“Antes que eu me esqueça, vamos tentar fazer o mesmo? Tentar entrar e visitar? Se rolar, você topa ir?”
A mensagem do meu editor chegou em 18 de novembro de 2024 acompanhada de um link que mostrava a visita de uma emissora internacional ao Cecot, o Centro de Confinamento do Terrorismo, em El Salvador.
A partir daquele dia, passei a contatar periodicamente o governo de Nayib Bukele para solicitar o tour. Foram 13 tentativas, entre mensagens e ligações a diferentes funcionários do governo, até receber a confirmação mais de um ano depois, em uma noite de dezembro de 2025.
Esperava amigas em um restaurante de São Paulo com a tranquilidade de quem pensava que os grandes acontecimentos do ano haviam acabado. “Daniela, no dia 15 de dezembro entrarei com um grupo de jornalistas no Cecot. Quer vir?”, li no chat com a assessora de imprensa internacional do governo salvadorenho.
Em menos de duas semanas, embarcava no que seria a minha terceira viagem a El Salvador e que daria origem à série “Cecot – Por dentro da prisão de Bukele“.
Durante a viagem de 45 minutos do aeroporto até o hotel em que me hospedaria, tentei começar uma espécie de apuração informal com o motorista, como praxe, e puxei um assunto sobre política.
“Acho melhor não conversarmos sobre isso”, respondeu ele, num tom simpático. O motivo, explicou, era a gravação que o aplicativo fazia da corrida —o que não parece ter muito sentido, mas diz muito sobre o estado de paranoia que atinge alguns críticos do presidente.
No caminho, não vi as placas que, em julho de 2022, incentivavam a população a ligar para o número 123 e denunciar supostos criminosos. Tampouco vi a propaganda massiva de Bukele que tomava conta da cidade em fevereiro de 2024, quando ele foi reconduzido ao cargo com mais de 84% dos votos e contra quatro artigos da Constituição que proibiam a reeleição.
Escrever sobre a prisão a partir de uma visita tão controlada e ensaiada foi um desafio. Lembrei-me de uma entrevista que fiz em setembro de 2023 com o fotógrafo Evandro Teixeira (1935-2024), autor de algumas das mais importantes imagens do golpe de Estado no Chile, em 1973, como enviado do Jornal do Brasil.
Durante uma visita programada pelos militares ao Estádio Nacional, que se tornaria um centro de tortura do regime de Augusto Pinochet, Teixeira percebeu um momento de desatenção dos soldados. Então, desceu as escadas que davam acesso ao subsolo e fez imagens de uma porção de homens espremidos atrás das grades, com os olhares assustados para o fotógrafo.
“Fiz meia dúzia de fotos e caí fora porque estava com a barriga doendo de medo”, afirmou.
No Cecot, qualquer tentativa do tipo era frustrada pela assessora, que ameaçava encerrar a visita a cada vez que ousávamos sair do roteiro —por exemplo, quando tentei, em vão, ficar para trás do grupo e trocar palavras com algum dos guardas.
Não sei quantas vezes recordei o momento em que adentramos o pavilhão onde estavam os presos para escrever o texto que abre a série. Em todas, revisitei o sentimento de me sentir um pouco algoz de pessoas que, independentemente de seu passado, talvez não queriam ser vistas em condições humilhantes.
A situação mais constrangedora daquele dia foi a sessão de três perguntas que nos permitiram fazer a um dos presos, que nos esperava sentado em meio a guardas armados na saída do pavilhão. Antes de questioná-lo sobre o que achava daquele tipo de visita, agradeci por seu tempo e me abaixei um pouco para ficar na sua altura. Ele obviamente não tinha escolha a não ser falar conosco, e tentar devolver um pouco de decoro à situação era infrutífero.
“Vi algumas carinhas estranhas entre os jornalistas. Sei que é difícil entender isso quando vocês não experimentaram ter uma arma apontada para a cabeça”, disse o diretor do Cecot e guia do tour, Belarmino García, enquanto éramos conduzidos para a saída do presídio, após a visita. “Seria bom se, em suas críticas, vocês não se concentrassem apenas no que veem aqui. Peguem qualquer cidadão comum e deixem-no contar o outro lado da história.”
Já passava das 22h daquele dia quando fui entrevistar María Zelaya, uma mulher de 58 anos que ilustra o terceiro capítulo da série. Seu filho mais velho foi assassinado em 2015, quando El Salvador registrou um pico de 105 mortes por 100 mil habitantes. Naquele ano, seria impossível entrar com segurança em seu bairro, em San Salvador, durante a noite —o que mudou com o estado de exceção. Foi também o estado de exceção que levou seu outro filho, que ela diz ser inocente, ao Cecot.
Compreendi a força do presídio apenas ao conversar com um colega salvadorenho, no dia seguinte à visita. “Aquilo é um monumento ao ódio”, disse ele, em um bar da capital. “Todo mundo tem um conhecido morto pelas gangues.”
É difícil captar a intensidade da raiva de uma sociedade que chegou a ter uma das mais altas taxas de homicídios do mundo —assim como é difícil prever o que vai acontecer com o país se apenas os resultados na segurança não mais sustentarem a popularidade de Bukele.




