A captura de Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos não pode ser explicada apenas pela disputa em torno do petróleo venezuelano, segundo William Clavijo, PhD em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento pela UFRJ e líder da ONG Redeven (Rede de Venezuelanos no Brasil). Para ele, o movimento americano responde a interesses geopolíticos e de segurança mais amplos, ligados à instabilidade regional, ao crime organizado e à migração forçada.
“Reduzir tudo ao petróleo é uma leitura muito incompleta e incorreta”, afirmou Clavijo, que também é pesquisador do setor de petróleo e gás natural, em entrevista à coluna. “Os Estados Unidos têm interesses estratégicos profundos na região, que vão muito além da exploração de recursos naturais.”
Para o especialista, a própria trajetória recente do chavismo enfraquece o argumento de que o petróleo teria sido o principal gatilho da ofensiva. “Se fosse só por petróleo, ninguém ofereceu mais acesso aos recursos venezuelanos do que o próprio Nicolás Maduro, inclusive a empresas americanas. E os EUA nunca saíram totalmente do país —a Chevron [petroleira americana] continuou operando e foi fundamental para a recuperação parcial da produção“, disse.
Esse histórico está ligado às características da própria indústria petrolífera venezuelana. O país concentra algumas das maiores reservas do mundo, mas grande parte do óleo é pesado e de difícil manuseio. Diferente do petróleo leve, ele exige mais etapas de processamento e não pode ser refinado em qualquer instalação. Com refinarias sucateadas após anos de falta de investimento e sanções, a Venezuela passou a depender de apoio externo para transformar o petróleo bruto em combustível e derivados comercializáveis. Por isso, empresas estrangeiras como a Chevron foram centrais para viabilizar a produção no país.
Clavijo afirma que, apesar do foco público do presidente Donald Trump no petróleo, as declarações recentes de autoridades americanas indicam a existência de um plano em etapas: estabilização do país, recuperação econômica e, só então, eleições. “Depois de quase três décadas de chavismo, uma transição imediata poderia não se sustentar. Os corpos de segurança não respondem à Constituição, mas a um projeto autoritário”, afirmou.
À frente de uma organização que atua diretamente com migrantes venezuelanos no Brasil, ele diz que, até o momento, não houve mudança significativa no fluxo migratório. “A operação militar foi limitada e cirúrgica. Um aumento expressivo só ocorreria em caso de conflito armado amplo, o que não aconteceu”, afirmou.
Ainda assim, Clavijo avalia que o futuro permanece indefinido. “Há esperança, mas também muita cautela. A maioria dos venezuelanos entende que esse é um processo longo. Só haverá retorno em massa se a Venezuela voltar a ser um país estável, com condições reais de receber sua população de volta.”
com IVAN FINOTTI (INTERINO), DIEGO ALEJANDRO, KARINA MATIAS e VICTÓRIA CÓCOLO




