Tel Aviv], então eu estava familiarizado com a existência de árabes [risos]. Além disso, inglês é uma das minhas línguas maternas, porque minha mãe é americana, e eu comecei a pesquisar coisas em inglês. E quando você começa a aprender mais, isso te leva a um caminho diferente do esperado em Israel.

Depois disso, me envolvi com os protestos contra a reforma judicial [do governo Binyamin Netanyahu em 2023] e de lá descobri grupos contra a ocupação [da Cisjordânia] e que divulgavam a recusa pública [de se alistar]. E com 16, 17 anos, eu sabia que era isso que eu queria fazer.

O que os seus pais disseram?

Eles ficaram muito assustados. Tenho sorte de ter pais que me apoiaram ao longo do processo —muitas pessoas não têm isso, e muitas famílias romperiam relações com uma pessoa que tomasse essa decisão.

Como foi seu período na prisão militar?

Houve situações tensas de violência. Não me machuquei, mas conheço outros refuseniks que foram agredidos. Tive sorte, sei conversar e sou relativamente alto, então não fui espancado. Mas a prisão militar não está exatamente cheia de refuseniks [risos], então eu estava lá com soldados presos porque foram maus militares, e não porque se recusaram a servir, o que foi interessante.

Em Israel, parte da mídia retrata [refuseniks] como preguiçosos, covardes ou privilegiados, e de repente, na cadeia, você está cercado de soldados que pensam assim. Então foi um pouco assustador no começo, e perigoso. Mas, em pouco tempo, estando em um ambiente em que todos são tratados mal e estão sendo punidos da mesma forma, você desenvolve um certo espírito de corpo.

Depois de tanto tempo juntos, eles foram forçados a me ver como ser humano e a me escutar. No final do meu período na cadeia, estávamos tendo conversas francas, e as pessoas realmente me ouviam. Acredito que tenha convencido algumas pessoas de que precisamos lutar pela paz, e que a guerra não traz nada e só perpetua o ciclo de violência.

Qual é sua opinião sobre o que ocorre hoje em Gaza?

O que acontece hoje em Gaza é inimaginável. É a pior coisa possível. E é muito triste e doloroso que as coisas precisaram chegar a esse ponto para que Israel começasse a olhar nos olhos o que está fazendo. Mas isso finalmente está acontecendo. As pessoas estão enojadas e desiludidas. E espero que isso mude as coisas, mas precisamos trabalhar e encarar o que fizemos. Precisamos parar as guerras e a ocupação, e trabalhar pela paz.

Por que você acha que os israelenses negaram o que está acontecendo em Gaza?

Por uma série de razões. Uma delas é psicológica: quase todo mundo em Israel esteve no Exército. Quase todo mundo tem família no Exército. Muita gente perdeu familiares em guerras. Então você está imerso nisso. O Exército não pode ser ruim —pessoas que você ama morreram por ele.

Outra razão é a propaganda israelense de que nós judeus não estamos seguros em nenhum outro lugar, e que todo mundo quer nos matar, que toda crítica a Israel é antissemitismo. Isso é ridículo, mas é o que é oferecido à população, e as pessoas querem estar cegas. E se não querem, não conseguem abrir os olhos. Você não vê na mídia israelense o que acontece em Gaza.

A reação internacional à guerra em Gaza te surpreendeu de alguma forma?

Mais ou menos. Me surpreendeu no sentido de que a comunidade internacional transformou esse conflito em uma situação preto no branco. A resposta não é apoiar o Hamas ou apoiar cegamente Israel, e é ridículo que essas sejam opiniões populares. Isso me desapontou. Por outro lado, fiquei muito feliz de ver movimentos palestinos e judaicos [no exterior] que se manifestam contra a guerra e que têm crescido muito.

Agora precisamos que isso continue, que esses países ajam e apoiem os palestinos, apoiem a paz, parem de armar Israel e financiar as guerras de Israel.

Isso te preocupa? Pergunto porque a reação de muitos israelenses é afirmar que parar de armar o país coloca os judeus de Israel em perigo.

Os judeus de Israel estão em perigo por causa da guerra! O Exército israelense tem um desempenho medíocre em lidar com os problemas que ele mesmo cria. Essas guerras não estariam acontecendo se não as houvéssemos imposto contra os palestinos, se não estivéssemos ocupando seu território, se não houvéssemos financiado o Hamas antes do 7 de Outubro [o governo Netanyahu nega essa acusação].

Você vê um caminho para a paz e para a criação de um Estado palestino ao lado de Israel?

Sim. Sou muito otimista. Muitas pessoas se recusam a pensar nisso e dizem: é complicado demais. Há sangue demais dos dois lados. Mas para mim, o que é complicado é continuar essa situação. Manter a ocupação da Cisjordânia é complicado, fazer a guerra contra Gaza é complicado, e as pessoas estão pagando por isso. Todos estão sofrendo com o conflito, e não há solução a não ser a paz. Você não vai conseguir se livrar de cinco milhões de palestinos [que vivem na Cisjordânia e na Faixa de Gaza]. É impossível. E continuar a [apoiar a guerra] só vai aumentar o tempo que demora para chegarmos até a paz, que é onde vamos chegar um dia.

Precisamos entender que esse conflito é terrível para todos. Precisamos parar de financiar essas guerras, e quero que a comunidade internacional pare de armar meu governo e comece a financiar a luta pelos direitos dos palestinos. Isso também é importante para os israelenses.



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