Há tempos o presidente francês não provava o sabor da unanimidade. Provou nesta semana. Primeiro, Binyamin Netanyahu enviou e divulgou carta a Emmanuel Macron, acusando-o de incendiar o antissemitismo. Depois, o embaixador americano na França, Charles Kushner, cujo filho é casado com a filha de Trump, enviou e divulgou outra carta ao francês, afirmando que o combate ao antissemitismo do seu governo é insuficiente.
Da esquerda radical à direita, a classe política francesa apoiou Macron, que reagiu em outra carta. Chamou a manifestação de Netanyahu de “abjeta”. Depois determinou que o embaixador americano fosse se explicar no Quai d’Orsay, sede da diplomacia francesa. Kushner, malandramente, destacou um enviado para ouvir a reprimenda de que os EUA nada têm a ensinar à França nessa matéria.
Antissemitismo é um tema que remexe as entranhas da “République”. Prestes a ocupar a tribuna da ONU para reconhecer o Estado palestino, Macron entrou na mira do primeiro-ministro israelense.
Tem se defendido com uma recente pesquisa, segundo a qual houve queda de 27% dos atentados antissemitas na França no primeiro semestre de 2025, comparando-se a igual período em 2024. Cobra punição exemplar para quem cortou a oliveira plantada num parque próximo de Paris, em memória de Ilan Halimi, jovem judeu torturado até a morte por uma gangue em 2006. E garantiu que a comunidade judaica, como um todo, será sempre protegida no país.
Seus gestos mais simbólicos, no entanto, têm a ver com um caso célebre que dividiu a França no final do século 19. Para cultuar a memória do capitão Alfred Dreyfus, um judeu da Alsácia, condenado como traidor da Pátria num complô antissemita, Macron estabeleceu que 12 de julho passe a ser o Dia Dreyfus. Promete festa no aniversário dos 120 anos da absolvição do capitão, em 2026. E fará o traslado do caixão de Dreyfus do Cemitério de Montparnasse para o Panteão, em Paris, para que o homenageado repouse ao lado dos grandes.
Apesar de toda a ofensiva macronista, a carta do antissemitismo continuará a ser jogada por Netanyahu contra líderes que rejeitem o horror do que se passa na Faixa de Gaza e defendam a solução dos dois Estados. Não por acaso, dias atrás, um de seus ministros tascou que Lula é “antissemita e apoiador do Hamas“, seguindo a tática de atritar para manter o fogo alto.
O insano nisso tudo é que, enquanto cartas e farpas são trocadas, Israel bombardeia o último hospital operacional em Khan Yunis, matando 20 pessoas, entre doentes, médicos e jornalistas. Mais um crime de guerra tratado como “trágico acidente”.
Num artigo corajoso publicado nesta semana, Thomas L. Friedman, colunista do jornal The New York Times, apontou três dimensões para a guerra em Gaza: a homicida (são mais de 60 mil mortos), a suicida (Israel está se transformando num estado-pária) e a fratricida.
Sobre esta dimensão vale refletir um pouco mais. Até quando Netanyahu sufocará o desalento que cresce na sociedade israelense? O que acontece quando boa parte do país se dá conta de que a opção do governante nunca foi pela libertação rápida dos reféns, mas pela intensificação da guerra? Nesta sociedade fraturada, a cada dia torna-se mais difícil manter uma coesão acima do bem e do mal, quando mais e mais vidas terminam como restos perdidos sob escombros.