Após anos tolerando certa anarquia em suas estradas, o Japão está impondo regras mais rígidas aos ciclistas: sombrinhas foram proibidas, condução instável pode trazer problemas legais e azar de quem for pego pedalando de volta do supermercado com muitas sacolas mal acomodadas.
Desde 1º de abril, a polícia em todo o Japão começou a pôr em prática uma emenda de 2024 à lei de trânsito de 1960, que impõe multas para 113 infrações relacionadas ao ciclismo, muitas delas relativamente pequenas.
Durante décadas, ciclistas circularam pelas ruas e calçadas do Japão sem necessidade de licença, enfrentando pouca interferência das autoridades ou reprovação social. Segundo o último censo, de 2020, cerca de oito milhões de japoneses utilizam bicicletas como parte do trajeto diário para o trabalho ou a escola.
No entanto, essa abordagem livre chegou a um fim abrupto. Com a intenção de tornar as estradas mais seguras, a polícia estará autorizada, sob o novo sistema azul de multas, a aplicar penalidades imediatas que vão de ¥3.000 (R$ 98) por uso indevido da campainha e ¥6.000 (R$ 194) por frenagem brusca até ¥12.000 (R$ 388) por deixar a bicicleta em vagas reservadas a motoristas idosos.
Muitas das novas penalidades visam reforçar regras de trânsito que já são rigorosamente aplicadas a veículos motorizados, mas para as quais ciclistas —desde pais levando crianças à escola até entregadores e trabalhadores de escritório— enfrentavam apenas advertências verbais.
Outras medidas — como proibição do uso de fones de ouvido, pedalar com uma mão, utilizar bicicletas de marcha fixa sem freios e transportar “carga mal acomodada” — são novas infrações específicas para ciclistas. Andar sem capacete, no entanto, não está entre as infrações listadas.
As multas serão aplicadas a ciclistas com mais de 16 anos.
“Eu pedalo desde criança e fui parado pela primeira vez hoje”, disse Teranishi, um cabeleireiro de 61 anos que foi abordado pela polícia a caminho de seu salão no distrito de Shibuya, em Tóquio, por segurar um guarda-chuva enquanto pedalava sob garoa.
“Todo mundo carrega guarda-chuva na chuva”, afirmou. “Na verdade, eles só me deram uma advertência, mas disseram que da próxima vez será multa.”
Uma regra particularmente controversa exigirá que ciclistas circulem na via, e não na calçada. Crianças e pessoas com mais de 70 anos estarão isentas, mas a medida deve levar milhões de ciclistas a ruas desconhecidas, onde encontrarão motoristas pouco acostumados a compartilhar espaço.
Até 2023, a região metropolitana de Tóquio havia instalado 51 km de ciclovias. Outros 26 km estavam planejados, mas o governo metropolitano e o Ministério dos Transportes não confirmaram o foi efetivamente construído. Muitas ciclovias também são frequentemente bloqueadas por carros estacionados.
Nos últimos 20 anos, o número de ciclistas no Japão caiu cerca de um quarto, enquanto o total anual de acidentes envolvendo bicicletas diminuiu cerca de 60%, para 67.470.
Mais de três quartos desses acidentes envolveram colisões entre carros e bicicletas, enquanto cerca de 3.000 incidentes envolveram pedestres.
Autoridades apontam pesquisas governamentais que mostram que, em 75% dos acidentes, o ciclista estava violando leis de trânsito existentes e argumentam que o novo sistema acabará salvando vidas.
Nos primeiros dias sob o novo sistema de fiscalização nesta semana, a mídia japonesa retratou o que muitos chamam de uma nova forma de arrecadação do governo.
“O número de acidentes está caindo, assim como a criminalidade no Japão. A polícia apenas inventou mais algo para fazer”, disse uma ciclista no distrito de Roppongi, em Tóquio, após ser multada por andar sem luz funcionando.
Ainda assim, uma pesquisa conduzida pela seguradora Sompo constatou que 64,5% dos adultos japoneses aprovam o novo sistema de multas, embora apenas 16,5% afirmem entender seus detalhes.




